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De repetente o telefone toca e na outra ponta a pessoa se
apresenta: “oi, sou Letícia Sabatella, pertenço ao Movimento dos Humanos
Direitos e gostaria de ter mais informações sobre a greve de fome de Frei
Luis”. Depois da surpresa, afinal, em toda minha vida nunca tinha visto gente
do meio artístico fazer esse tipo de telefonema, comento um pouco a causa –
nossa causa - e a situação de Frei Luis. Ela ouve e depois diz: “eu gostaria de
fazer uma visita a ele. Seria possível?”. No dia seguinte, num vôo noturno, ela
já estava em Petrolina, junto com Salete Hallack e o médico Ricardo Paiva,
todos do movimento. E nós já tínhamos recebido uma nota de solidariedade desse
movimento dos artistas, assinado por Dira Paes. Aliás, os Humanos Direitos
costumam marcar presença nas lutas contra o trabalho escravo, particularmente
na região do Pará e Tocantins. A importância desse gesto todos nós já sabemos.
Embora ainda haja muita incompreensão quando artistas se
posicionam a respeito de questões sociais – um publicitário disse que Letícia,
João Pedro e Frei Luis são “uns chatos” –, essa atitude relembra muito a
participação de grandes nomes da arte a serviço da cidadania de todos os
brasileiros. Durante o regime militar, cada show, cada disco, cada entrevista
de Chico Buarque eram aguardados com absoluta ansiedade. Através das músicas,
das peças de teatro, acabava dizendo o que todos os brasileiros queriam dizer e
não tinham possibilidade. Mas não era só Chico. O teatro oficina, o teatro dos
oprimidos, o cinema, nas sutilezas que só a arte pode ter, traziam à tona o que
acontecia nos porões brasileiros e que era proibido saber ao conjunto da
população. Mesmo em tempos atuais, sobretudo o MST, há uma longa lista de artistas solidários ao
movimento.
O mundo mudou, em tese a mídia é livre, em princípio não
seria necessário que artistas colocassem seu nome e seu prestígio a serviço de
causas em que hoje as próprias vítimas poderiam erguer sua voz. Entretanto, o
que aconteceu em Sobradinho diz que gestos como o de Frei Luiz e artistas como
Letícia – a arte e a religião, mais uma vez - continuam necessários para dar
visibilidade a causas reprimidas por interesses poderosos. Ninguém substitui o
povo e suas lutas, mas a solidariedade de artistas, intelectuais, profissionais
da mídia, religiosos continua essencial para fazermos do Brasil um outro país.
Dias mais tarde, quando a questão do São Francisco foi
julgada no Supremo Tribunal Federal, Brasília, lá estavam novamente Letícia e
Osmar Prado, solidários à causa do povo.
Hoje, as causas ambientais, relacionadas às questões
sociais, exigem a presença cidadã de todos os setores da sociedade, como exigia
a derrubada do regime militar. A causa do São Francisco, simbolicamente, é de
todos os brasileiros, não apenas das comunidades ribeirinhas vitimadas por sua
destruição. Setores do meio artístico também entenderam esse desafio e
assumiram seu papel.
Roberto Malvezzi, o Gogó, é coordenador da CPT.
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