Biocombustíveis: moda decorrente do alto preço do petróleo
Escrito por Valéria Nader
18-Dez-2007
Na primeira parte da entrevista que Tamás
Szmrecsányi, professor do Departamento de Política Científica e Tecnológica do
Instituto de Geociências da Unicamp, concedeu ao Correio – publicada no dia 06
de dezembro -, avaliaram-se as atuais discussões em torno dos biocombustíveis,
a sua eficiência energética e os argumentos críticos a essa fonte.
Nesta parte de sua entrevista, Tamas
discute as ponderações dos defensores dos biocombustíveis, que têm sido
intensamente veiculadas em nossa imprensa.
Na terceira e última parte,que logo
divulgaremos, serão avaliadas alternativas à sua produção e também a postura do
governo e dos movimentos sociais.
Confira abaixo.
CC: A intensa discussão em que estão envoltos os
biocombustíveis se associa de alguma maneira a interesses políticos e
econômicos do atual momento vivido pelo capitalismo em escala global? Como isso
se dá a seu ver?
TS: A moda atual dos
biocombustíveis, e mais particularmente do bioetanol, decorre dos atuais preços
do petróleo, provocados pelas intervenções militares do EUA no Oriente Médio.
Trata-se de fatores conjunturais, reversíveis a curto e médio prazos. A era
Bush, felizmente, está chegando ao fim, e qualquer um de seus sucessores poderá
adotar outras políticas com vistas a normalizar as relações internacionais e
evitar a ocorrência de uma recessão aguda do sistema capitalista. A partir do
momento em que isto se der, haverá uma inflexão das tendências atuais.
Em termos estruturais e no
longo prazo, não está havendo uma diminuição das reservas mundiais de petróleo;
antes pelo contrário, novas reservas estão sendo descobertas continuamente,
inclusive pelo Brasil. Nos países economicamente mais desenvolvidos, há programas
de poupança de energia em andamento – inclusive no campo automobilístico,
através dos chamados carros híbridos, com motores que não se destinam, como os
carros flex, a substituir um combustível por outro, mas a poupar combustíveis
em geral.
Por outro lado, os
desequilíbrios entre a produção e o consumo decorrentes do intenso consumo de
algumas economias asiáticas (China e Índia) não são necessariamente estruturais
e também podem assumir um caráter conjuntural.
Diante disso, eu diria que as
atuais tendências são movidas por motivos de curto prazo e voltadas para ganhos
imediatos e de caráter especulativo, possibilitados pelas condições de países
como o Brasil, onde a terra e o trabalho são baratos, e os poderes públicos
complacentes e cooptáveis, dominados por minorias poderosas e rentistas, que
têm conseguido manter sua hegemonia através do tempo, seja aproximando-se ao
capital estrangeiro, seja subordinando a atuação do Estado a seus interesses.
CC: Os defensores dos biocombustíveis contrapõem-se a
cada uma das críticas. Com relação àquela que avalia ser a cana uma
monocultura, que viria reforçar a concentração de terras, em detrimento da
agricultura familiar e da produção de alimentos, sinalizam os defensores que,
no Brasil, estariam sendo ocupados somente 3 milhões de hectares para a
produção de açúcar, outros 3 milhões para a produção de 17 bilhões de litros de
álcool, e sobrariam como área passível de ser utilizada para cultivos
energéticos nada menos que 300 milhões de hectares – já descontados desse total
a área destinada a cultivos agrícolas e as áreas de preservação ambiental. O
que você pensa sobre isso?
TS: Os argumentos levantados
pelos defensores das atuais políticas e das tendências dominantes não se
sustentam e fazem parte das campanhas de desinformação às quais já me referi –
antigamente, havia os contos de fadas; hoje em dia predominam os contos da
mídia e as verdades pseudocientíficas.
Não há dúvida de que no
capitalismo atual tem prevalecido a grande produção, inclusive na agricultura.
Mas isto vem ocorrendo em outros países
não da mesma forma que no Brasil, não com essa concentração da renda, da
riqueza e do poder, que tem como contrapartida o empobrecimento, a exclusão e a
miséria de grandes massas da população.
Nos Estados Unidos e na
França, não há monocultores e nem usineiros como aqui. Quanto às áreas ocupadas
pela cana-de-açúcar, há que compará-las não com a superfície territorial do
país, mas com o total das áreas agricultáveis, mas com o total das áreas de
colheita, particularmente nos estados que são seus principais produtores – caso
de São Paulo, que abastece mais da metade dos canaviais do país, e onde os
mesmos ocupam quase metade das áreas cultivadas, relegando a um plano
absolutamente secundário o arroz, o feijão e até o café.
