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Vem à tona, desde julho de
2007, grande quantidade de títulos financeiros destituídos de valor. Isso é só
uma parte da montanha que está implodindo. Foram emitidos por bancos e fundos
na euforia mentirosa da globalização e da desregulamentação. Finalidade: lucros
ilimitados sem esforço algum, a não ser dos chips dos supercomputadores que
movimentam as centenas de trilhões de dólares e de euros virtuais criadas pelo
sistema financeiro.
Nunca soou tão ridícula como
agora esta nota, em destaque no portal do Tesouro dos EUA: “Os EUA têm o
mercado de capitais mais forte do Mundo, e essa posição é conseguida através de
trabalho duro e estratégias inteligentes.”
A especulação é antiga como o
mundo, mas não se deve pensar na finança só sob esse prisma: ela é necessária
para prover moeda e finança a fim de desenvolver a economia real. Questão
fundamental é esta: quem controla a emissão dos meios de pagamento à vista e a
dos títulos de crédito, pois os detentores desse poder mandam na sociedade. A
eles se subordinam os presidentes e os primeiros-ministros das potências
hegemônicas e os de seus associados menores e satélites. Mais ainda, os
pseudogovernantes dos países explorados pelo comércio e pelos investimentos
diretos estrangeiros.
Os bancos centrais têm sido
regidos pela oligarquia financeira, a raposa que controla galinheiros como o
Banco da Inglaterra, há séculos, e o Federal Reserve (FED) - banco central dos
EUA -, desde sua criação em 1913, após a qual disse Louis McFadden, membro do
Congresso dos EUA, depois assassinado: "Um super-Estado controlado pelos
grandes banqueiros internacionais, agindo em conjunto para escravizar o mundo
para o seu prazer. O banco central usurpou o governo".
O FED, feudo do cartel de
bancos privados, é quem emite a moeda dos EUA, a principal do sistema mundial.
Não, o Tesouro. Kennedy autorizou-o a emitir papel-moeda, mas o decreto foi
revogado por Lyndon Johnson, poucos dias após o assassinato de Kennedy.
Está, pois, claro quem emite e
controla a moeda e o crédito, e para favorecimento de quem. Os bancos, ademais
das receitas com títulos públicos e privados, auferem juros dos empréstimos. O
lançamento de títulos de empresas é outra fonte de ganhos. Esses títulos são objeto
de opções e swaps etc. Deles saem derivativos e títulos colateralizados. Até
índices de preços de ações e taxas de câmbio são securitizados. Além disso, há
as taxas e comissões. Para investir, os bancos usam recursos do banco central a
custo inferior aos juros que auferem; emprestam múltiplos dos depósitos à vista
livres do depósito compulsório; aplicam investimentos de empresas e de outros.
Ávidos de lucros e poder, criam
montanhas de ativos financeiros mais altas que o Everest. Para esse fim e tendo
ascendência sobre os políticos, desmontaram os controles instituídos nos anos
30 em face dos terríveis males econômicos e sociais gerados pela bolha de 1929.
Formaram outra a partir dos anos 80. Grana é o combustível da ideologia
(neo)liberal e da globalização. Não há ninguém limitando suas decisões: essa é
a origem do presente colapso financeiro mundial.
Nos últimos vinte anos, os
ativos financeiros cresceram exponencialmente, em gritante desproporção com a
inflação moderada dos ativos monetários. Os títulos de crédito, inclusive
derivativos, ultrapassam 500 trilhões de dólares. Grande parte são junk bonds
(títulos podres).
A existência de tanto dinheiro
seria impossível mesmo no plano simbólico do papel-moeda, dos certificados de
títulos e dos lançamentos em
livros. As transações financeiras e cambiais diárias, de
trilhões de dólares, realizam-se através de supercomputadores. Inclusive para
lavar dinheiro dos tráficos ilícitos: quanto mais operações, mais difícil
retraçar a origem dos fundos.
Sem contar os derivativos, que
atingiram somas inconcebíveis, acima de U$ 500 trilhões, os ativos financeiros
chegaram a US$ 167 trilhões: 14 vezes a cifra de 1980. Em contraste com essa
mega-inflação a economia real estagnou, por causa do baixo investimento na
infra-estrutura e nas estruturas produtivas. Financiaram-se, antes, fusões e
aquisições.
Daí ter declinado o emprego e
os rendimentos da classe média, e surgido dificuldades para o pagamento de
débitos em cima dos quais se criou a montanha dos derivados. O consumo foi
estimulado pelo crédito, apesar de a maioria ter perdido renda real com a
transferência em favor do segmento de 1% que, sozinho, detém 40% dela.
