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Não vou examinar neste artigo as questões técnicas
relacionadas com a transposição das águas do Rio São Francisco.
Limito-me a refletir sobre aspectos éticos do jejum e oração
a que se entregou o Bispo Dom Luiz Flávio Cappio, em protesto contra o projeto
de transposição.
É ético jejuar, colocando a própria vida em perigo, em nome
de uma causa? O jejum de Dom Cappio é um ato religioso ou um ato político? Se é
um ato político, não estará o Bispo usando a força simbólica do solidéu para
invadir esfera que não lhe compete, atitude que o colocaria em desacordo com a
Ética?
Vamos tentar colocar pistas para o exame destas questões.
Expor a vida a perigo, na defesa de uma causa, não afronta a
Ética. Mártires de todos os tempos ofereceram o próprio sangue em holocausto,
por fidelidade à Fé. E não apenas nos arraiais do Cristianismo aceitou-se a
idéia de que a causa pode sobrepujar a vida. Lembremo-nos do Mahatma Gandhi,
apóstolo da resistência civil, que jejuou muitas vezes e ameaçou jejuar até a
morte para conquistar a liberdade para seu povo.
O jejum de Dom Cappio é um ato religioso com repercussão na
política. É um gesto extremo de dedicação, zelo, amor, compaixão por sua gente.
Os motivos que justificam a atitude do Bispo são motivos
éticos. Segundo suas palavras, o projeto de transposição das águas do São
Francisco é socialmente injusto. A água a ser transposta é destinada aos
grandes empresários, vai passar muito distante das comunidades que realmente
necessitam dela. É um projeto ecologicamente insustentável porque vai
sacrificar um rio que precisa ser urgentemente revitalizado. Atenta contra a
Ética porque transformará a água em objeto de compra e venda quando, na
verdade, a água é um bem essencial que não se pode transformar em barganha de
mercado.
Dom Cappio não está praticando um ato solitário. Caravanas e
mais caravanas de nordestinos estão indo ao seu encontro para emprestar apoio a
sua luta.
Como escreveu Gey Espinheira, professor do Departamento de
Sociologia da Universidade Federal da Bahia, “a fome do bispo é a nossa fome de sinceridade, de
liberdade, de justiça; a fome do bispo é a sede que todas as águas do São
Francisco não saciarão”.
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil está convidando
as comunidades cristãs e pessoas de boa vontade a se unirem em jejum e oração a
dom Luiz Cappio, em solidariedade à causa por ele defendida.
É contra a Ética que se faça a transposição sem ouvir as comunidades
atingidas. Ajusta-se ao caso a consulta plebiscitária que a Constituição
Federal prevê no seu artigo 14. As populações envolvidas é que devem dizer se
querem a transposição, é que devem discutir as melhores alternativas de
abastecimento hídrico para o Nordeste.
Fora disso é o primado do autoritarismo que o povo sepultou
com a Constituição cidadã de 1988 e que não pode voltar por caminhos
transversos e por razões nada éticas.
João Baptista Herkenhoff é Livre-Docente da
Universidade Federal do Espírito Santo – professor do Mestrado em Direito e
escritor.
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