Finalmente, no que se refere
às áreas de preservação ambiental, há dados empíricos que mostram cabalmente
que elas deixaram simplesmente de existir em áreas canavieiras como as dos
cerrados de Pernambuco e Alagoas, ou aqui na região de Ribeirão Preto.
CC: Argumenta-se, ademais, nesse sentido, que a fome
se deve à pobreza, é questão de falta de renda de vastos setores da população,
e não de oferta de alimentos, segundo inclusive participantes da Conferência
Internacional Rio+15 em
setembro. Supondo que se proíba nesse setor o uso de
matéria-prima alimentar, não haveria redução da pobreza no mundo e o preço do
petróleo subiria ainda mais. Expandir a produção de bioenergia contribuiria,
ademais, para combater a fome, ao gerar novos empreendimentos econômicos e
empregos. Qual a sua visão sobre esse argumento?
TS: É
verdade que a fome se deve à pobreza, mas esta é gerada pelo preço e/ou pela
falta de acesso aos meios de produção capazes de alimentar a população carente.
Na verdade, o mal não está na
cana, mas sim no tipo de empresas e de empresários que exploram a sua produção
no Brasil, empresários que fazem parte das classes dominantes do país e que são
apoiados por estas em detrimento do resto da sociedade – ou melhor, da maioria.
O aumento da produção de
biocombustíveis não faz, nem fará, baixar o preços do petróleo. É a elevação
dos preços que tem feito crescer a produção de álcool; na hora em que os preços
do petróleo baixarem, haverá uma superprodução de álcool, como já ocorreu no
passado.
Muitos dos novos
empreendimentos surgidos na atual conjuntura deixarão de existir ou terão que
mudar de ramo; alguns deles, aliás, nem sequer saíram ainda do papel em que
foram inscritos.
A geração de empregos poderá
existir, mas não será grande nem automaticamente capaz de sustentar-se por si
só.
CC: Haveria ainda, nessa linha de argumentos, os
ganhos de produtividade da lavoura advindos da inovação tecnológica,
possibilitando aumentar a produção por terra cultivável. O que você pensa sobre
isso?
TS: Os ganhos de
produtividade da agroindústria canavieira ocorreram de fato, mais no segmento
industrial do que no agrícola. Os ganhos se deram pela adoção de novas
variedades de cana, que fazem aumentar a produção de açúcar e de álcool por
hectare. Mas no que se refere à cana em si, a produtividade é medida em
toneladas por hectare e não tem crescido muito, razão pela qual a lavoura
canavieira continua sendo uma monocultura extensiva, cuja produção cresce mais
em função da área cultivada do que devido a crescentes rendimentos por unidades
de área.
Os ganhos de produtividade
agroindustrial que acabam de ser mencionados constituem um argumento favorável
à diminuição, e não ao aumento das áreas cultivadas. Isso é algo que poderá
talvez ocorrer por meio da extração de álcool da celulose, e não mais do caldo,
da cana – uma tecnologia ainda não disponível, por meio da qual se poderá
aumentar muito a produtividade agroindustrial por hectare cultivado.
CC: O jornalista Vinícios Torres Freire chegou a alertar, em artigo na Folha de São Paulo,
que a “teoria alcoolismo ignora o ganho de renda de países pobres que
plantariam cana (e poderiam comprar comida, que ainda sobra no mundo), ignora
ganhos de produtividade das lavouras e os estímulos de preço (se a comida fica cara,
planta-se mais comida)”. Quanto ao ganho de renda, cita-se, por exemplo, que,
dos 17 bilhões de litros de álcool produzidos atualmente, poder-se-ia chegar a
44 bilhões de litros em 2016, segundo o mais recente (e crítico) documento da
própria FAO (Organização das Nações Unidas para a Agricultura e
Alimentação). No que se refere aos
estímulos de preço, considerando características singulares de um país como o
nosso - tais quais o sol, as terras agricultáveis e até mesmo a água -, o
argumento crítico relativo aos impactos da produção de biocombustíveis na
elevação dos preços de alimentos seria pouco significativo: preços em elevação
seriam, outrossim, um estímulo à expansão da produção. O que você responderia?
