O BIRD divulgou novos dados em que o Brasil aparece com o
sexto maior PIB do mundo, ao lado de países como a Inglaterra, a França, a
Rússia e a Itália. Perde para os EUA, a China, o Japão, a Alemanha e a Índia. Esta
notícia deveria nos levar a uma reflexão acerca de “que país queremos”, indo
além do debate sobre a nossa triste distribuição de renda e da concentração do
PIB nas mãos de alguns enquanto a grande massa vive de bolsa-família. Pois
estas discussões, muitas vezes, pregam a melhor distribuição de renda apenas
como um direito de todos entrarem no “sagrado reino” da mercadoria e do
consumismo. Quero ir além e discutir qual o sentido produção de tantas
mercadorias. Também quero questionar o quê estamos produzindo, para quê e,
finalmente, para quem.
No mundo capitalista o ser humano torna-se escravo da
mercadoria. Assim, se produzimos muito e vendemos muito, o PIB cresce, o
emprego aumenta, os impostos avolumam e por aí vai. Para tanto, produzimos por
produzir, produzimos para vender. Não existe planejamento das necessidades e a
população não é consultada acerca do que deve ser priorizado. Somos apenas
induzidos a irmos ao mercado adquirir as mercadorias que foram produzidas por
outros e das quais somos alienados. Ou seja, somos conseqüência da produção e
circulação das mercadorias. Mas será que não estaria na hora de questionarmos
este modelo e exigirmos debater o que produzimos, o que necessitamos e o que
queremos?
Faço estas reflexões para questionar este sistema e para
apoiar a luta de um bispo. Sim, a luta de Dom Cappio no seu jejum tem muito a ver
com esta discussão. Pois Luiz Cappio luta contra este modelo de
“desenvolvimento e progresso” simbolizada pela mega-obra de transposição do rio
São Francisco para desenvolver o hidro/agronegócio e favorecer grandes
empreiteiras. Possivelmente, os defensores desta lógica achem que, desta
maneira, criaria-se emprego na construção da obra, nas futuras atividades
agronegociais, no comércio, etc. Ou seja, a mesma lógica capitalista que poucos
frutos sociais carrega.
Mas, diante deste modelo, o governo está conhecendo, talvez
pela primeira vez, a oposição popular organizada. Diversos movimentos sociais,
como o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), o MST, o Movimento dos Pequenos
Agricultores (MPA), a Central dos Movimentos Populares, o Movimento Nacional de
Luta pela Moradia ou movimentos religiosos, como as diversas Pastorais, a CPT,
o CIMI, dentre muitos outros, estão manifestando apoio ao bispo e propondo um
outro modelo de desenvolvimento. Um bispo está levando a que o governo Lula e
seu modelo de desenvolvimento capitalista sejam questionados pela base.
Mas qual seria este “outro” modelo de desenvolvimento? Em
primeiro lugar, não viria de cima para baixo e nem viria para atender
interesses de grandes empresas. As necessidades seriam discutidas e debatidas
com as populações envolvidas e interessadas. Em segundo lugar, a extensão ou
tamanho da obra não seria prioritário apenas porque renderia frutos políticos
ou envolveria muito dinheiro. Às vezes, soluções menores e mais equilibradas
podem apresentar melhores resultados sociais. Em terceiro lugar, a relação ser
humano/natureza seria levado em conta como fator de qualidade de vida. Em
quarto lugar, as obras poderiam ser desconcentradas, permitindo um controle
social mais amplo. Em quinto lugar, o ser humano seria a prioridade.
Esclareça-se que este novo modelo não seria sinônimo de “tecnologia atrasada”.
Pelo contrário, teríamos o compromisso de usar a ciência e a tecnologia de
ponta para desenvolver este modelo e não o modelo capitalista de grandes e
concentradas obras.
Neste sentido, seria indiferente o lugar que ocupássemos no
ranking do PIB, mas certamente construiríamos uma sociedade mais justa,
equilibrada e feliz, como, tenho certeza, deseja o Bispo Luiz Cappio.
Antonio Julio de Menezes Neto é sociólogo, doutor em educação e professor na UFMG.
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