A legitimidade da greve de fome do Bispo que jejua por nós
Escrito por Valério Arcary
17-Dez-2007
D. Luiz Cappio mantém, com valentia admirável, a greve de
fome exigindo do governo Lula a suspensão das obras de transposição do rio São
Francisco. Sua luta merece o apoio de todos. A transposição é um projeto mais
do que controverso: já são muito consistentes as críticas que asseguram que os
bilhões de reais não serão suficientes para garantir a acessibilidade à água
potável. São interesses empresariais que se escondem por trás do discurso de
“levar água a quem tem sede”. Mas há uma outra dimensão na greve de fome de
D.Cappio. A legitimidade da greve de fome como forma de luta foi colocada em
cheque pelas forças que apóiam o governo, em primeiríssimo lugar, pelos
dirigentes do PT, que mobilizaram Patrus Ananias, militante católico, para
acusar D. Cappio de extremista e radical. Esta acusação não é inocente. Tem
como objetivo diminuir a simpatia social, reduzir a audiência política e isolar
a repercussão internacional da greve de fome.
As greves de fome foram no século XX, em todos os
continentes, uma das formas da luta defensiva por direitos democráticos
elementares. Sua legitimidade, histórica e politicamente, é irrefutável. Ganhou
destaque mundial a partir das greves de fome de Gandhi contra a opressão
colonial inglesa na Índia antes da independência, inserida em uma estratégia de
desobediência civil. Na Bolívia, por exemplo, há uma longa tradição de greves
de fome, e uma delas incendiou o país e culminou em uma greve geral que
derrubou a ditadura Banzer em 1978. Ainda em 1978, mas no México, 84 mulheres e
quatro homens iniciaram um jejum na Catedral para exigir a liberdade de 1500
presos. Sua ação obteve a primeira anistia política. Por último, no Brasil, em
1978 também, quase duas dezenas de militantes da recém constituída Convergência
Socialista fizeram uma greve de fome na PUC/SP quando todo o Comitê Central –
com a exceção de três membros - foi preso em Agosto, junto com Nahuel Moreno.
Impediram a deportação do líder argentino para Buenos Aires, onde uma morte
quase certa o esperava. Na Irlanda, em 1981, líderes presos do IRA fizeram
greves de fome que culminaram com o sacrifício da vida de Bobby Sands, que
exigia o reconhecimento do estatuto de preso político. No Chile, presos Mapuche
fizeram uma greve de fome há poucos meses. Greves de fome comovem a sociedade
porque expõem a disposição ao sacrifício terminal por uma causa. Os inimigos
das lutas populares as denunciam como um gesto radical, ou messiânico ou
milenarista.
É verdade que, na luta contra a exploração, as massas
populares mais de uma vez deixaram-se seduzir por discursos milenaristas – a
escatologia de futurismos que prevêem um esgotamento “natural” da ordem do
mundo – ou messiânicos – a redenção de uma vida de sofrimento por um agente
salvador –, que ressoam suas aspirações de justiça. São ilusões de que o mundo
poderia mudar para melhor sem luta, ou sem maiores riscos. A linguagem mística,
porém, não deveria desviar nossa atenção. A vida material das massas populares
ao longo da história remete à imagem do vale de lágrimas. Quem vive sob a
exploração precisa acreditar que é possível transformar o mundo ou, pelo menos,
que haverá recompensa e punição em outra vida, e tem boas razões para
desejá-lo. A esperança em uma mudança iminente, ou a fé na força de uma
liderança salvadora, respondem a uma intensa necessidade subjetiva – os céticos
asseverariam, um consolo –, mas também a uma experiência. Os que vivem do
trabalho sempre foram a maioria. Os explorados sabem que sempre serão a maioria,
enquanto houver exploração. É dessa experiência que se renova a esperança de
que podem mudar suas vidas.
Todas as classes dominantes foram hostis a doutrinas
utópicas que previam a subversão da ordem, e combateram sem hesitação
movimentos de massas que abraçaram o prognóstico – ou a profecia – de um
iminente desmoronamento do poder constituído. O povo expressa-se no vocabulário
que tem disponível, e crenças revolucionárias, quando conquistam as vozes das
ruas, podem assumir uma dicção religiosa. São os despossuídos, os oprimidos e
os radicais políticos que se comovem com a perspectiva de que é possível mudar
o mundo. Os reacionários de todos os tempos sempre insistiram em desqualificar
as utopias como teorias e projetos desvairados inspirados por fanáticos e
birutas.
Não se deve, contudo, exagerar estabelecendo uma equação
simples entre crenças milenaristas e movimentos igualitaristas. Os movimentos
operários e sindicais modernos foram, na maioria dos países, essencialmente
laicos e uma das mais importantes expressões sociais da secularização das
sociedades urbanizadas e industrializadas. Tanto reformistas quanto
revolucionários lutaram por um programa de reivindicações imediatas que
atendiam às necessidades concretas dos trabalhadores. A diferença entre eles
não era a recusa dos radicais à luta por reformas, mas a recusa dos moderados
em assumir um programa anticapitalista.
A dimensão utópica da idéia socialista – a promessa de uma
sociedade sem classes, ou seja, a aposta na liberdade humana – teve e tem seu
lugar na exaltação ideológica. Os sonhos alimentam a luta por um mundo melhor.
O sonho de uma nova sociedade que garantiria direitos e deveres iguais é
necessário. Igualdade social e liberdade humana permanecem sendo as aspirações
civilizatórias mais elevadas da época que nos tocou viver. O movimento social
proletário foi, porém, fundamentalmente um projeto político e, como todo
movimento político, colocou-se objetivos – como a defesa de direitos em
situações defensivas, e a conquista do poder em situações revolucionárias – que
pudessem ser alcançados por seus militantes enquanto estivessem vivos. Não há,
entretanto, por que ser condescendente: a relação entre miséria extrema,
desespero social, pobreza cultural e anseios apocalípticos foi historicamente
anterior à influência do marxismo nas classes populares, mas nunca deixou de
existir e exerceu influência sobre os marxistas.
São poderosas as pressões de inércia social e cultural que
aprisionam as amplas massas trabalhadoras, urbanas ou rurais, na sonolência, na
apatia ou na submissão, mas em situações revolucionárias precisam medir forças
com pressões ainda mais fortes. Não há força social mais poderosa na história
do que a revolta popular quando se organiza e mobiliza. O medo de que a mudança
não chegue nunca – que, entre os trabalhadores, é desencorajado pelo temor às
represálias – precisa encarar medos ainda maiores: o desespero das classes
proprietárias de perder tudo. No calor de processos revolucionários, a
descrença dos trabalhadores em suas próprias forças, a incredulidade em seus
sonhos igualitaristas, foram superadas pela esperança de liberdade, um
sentimento moral e um anseio político, mais elevado que a mesquinhez
reacionária e a avareza burguesa.
O lugar dos socialistas é, portanto, ao lado de D. Luiz
Cappio. A grandeza do seu sacrifício deve servir para levantar para a luta
todos nós.
Valério Arcary, professor de história no CEFET/SP, é autor
de As Esquinas perigosas da História, situações revolucionárias em perspectiva
marxista.
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