A inadimplência de devedores
hipotecários detonou o colapso financeiro, mas este alcança empréstimos de empresas,
cartões de crédito e muito mais. O sistema financeiro abusou da conversão de
dívidas em títulos (securitização) e classificou débitos sub-prime como AAA.
A implosão tornou-se evidente
desde o 1º semestre de 2007, quando grandes corretoras como Merrill Lynch e
Lehman Brothers suspenderam a venda de colaterais, só conseguindo ofertas de 20
centavos por dólar de valor nominal. Em julho de 2007, bancos europeus
registraram prejuízos com contratos baseados em hipotecas sub-prime. O IKB, da
Alemanha, foi salvo com um empréstimo de emergência de US$ 11 bilhões, e houve
corrida bancária ao britânico Northern Rock.
O colapso acarreta modificação
estrutural no fluxo internacional de capitais. Até agosto de 2007, investidores
fora dos EUA compravam mais do que vendiam títulos norte-americanos. Naquele
mês o fluxo tornou-se negativo. Apesar de terem voltado às compras líquidas, a
média de agosto a novembro (US$ 52,1 bilhões) foi menos que a metade da média
de janeiro a julho (US$ 113,1 bilhões). Os estrangeiros buscam livrar-se dos
títulos de longo prazo.
A partir de outubro, parte
substancial dos ingressos de divisas nos EUA provém do socorro por fundos
soberanos da Ásia e do Oriente Médio, que adquirem títulos conversíveis em
ações de bancos dos EUA. Em novembro, ações ordinárias do Citigroup foram
compradas pelo fundo soberano de Abu Dhabi por US$ 7,5 bilhões.
O Citigroup, maior banco dos
EUA, teve de vender, em 15.01.2008, ações preferenciais por US$ 14,5 bilhões ao
Temasek, fundo nacional de Cingapura. Captou também da Autoridade de
Investimentos do Kuwait. São US$ 26 bilhões desde o início do colapso. Merrill
Lynch recebeu, em janeiro de 2008, U$ 6,6 bilhões da Companhia de Investimentos
da Coréia, da Autoridade de Investimentos do Kuwait e de outros, além de US$
6,2 bilhões em dezembro.
O suíço UBS deu baixa, no 3º
trimestre de 2007, em 3,4 bilhões de dólares de títulos ligados aos mercados
sub-prime dos EUA. No 4º trimestre, mais US$10 bilhões. Então levantou US$ 17,6
bilhões: participação de 9% do governo de Cingapura no capital do banco e mais
recursos de investidor não divulgado do Oriente Médio. Chegam a US$ 100 bilhões
de dólares as recentes injeções em bancos estadunidenses e europeus, por fundos
nacionais e investidores de Abu-Dabi, Kuwait, Dubai, Arábia Saudita, China,
Cingapura e Coréia.
Também ganham vulto as
operações de resgate por parte dos bancos centrais para evitar que os bancos
ponham à venda ativos podres, o que aceleraria a débâcle. O FED tem soltado
centenas de bilhões de dólares. Em 18.12.2007 o Banco Central Europeu, o FED e
o Banco da Inglaterra socorreram bancos do continente europeu e ingleses com
US$ 548 bilhões. Isso atiça a inflação, mas não logra sanear os bancos.
Observadores calculam que mais
de US$ 1 trilhão de ativos já ficaram sem valor nos últimos meses. A bolha pode
alcançar US$ 20 trilhões, segundo o Serviço de Notícias da Executive
Intelligence Review.
Tudo isso é escondido dos olhos
do grande público. A oligarquia responsável pelo colapso pretende fazê-lo pagar
por este. Até há pouco, os economistas dos bancos esbanjavam loas à expansão
econômica. Agora, muitos persistem na enganação, e uns poucos dizem que “a
situação mudou”, em vez de reconhecer que erraram. Foi mais sincero o
executivo-chefe da Fannie Mae, importante instituição hipotecária dos EUA: “o
pior da crise ainda está por vir, pois o mercado não chegará ao fundo antes do
final de 2008”.
Conclusão
Os efeitos irão além da
recessão em curso nos EUA. Virá a depressão, e já está difícil ocultar a
natureza fraudulenta do sistema mundial de poder. Por ficar atrelada a este, a
sociedade brasileira foi sacrificada demais e tolhida em seu desenvolvimento. O
Brasil progrediu nos anos 30 e 40, ao cair o comércio internacional por causa
da depressão nos países hegemônicos. Está na hora de o país organizar-se,
controlar os capitais e desconcentrar a estrutura econômica.
Originalmente publicado no jornal Brasil de Fato - http://www.brasildefato.com.br
Adriano Benayon é doutor em
Economia. autor de “Globalização versus Desenvolvimento”, editora Escrituras. E-mail:
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