Aos meus irmãos e irmãs do São Francisco, do Nordeste e do
Brasil
Paz e Bem!
Sobradinho, 20 de dezembro de 2007
“Fortalecei as mãos enfraquecidas e firmai os joelhos
debilitados. Dizei às pessoas deprimidas: ‘Criai ânimo, não tenhais medo! Vede,
é vosso Deus, é a vingança que vem, é a recompensa de Deus: é Ele que vem para
nos salvar’. Então se abrirão os olhos dos cegos e se descerrarão os ouvidos
dos surdos. O coxo saltará como um cervo e se desatará a língua dos mudos”.
(Isaías 35, 3-6)
No dia de ontem completei 36 anos de sacerdócio – 36 anos a
serviço dos favelados de Petrópolis (RJ), dos trabalhadores da periferia de São
Paulo e do povo dos sertões sem-fim do nordeste brasileiro. Ontem, vimos com
desalento os poderosos festejarem a demonstração de subserviência do
Judiciário. Ontem, quando minhas forças faltaram, recebi o socorro dos que me
acompanham nesses longos e sofridos dias.
Mas nossa luta continua e está firmada no fundamento que a
tudo sustenta: a fé no Deus da vida e na ação organizada dos pobres. Nossa luta
maior é garantir a vida do rio São Francisco e de seu povo, garantir acesso à
água e ao verdadeiro desenvolvimento para o conjunto das populações de todo o
semi-árido, não só uma parte dele. Isso vale uma vida e sou feliz por me
dedicar a esta causa, como parte de minha entrega ao Deus da Vida, à Água Viva
que é Jesus e que se dá àqueles que vivem massacrados pelas estruturas que
geram a opressão e a morte.
Uma de nossas grandes alegrias neste período foi ter visto o
povo se levantando e reacendendo em seu coração a consciência da força da
união, crianças e jovens cantando cantos de esperança e gritos de ordem com
braços erguidos e olhos mirando o futuro que almejamos para o nosso Brasil
querido. Um futuro onde todos, todos sem exceção de ninguém, tenham pão para
comer, água para beber, terra para trabalhar, dignidade e cidadania.
Recebi com amor e respeito a solidariedade de cada um,
próximo ou distante. Recebi com alegria a solidariedade de meus irmãos bispos,
padres e pastores, que manifestaram de forma tão fraterna a sua compreensão
sobre a gravidade do momento que vivemos. Através do seu posicionamento
corajoso, a CNBB nos devolveu a esperança de vê-la voltar a ser o que sempre
foi em seus tempos áureos: fiel a Jesus e seu Evangelho, uma instituição
voltada às grandes causas do Brasil e do seu povo e com uma postura clara e
determinada na defesa da dignidade da pessoa humana e de seus direitos
inalienáveis, principalmente se posicionando do lado dos pobres e
marginalizados desse país.
Ouvi com profundo respeito o apelo de meus familiares,
amigos e das irmãs e irmãos de luta que me acompanham e que sempre me quiseram
vivo e lutando pela vida. Lutando contra a destruição de nossa biodiversidade,
de nossos rios, de nossa gente e contra a arrogância dos que querem transformar
tudo em mercadoria e moeda de troca. Neste grande mutirão formado a partir de
Sobradinho, vivemos um momento ímpar de intensa comunhão e exercício de
solidariedade.
Depois desses 24 dias encerro meu jejum, mas não a minha
luta que é também de vocês, que é nossa. Precisamos ampliar o debate, espalhar a
informação verdadeira, fazer crescer nossa mobilização. Até derrotarmos este
projeto de morte e conquistarmos o verdadeiro desenvolvimento para o semi-árido
e o São Francisco. É por vocês, que lutaram comigo e trilham o mesmo caminho
que eu encerro meu jejum. Sei que conto com vocês e vocês contam comigo para
continuarmos nossa batalha para que “todos tenham vida e tenham vida em
abundância”.
Dom Luiz Flávio Cappio
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