TS: Não conheço o artigo do
referido jornalista, mas poderia comentar as idéias que ele veicula da seguinte
forma: (a) plantar mais comida em um país dominado pela cana é algo complicado,
como se pode observar pela história da zona da mata no nordeste. No caso de São
Paulo, atualmente, boa parte do abastecimento alimentar vem dos estados do Sul,
graças ao fato de a expansão canavieira não poder ir além do norte do Paraná,
por razões climáticas; (b) Os repiques inflacionários através da alta dos
preços dos produtos alimentícios no Brasil podem ser atribuídos à expansão
canavieira; em âmbito internacional, também tem havido uma alta, em função do
aumento dos preços do milho usado tanto para fazer álcool nos EUA, como para
fabricar ração para animais produtores de carne.
CC: Ainda nessa linha, insinua-se que o cultivo do
etanol colocaria o Brasil em uma escala ainda mais privilegiada no comércio
internacional de commodities, no caso os bios, com significativos ganhos de
renda. Nesse sentido, advoga-se a redução de tarifas por parte de países
desenvolvidos para impulsionar esse comércio, com o que se incluiriam os
emergentes em um “novo ciclo de geração de riqueza”. O que você pensa sobre
isso?
TS: Os programas de
biocombustíveis dos países mais desenvolvidos não se destinam a abrir mercados
para países em desenvolvimento, mas para resolver seus próprios problemas de
curto, médio e longo prazos.
CC: Quanto à crítica relativa ao balanço energético
negativo do álcool – onde se gastaria mais combustível fóssil para produzi-lo
do que aquele que ele economizaria -, o físico Rogério Cezar Cerqueira Leite
diz que, para cada unidade de combustível fóssil despendida para produzir o
álcool, mais de 8 unidades deixarão de ser queimadas. É correto esse
raciocínio, a seu ver?
TS: Não entendi bem o
raciocínio do professor Cerqueira Leite, e tampouco pude perceber qual é a sua
relevância prática. O álcool nunca conseguirá substituir uma grande parte do
consumo de petróleo, e um excessivo aumento de sua produção acaba criando uma
série de problemas sociais, econômicos e ambientais.
CC: No que se refere à degradação ambiental, o mesmo
Rogério César avalia que as terras mais férteis do globo são aquelas cultivadas
há séculos, e que, atualmente, não existe mais no Brasil vinhoto nos rios e nos
mananciais e que a queima de palha já foi reduzida e o será mais ainda com a
mecanização da lavoura. Qual a sua opinião?
TS: Também aqui há vários
argumentos misturados e cuja relevância prática é difícil avaliar. A presença
de vinhoto em cursos d’água e em mananciais continua existindo no Brasil,
embora não seja registrada por falta de fiscalização. A colheita mecanizada de
cana crua é ambientalmente e também do ponto de vista trabalhista a melhor
prática possível. Mas ela precisaria ser complementada pela liberação das áreas
não mecanizadas para outras culturas, e inclusive para a reforma agrária, se
essas culturas não surgirem espontaneamente.
Na verdade, uma medida de
fundamental importância seria a adoção de um zoneamento agroecológico e
socioeconômico entre as diversas culturas e atividades, a fim de manter uma
convivência entre as grandes lavouras, de um lado, e policulturas e
biodiversidade, do outro.
CC: Dizem ainda os defensores do etanol que a
preocupação com a água consumida pela cultura da cana é infundada, na medida em
que o que existe é um complexo processo de ingestão/evaporação, no qual a água
voltaria para a natureza na mesma proporção em que foi utilizada. O que você
pensa disso?
TS: A cana de açúcar requer
muita água, o mesmo se dando com o segmento industrial da agroindústria. Se
este recurso for suficiente ou abundante, não há maiores problemas. Mas, caso
isto não ocorra – por exemplo, na agricultura irrigada –, surgem problemas de
prioridade social e econômica. E, no caso das usinas e destilarias, há o
problema da cobrança da água utilizada e às vezes poluída por elas.
CC: Em uma versão mais política, a defesa do etanol
chega também a citar Fidel Castro e Hugo Chávez, que teriam “virado a casaca”,
passando de defensores a críticos contumazes do etanol em apenas um mês, uma
vez diante da possibilidade de concretização da parceria Brasil-EUA na produção
de bioenergia – especialmente após a vinda de Bush ao Brasil. Quanto a Chávez,
especificamente, teria um motivo a mais para estar à revelia do projeto, um
concorrente em potencial para o petróleo venezuelano. O que responder a essa
versão?
TS: As críticas a Fidel Castro e a Hugo Chávez me
parecem tão ridículas quanto a confiança depositada nas profecias de Bush para
o Brasil.
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