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No sábado de 24 de novembro de 2007, conseguimos, como disse
que gostaria em
meu último texto solo nesta coluna, ao fim de dez dias de viagem pelos rios
Fresco e Riozinho no sul do Pará (e outros tantos por estradas), passar pelo
menos uma noite e um dia na base de pesquisas do Pinkaití, dentro da Terra
Indígena Kayapó, junto com os bichos, que são seus verdadeiros ocupantes no
momento. As mangueiras da base, que foram plantadas quando da sua criação à
época da Eco-92, no embalo do movimento ambientalista (que também adiou pelo
menos 15 anos a construção das hidrelétricas do Xingu), estão finalmente
produzindo bem, para a alegria das pacas, e de alguma anta que certamente
passeia diariamente por lá. A imensa casa de alvenaria, única em um raio de
muitos quilômetros, que deveria abrigar estudantes e laboratórios, está ocupada
por uma colônia de morcegos, que espalham guano por toda parte, dando-lhe um
aspecto de caverna do Batman ou castelo mal-assombrado. Devido às dificuldades
de financiamento e à burocracia governamental que impõe severos obstáculos ao
desenvolvimento de pesquisa científica na Terra Indígena, há alguns anos que
não temos mais nenhum estudante trabalhando continuamente no Pinkaití.
Excluindo os índios que eventualmente usam-na como base para caçar ou pescar,
só não se pode dizer que ela está completamente abandonada devido ao esforço de
pesquisadores em organizar raros cursos de campo (sempre autorizados pela
FUNAI), com pequenos grupos, ainda assim por poucas semanas por ano.
Na clareira da base, plantei 14 mudas de coqueiro. Foi tudo
o que me sobrou das 8.000 mudas que compramos através do programa de Iniciativas
Comunitárias em Saúde
Indígena da Fundação Nacional de Saúde (FUNASA) para a
associação indígena Floresta Protegida (AFP), dentro do projeto “Cocoicultura
Kayapó 2007”.
Ter apenas estas mudas de coqueiro em mãos para nós era, acima de tudo, uma
vitória, considerando-se as dimensões do caminhão lotado, vindo da região de
Souza, na Paraíba, que recebemos dez dias antes na cidade de Tucumã, no sul do
Pará e todo o nosso esforço para sua distribuição dentre várias aldeias Kayapó.
“Nós”, antes que eu me esqueça, éramos eu, biólogo, bolsista, pesquisador do
Museu Goeldi, em Belém, Lisa Feder, uma antropóloga norte-americana que fizera
em 1999 sua tese de mestrado naquela área sobre “alternativas de
desenvolvimento em sociedades indígenas” e que veio de São Francisco, na
Califórnia, com recursos próprios para participar desta expedição, e Paulo
Monteiro Arruda, meu antigo ajudante de campo que já fez “mestrado com cotias”
e “doutorado com palmeiras”, mas que vai se virando como pode na cidade, uma
vez que as atividades de pesquisa estão paradas.
O caminhoneiro com a carga de mudas de coqueiros atual,
exatamente como acontecera em 2006, chegou reclamando da estrada e querendo
renegociar o valor do frete. Por mais que tenhamos nos esforçado para explicar
com antecedência a localização exata do ponto de entrega da carga e as
condições das estradas até lá, eles sempre se surpreendem com o isolamento
daquele ponto no extremo da fronteira de ocupação do território nacional. Já o
seu assiste nte ficou muito interessado por nosso trabalho e curioso de
encontrar os índios. Lamentou ter que voltar no caminhão e não poder seguir
conosco de barco a partir do P9, onde as 2.700 mudas que entregamos nas aldeias
Kikretum, Moikarakô e Aukre foram descarregadas.
Tucumã fica na estrada para São Felix do Xingu, um braço
ainda sem saída do eixo de colonização da Belém-Brasília, e uma das regiões que
concentra as maiores taxas de desmatamentos da Amazonia e o P9 não é um ponto,
mas uma região de dimensões comparáveis a municípios da região sudeste. Ainda
há outros, P6, P7, P8, sendo cada um deles sendo imensas glebas de terra de um
projeto de colonização do INCRA, vastidões desmatadas, salpicadas de
castanheiras mortas, testemunhas da floresta que acabou e alguns casebres humildes,
onde pouco se planta, e a pecuária extensiva é a atividade econômica
predominante. Muitos brasileiros não-índios que vivem naquela região são bem
mais desamparados em termos de recursos vegetais que os índios. Aquela terra
devastada clama por culturas como a do coqueiro para prosperar.
Aliás, minha primeira grande alegria ao voltar à região foi,
ao chegar com o caminhão ao sítio do seu Edeu e dona Cleonice, o último na
beira do rio Fresco, a poucos quilômetros antes do limite da Terra Indígena
Kayapó, ver crescendo vivas e saudáveis defronte de sua casa as mudas que lhes
presenteamos. A sua posição faz deste sítio um ponto de apoio fundamental para
o descarregamento das mudas do caminhão, seu armazenamento e transporte para os
barcos. Além disso, eles sempre são muito simpáticos e hospitaleiros, como o
brasileiro do campo sempre foi e ainda é nas áreas remotas.
Dali, seguimos da estrada para o rio, satisfeitos com o
avanço da expedição, mas com uma preocupação. Sabíamos que, antecipando a
distribuição e plantio de cocos para o início da estação chuvosa, a água que
estaria molhando as mudas recém-plantadas em seus primeiros meses é justamente
aquela que ainda faltaria no rio, ainda por encher, o que poderia dificultar
nossa navegação. Em abril de 2006, surpreendemo-nos com as dimensões e a força
do barco que os Kayapó dispunham para o transporte de castanhas-do-pará,
colhidas pelos índios nos extensos castanhais naturais da reserva e vendidas
para as indústrias alimentícia e de cosméticos. Utilizamo-nos dele para o transporte
das mudas de coqueiro pela terra indígena até as aldeias Kikretum e Moikarakô,
e até uns quilômetros mais, até a “Cachoeira-de-um-dia” por onde barco nenhum
passa. Desta vez não poderíamos usá-lo, pois o nível dos rios que cortam a reserva
estava, no início da estação chuvosa, ainda baixo demais para tal.
Perguntávamo-nos também, quanto que os índios gostariam de incorporar o coco em
sua cultura, e quanto que estariam dispostos a investir neste projeto. O
próprio desafio de levar terra indígena adentro todas estas mudas de coqueiro,
sobre o leito pedregoso do rio, ora seco e espraiado, ora violento e rápido em
estreitas corredeiras, provavelmente serviria de parâmetro sobre o quanto que
os Kayapó estariam dispostos a fazer pela cultura de cocos em suas terras.
Essas eram as questões que tínhamos em mente, na manha daquela quarta-feira, 14
de novembro, quando escutamos o motor das voadeiras dos índios da aldeia
Kikretum para buscar as suas mudas.
Continua...
Rodolfo Salm, doutor
em Ciências Ambientais pela Universidade de East Anglia e pela
Universidade Federal de São Carlos, é pesquisador do Museu Paraense
Emílio Goeldi.
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