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Ando pelas ruas e vejo lojas enfeitadas, casas com luzes coloridas,
shopping-centers esbanjando exuberância, poder e riqueza. Todos anunciam: o
natal chegou. Se será bom ou não, as estatísticas antevêem. O termômetro para
medi-lo é o consumo. O frenesi do povo na rua dá o ritmo e as notícias aceleram
ainda mais o corre-corre. Quem não comprar seu presente a tempo terá cometido
pecado grave, imperdoável, porque simplesmente não terá consumido. O consumo
faz com que o prazer de se presentear alguém fique relegado a segundo plano,
importa consumir.
“Mamon” ordena: gastem. E sem nenhuma resistência, os “escravos do
consumo desmedido” se atropelam dentro das lojas, para não desobedecer a sua
ordem. O importante é abocanhar as liquidações e as promoções. Se se faz
necessário não importa, importa adquirir. Cegadas pelo fascínio que o mercado
provoca, as pessoas mal têm tempo para pensar. Ocultar a realidade do mundo à
sua volta e aprisioná-las no grande templo do consumo, é justamente o objetivo
de “Mamon”. Nada mais podendo intuir fora dele, o máximo que podem fazer é cultuá-lo
como a um “deus”.
Consumir chega a ser um imperativo, o único grito que se ouve.
Tudo o mais passa despercebido e o consumidor repete em uníssono: “o mercado
sou eu”. Poucas pessoas se dão conta das falcatruas do governo para aprovar um
imposto que não retornará a elas, mesmo que a propaganda seja em seu nome.
Algumas apenas têm conhecimento da voracidade do agronegócio sobre nossas
reservas ambientais, nossa água e nossa soberania. Dá para contar nos dedos das
mãos as que têm conhecimento de que um bispo está prestes a morrer, para
defender a vida de um povo e de um rio, contra a ganância das empreiteiras, das
multinacionais do agronegócio e a teimosia de um governo que deseja a qualquer
custo ver concluída uma obra faraônica. Somente os mais próximos sabem que a
polícia deixou mais de vinte pessoas feridas, numa ação truculenta em
Limeira-SP, quando mentirosamente chegou com uma proposta de negociação e
desferiu uma rajada de balas de borracha nos “sem-terras do Acampamento Elisabeth
Teixeira”, não poupando padre, freira, jornalista, crianças. Isto há menos de três
semanas. E quem é que sabe algo a respeito da multinacional Syngenta. Esta é uma
das maiores companhias de sementes do planeta, e também a responsável pelo
assassinato do sem-terra, Keno, em Santa Tereza do Oeste-PR. Porém, todos sabem que
o Corinthians foi rebaixado para a segunda divisão.
Neste mundo de luxo, aparência e privilégio, o circo está posto,
já que muitos sequer têm pão. A mensagem subversiva de um nazareno nascido numa
manjedoura – “cocho de alimentar animais” –, há dois mil anos, quase não tem
efeito. Sua estrebaria não faz frente ao aparente mundo de uma Daslu. É
preciso esvaziar, enfraquecer e despolitizar a rebeldia de sua Boa-Nova, do seu
Reino de justiça e de vida e vida em abundância para todos e todas e não
somente para alguns. Faz-se necessário confundi-la, até que paulatinamente
“Mamon” ocupe o lugar de “Jesus”. Até que todas as pessoas passem a louvar o
dinheiro e se esqueçam do Deus de Jesus de Nazaré.
Somente umas poucas pessoas fazem como os reis magos que,
despindo-se de suas riquezas, se igualam aos pastores, deixando-se conduzir
pela estrela-guia, para o lugar onde estava Jesus de Nazaré. Lá chegando,
contemplam a “salvação” nascida numa gruta, num barraco de lona preta, debaixo
dos viadutos, em acampamentos e assentamentos. Contemplam o Messias esculpido
no rosto dos pobres, dos moradores de rua, dos sem-terra, dos meninos de rua,
dos excluídos e marginalizados.
Para “Mamon”, é preciso que este jeito diferente de celebrar o
natal seja varrido da mente e do coração das pessoas. Ninguém pode se dar conta
dos sacrifícios exigidos por ele. Quanto menos se prestar atenção no
despenhadeiro que os agrocombustíveis estão nos arrastando, melhor. Quanto mais
os pais e mães de família ignorarem que 854 milhões de pessoas passam fome no
mundo; e que destas 6 milhões de crianças, com até 5 anos de idade, morrem de
fome todo ano, 12 por minuto, 1
a cada 5 segundos, mais poder ele terá sobre as pessoas.
É bom que ninguém se aperceba que o Brasil, globocolonizado, muito em breve
terá lugar para apenas duas coisas: grandes fazendas, com plantios de
cana-de-açúcar e eucalipto, e casas-grandes, com condomínios de luxo. Quanto
maior a ignorância, menor a rebeldia. Melhor para o império.
E Jonatan? Jonatan é um sem-terrinha que conheci há cerca de três
semanas. Contemplei sua gruta, um barraco de lona preta, também presenciei sua
manjedoura, um estrado de vara, sobre o qual estava estendido um velho colchão
e alguns panos remendados. Nascera fazia quinze dias. Todos dentro do
acampamento faziam questão de afirmar: este nasceu aqui dentro, já é sem-terra
desde o nascimento. Conheci sua família. Estavam felizes com sua vinda ao
mundo. Assim como Maria e José com a vinda de Jesus.
Jonatan não conhece quase nada do mundo. Ainda não teve tempo para
isto. Contudo, já conhece uma das facetas mais perversas da vida: a exclusão.
Tudo em sua vida lembra Jesus de Nazaré. Seu lugar de nascimento, onde dorme, a
pobreza de sua família e a peregrinação em busca de um lugar melhor onde possa
crescer saudável. Até mesmo a fuga do perverso Herodes, que procura matá-lo,
lhe é semelhante.
Quando conheci Jonatan, ele estava em Franco da Rocha – Região da
Grande São Paulo, num acampamento provisório. Neste momento, enquanto partilho
de minha alegria ao encontrá-lo, ele está numa ocupação em Valinhos, próximo a
Campinas. Talvez quando você estiver lendo este relato, o Jonatan já não mais
esteja lá. Ele e sua família, juntamente com outras demais famílias, acabaram
de receber a liminar de reintegração de posse. Terão que deixar a área. A juíza
cumpriu a lei. Não interessa o Jonatan, tão pouco interessa as famílias e as
crianças que estão acampadas naquele local. Não interessa se a fazenda é
improdutiva e se está abandonada há mais de onze anos. Farisaicamente interessa
a lei, mesmo que ela seja inconstitucional. É preciso manter a ordem.
Como será o natal de Jonatan? Pergunte: como foi o natal de Jesus
que em tempos de hoje celebramos com tanta pompa e tanto luxo? Que preocupações
povoavam a cabeça de Maria e de José? Para onde eles teriam ido fugindo de
Herodes? Que dificuldades encontraram no caminho? Tiveram medo de encontrar com
a legião romana? Com o que alimentaram o pequeno Jesus? Perpassava pela cabeça
de seus pais a dúvida se o menino sobreviveria ou não a esta longa
peregrinação?
Que natal espera por Jonatan? Quem sabe o comandante da polícia, a
juíza, o governador de São Paulo, os empresários do agronegócio e dos
condomínios de luxo possam responder.
Wilson Aparecido Lopes é assessor da Pastoral do Povo da Rua (Osasco-SP) e do MST (Região
Grande São Paulo).
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