No século XVIII não há registro de epidemia de febre amarela
no Brasil, apenas casos isolados. Em 1892, porém, a moléstia matou 1.742
pessoas na cidade de Santos, em São Paulo. Em 1896, 788 pessoas morreram em Campinas. Em um só
dia do verão de 1894, 59 pessoas faleceram no Rio de Janeiro. Entre 1897 e
1906, na então capital do país, 4 mil imigrantes morreram do temível mal.
Uma das filhas do presidente Rodrigues Alves morrera de
febre amarela. Seu empenho em debelar a doença levou-o a apoiar Osvaldo Cruz
numa campanha agressiva, gostassem ou não a população e os jornais naquele
início de século XX. O termo “campanha” era proposital, como explica Moacyr
Scliar em seu livro “Do mágico ao social: trajetória da saúde pública”.
Associava-se a campanha militar, o que traduzia o “caráter organizado,
autoritário, do trabalho a ser realizado”.
Em 1908, declarou-se erradicada a febre amarela no Brasil, o
que não correspondia bem à verdade. Sobretudo no norte do país continuaram
existindo focos da doença. E, como alertou o médico e escritor Pedro Nava num
de seus livros, qualquer epidemiologista sabe que moléstia infecciosa alguma
está totalmente extinta...
Quase um século depois, houve 18 mortes em 1999, e 39 em
2000. Entre 2001 e 2007 registraram-se 63 casos fatais. Em 2004, o doutor Dráuzio
Varella contraiu a febre amarela numa de suas viagens à Amazônia. “Bobeei”,
como disse em entrevistas, com sinceridade e humildade. Quase morreu, e aproveitou
a ocasião para escrever um novo livro: “O médico doente”.
Começo de 2008,
a febre transformou-se em notícia urgente, renitente e
recorrente. A população e seu medo inconsciente de voltar ao século XIX,
sofrendo o que os nossos avós e bisavós sofreram. A febre propalou-se muito
mais pela mídia do que por qualquer outro meio de disseminação. A corrida aos
postos de vacinação reflete a onipresença e insistência da notícia. Se
redundasse em imunização ouvir mais de cinco vezes por dia que a febre amarela
quer recuperar o espaço perdido, bastaria assistir aos telejornais.
Mais do que surto, será apenas um susto? O susto é bom;
previne. Sinal também de que a população valoriza a informação. Por outro lado,
várias secretarias de saúde observam que muitos se vacinam sem necessidade.
Pessoas que já haviam recebido a vacina nos últimos 10 anos fazem questão de
“garantir”...
Gabriel Perissé é doutor em Educação pela USP e escritor.
Web Site: www.perisse.com.br
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