Em sua longa campanha em defesa da língua portuguesa
(a luta começou em 1999), Aldo Rebelo se aproxima da vitória, salientando o
deputado que trabalha em nome do “fortalecimento da aprendizagem em geral”, uma
vez que educação e idioma caminham de mãos dadas.
O approach (perdão, o enfoque) de Aldo Rebelo
resumir-se-ia em defender nosso idioma da deterioração. Nessa luta hão de engajarem-se
os meios de comunicação de massa e as instituições de ensino.
Jornalista que quiser estartar a sua vida profissional
com estrangeirismos terá de pensar duas vezes antes de cometer essa gafe
(“deslize” seria melhor?). Ou imitar a solução que Kennedy Alencar e Gustavo
Patu, na Folha, adotaram certa vez. Em novembro de 2005, Dilma Rousseff
e o então colega Antonio Palocci tinham lá suas divergências, e admitiu a
ministra que, se fosse “da Fazenda, seguramente estaria tendo um outro approach”.
E os jornalistas tiveram o cuidado de explicar a expressão, entre colchetes:
[abordagem do debate econômico no governo].
Além dos profissionais da mídia (posso escrever
“mídia”?), deverão os professores sair em campo para defender o idioma.
Docentes da área de Administração e Economia terão que evitar a todo custo a
palavra “franchise”, por exemplo. Se existe “franquia”, e o infrator
insistir em macular o nosso idioma com uma palavra estrangeira, será punido
pela prática abusiva!
E “motobói”, já está devidamente aportuguesada? Ou
seria melhor “moto-rapaz”? Muitas dúvidas deste jaez eu tenho... Haverá uma
instância jurídico-gramatical capaz de saná-las?
E já que devemos falar e escrever escrupulosamente,
cultivando a ilibada prática do idioma... nada como expurgar vícios antigos. A
palavra “déficit”! Acentuá-la é influência nociva do idioma francês. A
rigor, a palavra se escreve sem acento, “deficit”, porque vem do latim.
Mas talvez seja o momento de nos corrigirmos, e adotarmos “défice”, como em
Portugal.
A exemplo da Lei Cidade Limpa, do prefeito Gilberto
Kassab, Aldo parece ter concebido uma Lei Idioma Limpo. Exigirá policiamento
ostensivo. Campanhas de esclarecimento. Quem sabe a Academia Brasileira de
Letras crie sua tropa de elite... Os imortais Arnaldo Niskier e Paulo Coelho,
dicionários em punho, invadindo os redutos de corrupção lingüística. Multas
deverão ser aplicadas para coibir os transgressores...
Confesso que, embora simpático às nobres intenções do
deputado, alimento muitas dúvidas quanto à oportunidade e à aplicabilidade
dessa lei, que ainda precisa ser aprovada pelo incorruptível Senado.
Gabriel
Perissé é doutor em Educação pela USP e escritor.