Já sabemos o que vai acontecer: no primeiro semestre, haverá
intensa movimentação nos bastidores dos partidos - paraíso das colunas de
intrigas políticas e das revistas que vivem do negócio de denunciar candidatos;
no segundo semestre, todos os políticos irão para as ruas, à cata de votos para
seus candidatos.
Há um quê de patético nessa repetição enfadonha do ritual
eleitoral, porque se sabe, de antemão, que o palavrório todo não irá mudar
substancialmente nada. Alteração mesmo, só haverá é no cacife dos partidos e
dos seus respectivos caciques - elemento importante na hora de negociar com
Lula o lugar de cada um no vagão do oficialismo.
O problema não consiste na intenção dos candidatos ou na
falta de atributos para exercer os cargos que pleiteiam. O obstáculo às
alterações é de natureza estrutural: as carências acumuladas pelas populações
pobres dos municípios (e elas estão presentes em todos eles) superam de muito
os recursos que as prefeituras podem arrecadar para supri-las. Só uma reforma
estrutural poderia remediar as limitações dos orçamentos municipais. Mas sobre
isto, os candidatos não dirão palavra.
Este quadro dramático recomendaria, a rigor, o voto nulo.
Contudo, não é o caso de fazê-lo, porque a campanha eleitoral pode ter uma
serventia. Quem estiver disposto e souber aproveitá-la terá, lá por agosto ou
setembro - quando a população começar a se interessar pela eleição -,
oportunidade de usar o horário eleitoral e, sobretudo, o debate entre os
candidatos, para fazer a denúncia da farsa eleitoral e do sistema capitalista.
Embora a grande maioria da população deteste o horário
eleitoral e as redes de televisão fixem o horário dos debates para as horas em
que a grande massa está dormindo, sempre haverá meios de atingir um número
relativamente grande de pessoas. No clima de marasmo que tomou conta da
sociedade brasileira, esta perspectiva, embora pequena, já é um avanço.
Quanto ao resto, ou seja, à economia, à segurança, à
ecologia, à autonomia do país, à educação, à saúde, cabe apenas assinalar que,
enquanto os políticos estiverem dedicados a criar ilusões que, sabem, não
poderão ser concretizadas, o mercado capitalista, livre de quaisquer peias, se
encarregará de aprofundar a reversão da sociedade brasileira à condição
neocolonial. Poderemos acabar tendo saudades de 2007!
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