Há poucas dúvidas de que os Estados Unidos estão em crise. Ela é econômica,
financeira, política e militar. A indústria norte-americana perdeu
competitividade e grande parte dela se transferiu para países com custos
produtivos menores. Os déficits orçamentários e da balança externa de
pagamentos continuam nas alturas, ou no poço, dependendo do ângulo em que se
olhe.
As divergências, entre os partidos políticos dominantes, a
respeito das políticas de impostos, saúde e emprego são consideráveis. Apesar,
ou por causa disso, cresce no país um movimento político independente, que
pode, mais cedo ou mais tarde, quebrar a tradicional hegemonia bipartidária. E
o aparato militar dos Estados Unidos, o maior do mundo, deixou abertas suas
fraquezas no Iraque, atrapalhando os planos do governo Bush de exercer o poder
unipolar.
No entanto, concluir daí que essa é uma crise terminal, que
vai levar a maior potência econômica e militar do globo para o buraco, como
fazem alguns analistas dentro dos próprios Estados Unidos, talvez seja exagero.
A indústria do país, por contar com enorme poder tecnológico e financeiro,
continua detendo grande capacidade de recuperação. Seu poder de emissor de
moeda internacional contrabalança em parte seus problemas financeiros, fazendo
com que o resto do mundo os financiem.
É também o poder financeiro que tem a capacidade de
sustentar a hegemonia bipartidária e fazer com que ela supere divergências e
mantenha o rodízio formalmente democrático de governo. E ele administra
diretamente a economia, através do Federal Reserve, fazendo tudo o que pode
para impedir que a crise chegue a pontos críticos. Ao contrário do passado, o
Banco Central americano não tem mais pudor algum em salvar, descaradamente, as
instituições financeiras que correm perigo de falência.
Só os ingênuos ainda acreditam que o sistema estatal dos
Estados Unidos não interfere na economia e deixa a mão invisível do mercado
cair pesada sobre os incompetentes. Depois da grande crise de 1929, a confiança na
perfeição dos mecanismos de mercado tornou-se apenas peça de propaganda, e o
Estado norte-americano passou a atuar celeremente para evitar sua repetição.
Apesar disso, a incapacidade da máquina de guerra em dominar
um país como o Iraque, com população relativamente pequena, em termos mundiais,
é um sinal de que as contradições internas do colosso estadunidense tendem a se
agravar. Assim, mesmo que os Estados Unidos ainda possam estar longe de uma
crise terminal, os tremores de sua crise atual, como os terremotos, podem
causar ondas de impacto e tsunamis destruidoras. Prevenir-se para essa
eventualidade, assim com tomar caldo de galinha, não faz mal a ninguém.
Wladimir Pomar é escritor e analista político.
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