Os candidatos à casa branca e a política internacional (1): a Palestina
Escrito por Luiz Eça
01-Fev-2008
Os pré-candidatos à Casa Branca do
partido Democrata, e até alguns republicanos, não têm poupado críticas à política
internacional de George Bush. Mas a verdade é que, particularmente no Oriente
Médio, hoje o principal “front” externo dos Estados Unidos, o novo presidente,
seja quem for, continuará atrás dos objetivos atuais: o controle e a exploração
do petróleo da região – a defesa incondicional de Israel –, a guerra sem
tréguas contra os movimentos islâmicos, terroristas ou não, e a destruição de
qualquer potência emergente fora de sua área de influência.
Analisando o que cada um diz, vemos que
as críticas são de forma, não de conteúdo. O que pode mudar é a troca das
pressões militares, do uso da força e das violações do direito internacional pela
diplomacia, a pressão econômica e a promoção da imagem dos Estados Unidos.
Em vez da violência, marca dos tempos de
Bush, teríamos o respeito às normas da boa convivência entre as nações. Em
termos, porém. Sempre que os objetivos americanos forem seriamente ameaçados,
Gengis Khan entrará em ação. E
aí, bolas para o direito internacional.
Começamos hoje a publicar uma série de
artigos, analisando as posições dos principais candidatos à sucessão de Bush em
matéria de política externa. O primeiro foca a Palestina. Nas semanas
seguintes, os temas serão o Iraque, o Irã e, por fim, a América Latina, onde o
presidente Chávez e seus aliados Morales, Kirchner e Correa deverão seguir
dando trabalho à diplomacia yankee.
Palestina:
quem é mais pró-Israel?
O Haaretz, um dos principais jornais israelenses,
criou um ranking dos candidatos à Casa Branca, classificados com notas de 0 a 10 de acordo com a
intensidade do seu apoio aos interesses de Israel.
Todos os principais presidenciáveis foram aprovados
com nota acima de 5, mas o Haaretz considerou Rudy Giuliani “o melhor para
Israel”, atribuindo-lhe um 8,37. Pesaram nesta escolha frases como “Israel é o
único amigo absolutamente confiável dos Estados Unidos” e fatos como a expulsão
de Arafat de um concerto no Lincoln Center.
Giuliani desistiu de sua candidatura, mas Hilary, com
7,62 pontos e o segundo lugar no ranking, o substitui à altura nas preferências
de Telavive. Ela
própria diz por quê: “Minha posição por mais de 20 anos tem sido fazer de
tudo para apoiar Israel”. Recorda-se que, já em 1995, procurou convencer o
então presidente Clinton a vetar uma resolução da ONU condenando violências de
Israel contra os árabes. Falando ao Senado, em outubro de 2000, exigiu que o
governo americano cortasse toda a ajuda aos palestinos caso eles declarassem
unilateralmente sua independência – com o que, aliás, não estariam fazendo mais
do que obedecer à ONU.
Mais
recentemente, ela protestou quando a Corte Internacional de Justiça condenou o
muro de Sharon por usurpar territórios palestinos. E a invasão do Líbano, que
causou a morte de 1.200 civis, contou com seu entusiástico apoio, que se
estendeu à oposição do governo Bush ao cessar fogo da ONU, para dar tempo a que
os invasores matassem mais soldados do Hisbolá.
Como
Giuliani, Hillary também tem frases encomiásticas muito do agrado dos políticos
judaicos: “Israel é um farol, indicando o que a democracia pode e deve
significar”.
Não
é de se admirar que, ao se candidatar ao Senado, tenha recebido financiamentos
dos lobbies israelenses que excederam largamente as doações aos demais
candidatos (dado da Comissão Eleitoral Federal dos EUA).
Também
considerado confiável, John McCain é o terceiro no ranking do Haaretz, com nota
7,12. Para ele, “não pode haver paz admissível entre Israel e o palestinos até
que estes reconheçam Israel, repudiem o uso de violência, reconheçam acordos
anteriores e reformem suas instituições”. Curiosamente, MCain não exige
reciprocidade de Israel, que pode continuar com sua política de “matança
seletiva” de adversários do Hamas e sua rejeição a uma Palestina independente,
com as fronteiras de antes de o exército israelense ocupar o país.
