A greve de fome de Dom Luiz Cappio contra a transposição do rio São Francisco simboliza o que foi o ano de 2007 no cenário da política:
uma profunda aliança do governo Lula com os interesses do grande capital, dos
grandes negócios, e uma arrogância e ausência de escrúpulos sem limites no
trato com as demandas e direitos dos movimentos sociais e populares.
O ilusionismo que pode ser gerado em torno das políticas
sociais compensatórias e da estabilidade econômica (beneficiado pela maré de
crescimento mundial nos últimos quatro anos, que dá sinais de estar chegando
abruptamente ao fim) não é o suficiente para deixarmos de pontuar as diretrizes
gerais do governo.
O aprofundamento de uma política econômica de subordinação
extraordinária aos interesses do capital financeiro, a entrega da
infra-estrutura e reservas naturais do país ao capital privado pela via do PAC,
o projeto de avanço selvagem do agronegócio através do etanol, a criminalização
dos movimentos sociais e do direito de greve e a busca da retirada de direitos
foram pontos centrais da verdadeira agenda do governo Lula e, bom que se diga,
dos governos estaduais e municipais do bloco tucano.
E tal agenda vem sob a base do cinismo, afinal, o chefe dos
aloprados acabou de ser reconduzido à presidência do PT. E para a cúpula
governamental e do partido não importa que um dos custos do etanol seja a
vergonhosa condição de trabalho de 1,2 milhão de cortadores-de-cana no país,
nem que existam governos petistas tão lamentáveis e moralmente corrompidos como
os de Ana Júlia e Jacques Wagner.
Não é por acaso que a corrupção e as denúncias freqüentes
envolvendo “altos dignatários” da República e do Senado também tenham feito
parte da “agenda 2007”.
Bem, para a manutenção do nosso próprio bem estar, paremos de
falar e enumerar tanta desfaçatez e impunidade que correram pelo ano.
Basta para fechar este bloco citar a aprovação recente da
DRU até 2011, outro episódio que também fala por um ano de governo Lula e
explicita ainda mais o caráter farsesco da oposição tucano-democrata. Este sim,
o verdadeiro golpe na saúde pública, pois permite ao governo continuar
desviando 20% dos recursos da União (da Seguridade Social e Educação em
particular) para o pagamento da dívida pública. Serão desviados por volta de R$
86 bilhões de reais apenas em 2008.
Os “novos” impasses na esquerda socialista
No ano de 2007, no entanto, também ocorreu uma retomada de lutas e
resistência social a essa agenda e condutas infames.
Especialmente no primeiro semestre, quando diversos setores
sociais da classe trabalhadora e dos movimentos populares se mobilizaram em
torno de uma pauta de defesa dos direitos, que permitiu a ocorrência de um
amplo encontro unitário em março, com mais de 6 mil militantes e uma jornada de
lutas em torno de uma ação unificada no dia 23 de maio.
Como parte deste processo, merece ser observado que há uma
nova geração no movimento estudantil universitário, bastante combativa e também
muito crítica, que de maneira geral questiona profundamente práticas e
estratégias que estão carimbadas na conduta da maior parte da esquerda e das
suas representações políticas e sindicais.
É a partir daqui que entramos na reflexão final deste ano.
A falência política e moral do PT e do governo Lula
colocaram um encerramento de ciclo na esquerda brasileira e, acima de tudo,
colocaram o desafio de reconstruir uma sólida frente de resistência,
especialmente entre todos os setores que compreendem a natureza do atual
governo e os impasses para o país e a maioria da sua população.
Mas mesmo considerando que estamos no início de um nova
empreitada histórica, os passos até aqui foram extremamente tímidos.
Os impasses nessa ampla e combativa esquerda, que foi capaz
de realizar marchas como a de 24 de outubro e jornadas como a do 1º semestre,
já são visíveis.
Há setores que continuam com ilusões em requentar a
estratégia de chegada ao poder pela via institucional; há outros que mantêm uma
rotina e uma prática nos movimentos sindical e sociais que são oriundos de um
longo período de refluxo e burocratização.
Pouca reflexão com os erros do passado agravam o
distanciamento da esquerda combativa de uma implantação no povo para oferecer e
reformatar uma alternativa de massas e socialista.
A questão é que o tempo urge contra nós. A agenda predatória
do capitalismo imperialista continuará a pleno vapor, e não há esperança nos marcos dos modelos
atuais, menos ainda em governos covardes como o de Lula, cordeiro aos
interesses do grande capital e “corajoso” para hostilizar gestos e atitudes de
gente da estatura moral de um Dom Luiz Cappio.
Temos a nosso favor uma maré positiva na América Latina em
relação a processos de ruptura com o modelo neoliberal.
Também por isso, no Brasil, partidos, sindicatos e
movimentos sociais da esquerda combativa precisam criar condições e espaços
para realmente colocar um debate sobre estratégia, que parta de buscar a
formação de uma sólida frente única de ação e resistência.
O Brasil precisa, mais do que nunca, de um projeto de
ruptura anti-capitalista, que rompa com os velhos erros que levaram o PT e a
CUT a serem o que são hoje. A classe trabalhadora, a juventude e os
setores mais marginalizados do povo não merecem novos anos como o de 2007.
Fernando Silva é jornalista, membro do Diretório Nacional do
PSOL e do conselho editorial da revista Debate Socialista.
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