“Privataria”: neologismo forjado pelo surpreendente Élio
Gáspari para definir a característica essencial do processo de privatizações em
curso na atual quadra da vida brasileira. Trombeteado pelo Collor e
consolidado, na seqüência, por FHC e Lula, tal processo articula a
transferência de patrimônio e de recursos públicos, além da possibilidade de
ganhar dinheiro rápido e fácil com a exploração de serviços essenciais, para as
mãos dos piratas do poder privado.
“Telegangue” e “rataiada”: termos de calão baixo postos em
curso pelo famoso Mendoncinha, aquele que acionava o martelo nos leilões da
entrega durante o surto tucano do processo. Ele operava, segundo revelação dos
“grampos” da época, “nos limites da irresponsabilidade”, ainda assim não
conseguiu evitar que um grupo, exatamente o que agora cresce sob a égide
lulista, ganhasse um dos leilões fora do combinado. Ficou puto e xingou com
carregado sotaque paulista.
“Maracutaia”: expressão popular nordestina que o presidente
Lula, quando sua opção preferencial parecia ser outra, ajudou a espalhar no vocabulário
político nacional como uma espécie de súmula sonora de tudo que é feio e torto.
“Negociata é aquele negócio do qual não participamos”:
deliciosa vinheta onde o humor corrosivo do inesquecível Barão de Itararé
define o desmaio dos valores imateriais diante da investida poderosa do
interesse puro.
“A lei, ora a lei”: sentença antiga que consolida, em nossa
tradição de burla sistemática aos valores republicanos, a idéia de que a lei
não passa de um chicote para disciplinar os de baixo.
“Grupo Oi/Telemar”: magote de barões da privataria que
galopa na prosperidade de uma das “capitanias hereditárias” da telefonia
privatizada. Entre os principais acionistas está a antiga construtora mineira,
Andrade Gutierrez, a maior financiadora da última campanha do PT. Só no
declarado na justiça eleitoral, em 2006, foram R$ 7,92 milhões. E o grupo La Fonte, Carlos Jereissati,
alvo dos xingamentos de Mendoncinha e descobridor de talentos: apostou milhões
na Gamecorp (Lulinha de sócio) como um “negócio promissor”.
Os jornais, no alvorecer deste ano, noticiaram a iminência
de mais um meganegócio que, se realizado, vai promover novo rearranjo na
estrutura de mando na telefonia brasileira: a compra da Brasil Telecom pela
Oi/Telemar. A lei vigente, inventada para facilitar a primeira fase do
processo, proíbe o negócio, mas os laboratórios que articulam corporações e
titulares do poder político já estão providenciando o ajuste da lei às conveniências
do momento. Até um verniz nacionalista (empresa nacional) foi providenciado.
Ralo e quebradiço, certamente não resistirá ao sol da primeira primavera.
Tudo tramita de acordo com o modelo: financiamento do BNDES,
participação dos fundos de pensão, sob comando da malha que articula os barões
da privataria com os varões da República. Para se ter uma idéia do tamanho da
bocada, o faturamento anual presumido do novo aglomerado é calculado em R$ 40
bilhões, uma CPMF por ano em bolsos privados. Aproveitando o clima
carnavalesco, junte ao seu gosto os ingredientes dos parágrafos acima e se prepare
para o desfecho: a rica evolução do monopólio privado na apoteose da
maracutaia.
Léo Lince é sociólogo.
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