A Venezuela e seu presidente ocupam parte
importante do noticiário
internacional contemporâneo.
A cobertura da mídia
brasileira não
poderia ser pior: a demonização de Chávez inclui uma desastrosa edição
da Veja, de abril de 2002, quando a revista
festejou o golpe de Estado
contra Chávez e comemorou na capa “A queda do presidente fanfarrão”.
Ao chegar às bancas,
a revista já
se tornara velha e se prestou à gozação geral. O golpe
durou 48 horas, suficientes
para os “democratas” incensados pela
Veja fecharem a Assembléia Nacional, o Tribunal
Supremo de Justiça,
e mutilarem boa parte da Constituição.
Como ditador puseram
o presidente da federação
industrial - adepto
da Opus Dei, seita
de extrema-direita criada pelo
clericalismo fascista espanhol -, que
logo retirou o retrato
do herói nacional
Simón Bolívar do gabinete presidencial.
Os golpistas receberam
imediatos sinais
de reconhecimento vindos do governo
Bush. Como
ficou claro nos
meses seguintes, a tentativa
de acabar com
a democracia na Venezuela passara diretamente pela
embaixada americana.
A CIA
e a Veja não levaram em conta um “detalhe”: esse não era mais um clássico golpe na América Latina;
Chávez voltou rapidamente ao Palácio de Miraflores (sede do Executivo)
nos braços
do povo, demonstração
de seu inequívoco
apoio popular.
Bravatas da mídia
Em matéria de
antijornalismo, recente edição do Fantástico
não ficou atrás
da Veja em ridículo
e manipulação: a Globo
usou de seu latifúndio
na televisão para
induzir os brasileiros
ao estado de alerta
contra o suposto
perigo militar
venezuelano e à conseqüente iminente invasão do
Brasil. Diante de tanta
irresponsabilidade, desinformação
deliberada e delitos graves contra a
Constituição (como
a promoção do ódio
entre países
e povos), impõe-se às forças democráticas acumular
forças paraconcessão pública
à Rede Globo,
renovada em outubro
do ano passado
sem qualquer
objeção governamental. questionar
a
Este o tom da grande mídia. E
por que
os setores conservadores,
a começar pelo mais influente deles, a atual
presidência dos EUA, satanizam Chávez?
Não toleram, por exemplo, a não
renovação da concessão da RCTV, que instigou e integrou a tentativa
de golpe de Estado
de 2002, rede televisiva ao estilo da Globo.
Que atrevimento,
Chávez, um mestiço
não pertencente à minoria dominante
“criolla” (descendentes de brancos
nascidos na América de colonização hispânica),
adotarpolíticas
populares de saúde,
contra o analfabetismo, pela educação em todos os níveis, amplas garantias
trabalhistas, estimular o sindicalismo,
assegurar a previdênciapública, a reforma agrária,
criar novos órgãos de poder popular.
Reformas populares
Realmente, essa gente,
o povo venezuelano, não
conhece mais seu
lugar. Os poderosos
deixaram de perpetrar massacres
como o “Caracazo”, em
1989, quandomanifestações
populares em
todo o país,
deflagradas pelo protesto
ao aumento das passagens
de ônibus em
Caracas, mostraram o descontentamento
generalizado com a política
de recessão e desemprego, imposta pelo FMI. O Exército
atirou então contra
o povo. O resultado,
um número
de mortos estimado entre
1500 e 3000. A resposta
popular ao desastre
econômico e à violência
do “Caracazo”: a constante ascensão de Hugo Chávez.
O imperialismo odeia
a revitalização da Organização dos Países Exportadores
de Petróleo (OPEP), em
grande parte
devida à atuação
de Chávez. Quando assumiu a presidência
da Venezuela, o preço do barril do petróleo já caíra
no ano anterior, mas continuou a despencar: de US$ 21,91, em janeiro de 1997,
baixou ao patamar de US$ 8,74 em dezembro de 1998. O mesmo barril, em 23 de janeiro
de 2008, valia aproximadamente US$ 84.
Mesmo descontada a inflação do período, o aumento do preço significou
fabulosa receita aos países produtores, nada alheia à pressão da Venezuela na
OPEP.
Que diferença de Chávez para os príncipes árabes,
governantes ditatoriais
garantidos pelos EUA, subservientes a Washington, prontos
a desvalorizar o petróleo
emprejuízo
de seus próprios
países.
E o mais inaceitável, o dinheiro do petróleo, pela primeira vez na
história da Venezuela, empregado
para melhorar
substancialmente a vida
do povo, elevar
salários, distribuir
a renda, utilizado em
medidas e obras
com finalidade
social.
Os interesses conservadores não
suportam o fim do parasitismo
da oligarquia na Petróleos
de Venezuela S.A. (PDVSA), quando a empresa estatal era um Estado dentro
do Estado venezuelano. Os recursos do petróleo em vez de
servirem à população, beneficiavam exclusivamente os ricos:
a burguesia venezuelana, os interesses americanoscompra por
preço aviltado dessa matéria-prima fundamental),
as empresas imperialistas, a burocracia corrupta
da empresa. Não suportam a PDVSA hoje sob
controlepúblico
e democrático. E muito
menos a política
da estatal de mútuos negócios vantajosos com
os demais países
latino-americanos.
(
Antiimperialismo
Não podem admitir o fato de Chávez combater o criminoso bloqueio econômico americano a Cuba, já perto de completar 50 anos, sua solidariedade efetiva
à opção socialista do povo cubano.
Detestam a política externa independente da
Venezuela, não subordinada
aos EUA e ao restrito grupo de países mais ricos do mundo,
a lúcida defesa
da integraçãosul-americana.
A grande mídia diz que Chávez
é um ditador,
mas esconde seu
desempenho em
dez processos
eleitorais de dimensão
nacional - uma média
de mais de uma eleição
a cadaano
-, sempre com
maciças votações do chavismo.
As reformas populares
na Venezuela se realizam com aval eleitoral,
cotidiana participação popular, indicadores
de intensa politização, característicos
de um processorevolucionário em
curso.
O atual governo também
comete erros, inevitáveis,
ocorrem ações desencontradas em diversas áreas,
a corrupção de longa
tradição não
se acaba da noite para
o dia. Há falta
de preparo, de quadros
e de medidas adequadas em diversos ministérios. Nada
de estranho em
um país
subdesenvolvido, com
pesada herança
de dominação, saque,
secular exclusão
popular.
A grande mídia não ecoou
à toa o rei
da Espanha, Juan Carlos, filhote do fascista Franco,
representante de uma monarquia que sugou
nossa América por quatro séculos. Agora preposto de bancos
como o Santander, multinacionais
como a Telefônica,
não menos
danosos aos nossos povos.
Quando Juan Carlos se dirigiu a Chávez e gritou “Por
que não
te calas?”,
exprimiu mero desejo,
irrealizável.
Calar Chávez seria silenciar os povos do continente,
o antiimperialismo, sentimento
e ação crescente
na Venezuela bolivariana.
Antônio
Augusto é jornalista.
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