Obrigados a disputar votos no primitivo contexto
da troca de favores, os candidatos socialistas vêem-se, muitas vezes, tentados
a seguir os mesmos caminhos. Recusando esta auto-destruição, restam ainda dois
grandes riscos: o discurso doutrinário e o protesto furibundo. Urge, portanto,
montar campanhas eleitorais que permitam demonstrar aos eleitores o modo pelo
qual a propaganda dos candidatos da burguesia oculta os problemas reais da
cidade e por que o fazem.
As eleições municipais estão às portas. Na definição do que
está em disputa nesse pleito, grupos e pessoas que, em ocasiões passadas, foram
ligadas aos setores populares, colocam essa questão em termos de um dilema: ou
votar nos candidatos do Lula ou entregar a presidência, em 2010, ao tucanato.
Esse dilema é falso.
Primeiro, porque, atualmente, as diferenças entre as duas
propostas não são substantivas. Independentemente das motivações que cada
partido invoca para justificar suas políticas, ambas são rigorosamente
neoliberais.
Segundo, porque existem alternativas à política que ambos
partidos propõem.
Nosso país já possui um grau de desenvolvimento de suas
forças produtivas mais do que suficiente para assegurar um nível de vida digno
a todos os seus habitantes. Por isso, é perfeitamente possível colocar a
ruptura socialista na agenda política. Contudo, a falta de condições subjetivas
bloqueia esse salto.
Que fazer então, diante de uma conjuntura assim?
O baixo nível de consciência política da grande massa coloca
a conquista de votos na dependência dos favores e das promessas dos candidatos
- habilidades em que os políticos da direita são insuperáveis.
Obrigados a disputar votos nesse contexto primitivo, os
candidatos socialistas vêem-se, muitas vezes, tentados a seguir os mesmos caminhos.
Tal postura é auto-destruidora, pois, mesmo em caso de uma
hipotética vitória com o uso desse expediente atrasado, de nada adiantará a
conquista do mandato. A falta de apoio popular para tomar medidas que contrariem
os poderosos obrigará os mandatários socialistas a desistirem delas ou a se
submeterem a conciliações e conchavos para conseguir mínimos avanços.
Resultado: desmoralizam-se completamente como políticos e até como pessoas.
Recusando a auto-destruição restam ainda dois grandes riscos
aos candidatos socialistas: o discurso doutrinário e o protesto furibundo.
Ambas condutas podem tranqüilizar a consciência do
candidato, mas não têm o mínimo de eficácia política.
Há um caminho correto. Embora ele não seja nada fácil,
precisa ser percorrido, a fim de que a proposta socialista volte a fazer parte
da agenda política do país.
Trata-se de montar campanhas eleitorais que permitam
demonstrar aos eleitores o modo pelo qual a propaganda dos candidatos da burguesia
oculta os problemas reais da cidade e por que o fazem. Esse discurso não só
desqualifica as soluções propostas, como aponta para as mudanças estruturais
que são necessárias para resolver de fato os problemas que estão dificultando a
vida do povo.
Para fazer esse discurso, a primeira condição é conhecer a
fundo os problemas da cidade - tarefa complexa e difícil, especialmente para
partidos de reduzido número de militantes e de parcos recursos financeiros.
Porém, este é o desafio: antes de montar comitês eleitorais
para atrair eleitores, os partidos socialistas precisam montar núcleos de
militantes e capacitá-los a detectar os verdadeiros problemas e as verdadeiras
soluções para os problemas da população da sua cidade.
Se esse trabalho for bem realizado, ainda que os votos
não sejam muitos, haverá avanço político. O Brasil não acaba amanhã.
Comentários (4)
Escrever comentário
Por favor, o assunto do seu comentário precisa ser relevante ao assunto do artigo.
Ataques pessoais serão deletados.
Por favor, não use os comentário para fazer propaganda de seu site ou será deletado.