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ISSN 1983-697X
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A educação e a família... mas que família? PDF Imprimir E-mail
Escrito por Gabriel Perissé   
01-Fev-2008

Contou-me uma professora que certa aluna sua recusava-se a separar os dígrafos RR e SS. Embora com autorização expressa da gramática, a menina queria as duas letras juntas. A professora só entendeu mais tarde, quando descobriu que os pais da aluna estavam separados e “separação” tornara-se palavra cruel demais.

 

Os educadores envolvidos com o cotidiano das salas de aula, e não apenas com as estatísticas (que têm sua função, mas jamais dizem tudo), experimentam na carne os reflexos incontestáveis da vida familiar no desempenho escolar dessas crianças e jovens, no seu comportamento, na sua timidez ou expansividade, na sua agressividade ou tranqüilidade.

 

Não idealizemos a família. Idealizá-la é uma tentação (no fundo compreensível) quando pensamos na importância que desempenha no desenvolvimento psicológico e moral do indivíduo. Neste ponto, contudo, como em muitos outros, os poetas acabam sendo mais realistas (porque aceitam o que há de ambivalente na realidade) do que os filósofos e sociólogos mais perspicazes.

 

Lembro as palavras de Paul Valéry lá pela década de 30 do século passado: “Cada família expele uma secreção, esse aborrecimento interior e específico que faz os seus membros, enquanto ainda têm vida, fugirem dela quanto antes. Mas a família possui também uma antiga e poderosa virtude que reside na comunhão de todos em torno da refeição à noite, e no sentimento de cada um poder ser, diante dos demais, aquilo que de fato é, sem fingimentos”.

 

Todas as famílias terão suas contradições. O que preocupa, no entanto, é a família desarticulada, mesmo que aparentemente unida. Há escolas que começam a ter medo de comemorar o Dia dos Pais ou mesmo das Mães... porque pais ou mães vivem tão ocupados que mal podem participar de um encontro com seus filhos nesses momentos. Mães e pais mergulhados na vida profissional delegam às babás, aos instrutores, aos docentes, aos avós responsabilidades básicas que somente os pais nasceram capacitados para assumir.

 

Tarefa fundamental dos pais: dar tempo aos filhos. Falar com eles. Ainda que os filhos reclamem dos “sermões” maternos e paternos, são essas palavras as que ficam, em forma de lembrança, ensinamentos profundos, âncoras para quando vierem as tempestades.

 

A falta de tempo para conviver em família faz da família uma farsa entediante, e da educação familiar perigosa ilusão. Não basta coincidir algumas horas sob o mesmo teto.

 

 

Gabriel Perissé é doutor em Educação pela USP e escritor - Web Site: www.perisse.com.br




  Comentários (7)
 1 Família; a quantas anda
Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email , em 02-02-2008 14:22
Tenho dito nas mais diversas reuniões das quais participo, que muitas crianças se tivessem nascido de um pé de tiririca seriam mais felizes, tal é o grau de estrago que certo tipo de pais causam na vida dos filhos. Dizem uma coisa e fazem outra. Ensinam a não mentir e mentem descaradamente. Falam palavrões e dizem que não devem fazê-lo. Fingem ser o que não são esquecendo que a criança tem uma sensibilidade aguçada pela curiosidade. Filhos acontecem como acidente de percurso. Poucos são os desejados de fato. E, o feto percebe o fato...vai carregar para sempre o vazio inexplicável: parece que falta algo... mas, o que? Seria o Amor? Quem sabe?
 2 ¿culpar los padres?
Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email , em 04-02-2008 15:23
Me parece que culpabilizar los padres ( y lógico a la madre que es la que no debía trabajar) lo único que hace es reforzar posiciones conservadoras. Existen padres y madres que están el día entero com sus hijos y la familia es un infierno. Por otro lado, padres y madres realizados profisionalmente, aún que no pueden estar mucho tiempo com sus hijos garantizan mejor ingresos y futuro para los hijos, y son um aliento para ellos.
 3 Trabalho feminino
Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email , em 06-02-2008 07:13
A coisa mudou. A relação familiar mudou. A escola mudou. O mercado de trabalho mudou. E o pior de tudo, a educação mudou. Tudo isto por que a mulher resolveu sair de casa, foi a luta atrás do trabalho. Deixou em casa toda esta mudança. Coisa que é natural dela ficou para outras pessoas fazerem...cuidar dos filhos, educa-los, prepara-los para a vida. Com isto...invadiu tambem o espaço do homens pais de familias no mercado de trabalho. Não sou contra....mas esta é explicação para tanta mudança...a mulher resolveu mudar o seu comportamento e mudou a vida de todo mundo.
 4 O de casa vai á praça!
Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email , em 11-02-2008 11:25
A família assim como qualquer grupo social somente existe se houver cumplicidade de todos os membros que nele interagem.Para tanto fáz-se necessário o conhecimento de cada um dos individúos comprometidos nesta união,das vitudes e das fragilidades de cada um.Uma criança que cresça nesta atmosféra de dialogo,ainda que naõ tenha a presença integral dos pais,certamente será um cidadão construtivo!
 5 Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email , em 14-02-2008 18:41
Culpar os pais (principalmente a mulher) parece sempre ser a situação mais cômoda, os homens dever perceber que se assumissem a sua responsabilidade no zelo dos filhos, talvez as crianças não estariam tão largadas.
 6 família e suas novas facetas
Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email , em 06-08-2008 17:25
A FAMÍLIA ASSUME A CADA DIA NOVAS CONSTITUIÇÕES E PENSAR EM FAMÍLIA, COMPORTAMENTO,FICOU COMPLEXO. DIANTE DE TANTOS MODELOS, QUAIS OS PAPÉIS A SEREM DESIGNADOS A CADA MEMBRO. E AS IM´POSIÇÕES SOCIAIS, DE QUE TODOS DEVEM TRABALHAR PARA CONSEGUIR SEMPRE MAIS. O QUE SE NOTA DIANTE DESSE MODELO CONTEMPORÂNEO É QUE, QUEM SEMPRE PERDE SÃO AS INDEFESAS CRIANÇAS. 
MAS DEVE SER LEMBRADO QUE SEUS TUTORES, RESPONSÁVEIS ,PAIS TEM UMA OBRIGAÇÃO PARA COM ESTA CRIANÇA, É O QUE SE CONFERE NO ECA,NA CONSTITUIÇÃO, NA LDB.FIQUEM ATENTOS!
 7 Alerta aos professores
Escrito por Este endereço de e-mail está protegido contra spam bots, pelo que o Javascript terá de estar activado para poder visualizar o endereço de email , em 20-08-2008 14:13
Não acho correto julgar de quem é a culpa, é preciso nós como educadores nos conscientizar que as nossas crianças precisam de apoio e carinho e que na ausência de seus pais nós somos um pouco mais responsável por eles. O que fazer para mudar essa situação? Dedicarmos mas a esses alunos e resgatar para dentro da escola esses pais que "andam perdidos", mostrar o quanto eles são fundamentais na vida dos seus filhos e que nós como educadores sozinhos não podemos fazer tudo,até tentamos mais se torna quase que impossível.

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