As previsões de que o ano de 2007 seria mais aquecido se
confirmaram, em
parte. Escaldados com as medidas econômicas e políticas
adotadas pelo governo Lula, o movimento social resolveu arregaçar mais suas
mangas e intensificar sua movimentação de protesto contra o descaso do governo
com as necessidades e as exigências do povo brasileiro.
Mas a radicalização se
deu dos dois lados porque Lula (sua equipe e seu partido) está mostrando de que
lado está realmente, e não faz isso apenas com palavras - já que ele mesmo
elogiou seus novos heróis, os usineiros –, o faz com as políticas reformistas
que oneram o conjunto dos trabalhadores, com as Parcerias Públicas Privadas,
com as privatizações (estradas, exploração do petróleo, cessão de terras da
Amazônia para o cultivo da cana), com a liberação dos transgênicos, com a
ampliação do “superávit primário” e o conseqüente aumento do envio de dinheiro
para os banqueiros.
Lula vem fazendo acordos com empresas estadunidenses para
montagem de usinas de álcool no Brasil, ente tantas outras medidas
antipatrióticas e anti-trabalhistas. Além disso, não investe nas áreas da saúde
pública, da educação, das moradias populares, do saneamento básico, não faz a
reforma agrária, como vem prometendo em seus discursos desde a campanha
eleitoral de 2002 e da história política do PT.
Aos poucos, parcela cada vez maior do povo e dos movimentos
organizados vai percebendo que esse governo age autoritariamente, não cumpre os
acordos com a sociedade e não tem olhos para o verdadeiro sofrimento dos
excluídos. O aclaramento dessas contradições – assim como quando a água chega
ao pescoço do afundado – fez com que aumentasse a determinação de muitos em
protestar abertamente, de começar a exercer de fato sua cidadania, seu direito
de exigir o que legitimamente é seu. Já nos findos de 2006 se percebia a
insatisfação de tantos que até então acreditavam em mudanças, mas percebiam que
a política entreguista crescia, ao invés de diminuir. Por isso, as
manifestações e as articulações das forças progressistas e de esquerda se
intensificaram, planejando atividades para 2007, ante o calendário reformista
de Lula.
Neste ano, pudemos ver acontecer as manifestações do dia 23
de maio espalhadas por todo o país, com marchas e ocupações de ruas nas
cidades, com bloqueios de estradas estratégicas (mais de 30, apesar do boicote
da mídia), ocupações de terras devolutas ou improdutivas, ocupação de imóveis
públicos abandonados... Depois disso, as greves dos setores públicos se
intensificaram em defesa dos equipamentos que vêm sendo sucateados a fim de
“justificar” a privatização dos serviços públicos, os indígenas reagiram com
mais vigor às invasões de suas terras e ao descumprimento das leis que os protegem,
professores estaduais e federais entraram em greve, ocuparam reitorias,
exigindo um mínimo de democracia no sistema educacional. No dia 8 de março, dia
consagrado à mulher, grandes manifestações ocorreram nas principais cidades do
país, pela visita de Bush ao Brasil e em protesto contra o projeto de Reforma
da Previdência.
Um marco importante foi o 1º de maio que demarcou, de
maneira mais significativa, as trincheiras dos trabalhadores. Rompendo com o
sindicalismo pelego de todas as centrais vendidas ao capital, o Conlutas, a
Intersindical, centenas de sindicatos que mantém sua prática classista,
Pastorais sociais, estudantes e inúmeros movimentos organizaram manifestações
espalhadas por importantes cidades brasileiras. A marcha do movimento classista
fez ecoar seu grito de protesto e, ainda que limitadamente, fez com que a mídia
mostrasse parte de sua força.
Outro momento importante foi a Semana da Pátria, ponto
culminante de uma intensa campanha pela denúncia do escandaloso, fraudulento e
criminoso “leilão da Vale do Rio Doce” (realizado por FHC em 1997, apesar de
todos os protestos da Nação brasileira). Pela terceira vez, conseguimos
organizar e realizar, em mais de 1.500 cidades brasileiras, um plebiscito popular - apesar da intensa campanha da Vale e da mídia em defesa dessa
maracutaia. Mais de três milhões e setecentos mil brasileiros manifestaram-se
livremente contra o leilão, contra o pagamento dos serviços da dívida pública,
pelo rebaixamento da tarifa da eletricidade e contra as reformas do governo.
No dia 24 de outubro, apesar do boicote das centrais
sindicais, da UNE, do PT, do PCdoB e da baixa presença do MST, cerca de 16
mil trabalhadores de todos os cantos do país marcharam pelas avenidas de
Brasília, protestando contra a reforma da Previdência. E as greves por reajuste
de salários se intensificaram, apesar da suas centrais acomodadas.
Para encerrar essa ascensão das lutas do povo, embasados no
protesto do frei D. Luiz Cappio, em sua prolongada greve de fome contra a
transposição do rio São Francisco - e pela intransigência e prepotência do
governo Lula -, pelo Brasil inteiro movimentos sociais e parcelas significativas
da população se movimentam em apoio ao bispo e em duras críticas ao governo,
exigindo a suspensão dessa criminosa transposição e pela realização de um amplo
e livre debate com a sociedade. E, se for o caso, os movimentos cobram a
realização de um plebiscito oficial para que o povo soberanamente decida sobre
a política mais correta para o “Velho Chico”, rio de caráter nacional,
fundamental para a vida de milhões de famílias de trabalhadores que
tradicionalmente vivem próximos das suas margens.
Que a luta do povo não se arrefeça no próximo ano, é o que
esperamos e pelo qual lutamos.
Waldemar Rossi é metalúrgico aposentado e coordenador da
Pastoral Operária da Arquidiocese de São Paulo.
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