A tônica do dia 25 de janeiro – aniversário da cidade de São
Paulo e celebração do Centenário de sua Arquidiocese - foi dada pelo incidente
ocorrido na catedral da Sé, em plena celebração da missa comemorativa: o
Benedito, morador de rua, armado de uma faca, adentrou a área do altar e, ao
ser contido por presentes, feriu três pessoas.
Chamaram-nos a atenção os depoimentos feitos na delegacia
por testemunhas do ato. Afirmavam que o morador de rua dizia palavras
desconexas, tais como: “São Paulo me fez assim...” e “Me mata, São Paulo...”.
Afirmaram ainda que, quando interrogado por que teria ido à catedral, afirmou com
ironia: “Fui rezar”.
Em primeiro lugar, é preciso estar atento para que, pelas
circunstâncias do fato, não havia desconexão em suas palavras, e sim expressão
clara de revolta, de decepção. Ao dizer com ironia que tinha ido rezar,
revelava que já não acredita nas religiões, nem em suas promessas de vida na
outra vida, pois lhe falta a vida com dignidade aqui na terra, onde vive. Ao
cometer o atentado em plena área do altar, não estaria também denunciando a pompa
das nossas celebrações e dos nossos celebrantes, enquanto ele, em nome de quem
as igrejas falam, está literalmente na rua da amargura? Curiosamente, ele não
fez o atentado no meio do povo, onde seria muito mais prático cometê-lo! Será
que há desconexão nisto? Ou o recado estava sendo dado a quem, segundo ele,
deveria ser dado?
Ao afirmar que “São Paulo me fez assim...” nada mais fez que
denunciar, com muita clareza, uma cidade injusta, onde uns poucos favorecidos
pelas leis injustas se apropriam das riquezas produzidas pelos que trabalham,
negando à grande parcela da população os bens necessários a ter uma vida com a
dignidade de ser humano que ele também é. Denuncia uma cidade onde luxuosos
bancos são construídos para guardar dinheiro, muitas vezes fruto de suja
lavagem e da agiotagem, enquanto a seres humanos são negadas moradias modestas,
mas que fossem suficientemente acolhedoras para famílias de trabalhadores.
Denuncia uma burguesia rica que quer justificar sua violência sobre explorados,
praticando outros tipos de violência, como a exclusão econômica, social e
cultural.
Ao bradar “Me mata, São Paulo!”, não estaria dando um grito
de angústia, não estaria, a exemplo dos explorados do tempo do Egito, narrado
pelo Êxodo, erguendo um clamor, comum a milhões de brasileiros que vivem em
condições idênticas, e até piores? Não estaria pedindo o fim de tanta
humilhação, de tanta angústia, de tamanho sofrimento não sentido pelos
protagonistas das várias celebrações?
Mas a imprensa, defensora dos privilégios dos abastados – já
que seus proprietários também são parte dessa minoria privilegiada -, nada mais
fez que anunciar o fato explorando seu lado sensacionalista. A mídia, como de
costume, omitiu qualquer referência às injustas condições de vida a que são
submetidos milhões de seres humanos, neste país de dimensões continentais, de
riquezas incalculáveis, de extraordinárias condições para garantir trabalho,
renda e bem estar para todos os seus habitantes. País em que seus governantes
fazem questão de pedir que esqueçam o que disseram antes, ou que dizem que suas
declarações, antes de serem eleitos, eram meras bravatas. Assim, o resgate das
centenárias dívidas sociais e a construção de uma sociedade onde impere a
justiça social vão sendo jogados pelas calendas.
Talvez fosse mais conexo, ao Sr. Benedito, dizer que “O
Brasil me fez assim...”, ou ainda, de forma mais abrangente, “O nefasto
capitalismo NOS fez assim...”.
Waldemar Rossi, metalúrgico aposentado, é coordenador da
Pastoral Operária da Arquidiocese de São Paulo.
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