Para
deixar claro até onde vai seu comprometimento com a causa israelense, McCain
disse: “A América precisa fornecer a Israel todos os equipamentos militares e a
tecnologia que o país requer para se defender, acima e além do que estamos
fornecendo agora”. É dose, considerando a péssima situação financeira dos
Estados Unidos, hoje.
Mit Romney, o quarto colocado, com 6,5, também
tem se derramado em protestos de amizade ao governo de Telavive. Em 2006, ele
deixou a AIPAC, principal lobby pró-Israel dos Estados Unidos, encantada
quando, como governador de Massachussets, negou proteção policial ao ex-presidente
do Irã, Khatami. Foi excesso de sabujice ou de ignorância. Khatami, um
moderado, visitava os Estados Unidos buscando um diálogo pela paz entre os dois
países.
O ex-pastor batista, Huckabee, vem logo depois. Lotado
de preconceitos anti-islâmicos, ele se mostra mais sionista e radical do que os
próprios fundamentalistas judaicos ao propor que o futuro estado palestino não se
localize na Cisjordânia (que ele considera parte de Israel), mas em um país
árabe. É demais para o pessoal do Haaretz! Eles sabem que idéias assim podem
lhes ser simpáticas, mas trariam problemas explosivos. Daí, o quarto lugar e o
6 de Huckabee.
Barack Obama passa raspando neste exame, em
último lugar, com meros 5. Mereceria classificação melhor, levando-se em conta
seus últimos pronunciamentos.
Em visita a Israel, ele rotulou o então primeiro-ministro
Sharon de “absolutamente importante e construtivo” para o processo de paz.
Invasão do Líbano, bombardeios de Gaza e total assistência militar a Israel têm
seu apoio. Além disso, co-patrocinou o Ato Anti-Terrorismo Palestino de 2006,
que conclama a comunidade internacional a evitar contatos e financiamentos para
o governo do Hamas, “até que ele reconheça Israel, renuncie à violência e
desarme-se”. Enquanto isso, faz vistas grossas aos “assassinatos seletivos” de palestinos,
à sistemática recusa dos governos de Israel de reconhecer o Estado palestino
nos limites definidos pela ONU e ao bloqueio da faixa de Gaza, um ato de
violência sem precedentes contra a população árabe.
Apesar de um apoio tão amplo, os israelenses não
esquecem que, até eleger-se senador, Obama foi ativo nos movimentos em favor do
povo palestino. De lá para cá, vem pendendo sempre para o lado de Israel. É
verdade que, ainda no ano passado, ele deu uma “escorregada”.
Ao proclamar que o direito de retorno dos palestinos
não poderia ameaçar a integridade do Estado judeu,
afirmou que “Israel tem de reconhecer que o Estado palestino precisa ser coeso
e capaz de funcionar”. Ora, um Estado palestino emasculado por colônias
judaicas espalhadas pelo país, como quer o governo israelense, jamais será
“coeso e capaz de funcionar”.
Por essa e por outras, os demais
candidatos são mais bem pontuados.
Eleito, McCain deve continuar a linha de
Bush de apoio total ao governo de Telavive. Por ser “o mais liberal dos conservadores”,
talvez ele faça algumas pressões pontuais para suavizar abusos. Tendo uma longa
e estreita associação aos lobbies judaicos americanos e uma atuação pró-Israel
sem senões, Hilary não será diferente. Ganhando Romney, o mais “georgista” dos
candidatos”, ou Huckabee, o cruzado anti-islâmico, nada deverá mudar.
Mas e Obama?
Será que sua declaração a favor de um “Estado
palestino coeso e capaz” ainda vale?
O voto judaico é importantíssimo, talvez
essencial nas prévias do Estado de Nova Iorque. Parece que Obama tem isso bem
presente, pois, no decorrer da campanha, seu comprometimento com as teses
israelense é cada vez maior.
Luiz
Eça é jornalista.
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