O gesto da greve de fome
em 2005 de D. Luiz Cappio contra o projeto de transposição de águas do rio São Francisco
provocou, na ocasião, reações parecidas e outras bem diversas das atuais. Antes, como
agora, foram articuladas ações nas cúpulas do governo federal e da Nunciatura Apostólica
(Vaticano) para isolar, enquadrar e demovê-lo do gesto. Agora prosseguem, em uma
nova conjuntura, reações semelhantes. Convém explicita-las, antes mesmo de falar
diretamente sobre o gesto de D. Luiz.
A grande mídia resolveu
adotar uma espécie de operação silêncio-surdina, que consiste em ignorar o fato
jornalístico, ou noticiá-lo em surdina, geralmente em páginas ou espaços menores,
sem maior destaque. O Palácio do Planalto, protegido pela operação silêncio-surdina,
adota jogadas de apelo às operações inquisitoriais do Vaticano, enquanto pela palavra
escrita do seu ministro Geddel Vieira Lima insulta não apenas o bispo mas a consciência
ética do país. Por sua vez, a cúpula da Igreja Católica, que se expressa pela palavra
oficial da CNBB em comunicados públicos, até o momento não se posicionou - ou o
fez de forma ambígua, alegadamente pelas divisões internas que o fato provoca no
episcopado.
Por outro lado, em vários
espaços leigos das Igrejas, no Conselho Nacional das Igrejas Cristãs, na Comissão
Pastoral da Terra, na Regional CNBB-Norte 2 (Pará e Amapá), na Comissão Brasileira
de Justiça e Paz (da própria CNBB), dentre outras entidades que já se posicionaram
publicamente (até o dia 12 de dezembro), diga-se de passagem sem nenhuma cobertura
de mídia, o gesto de D. Cappio é entendido no seu contexto e significado devidos.
É a atitude ética de quem
se dispõe a doar a própria vida por uma causa em favor da parte mais sofrida e esquecida
da nação brasileira. Isto incomoda, porque transcende em muito uma discussão estritamente
técnica de um projeto de obras públicas.
A discussão em torno do
gesto de D. Luiz situa-se fundamentalmente no plano ético. Neste plano, o projeto
técnico da transposição e as alternativas sugeridas por D. Cappio precisariam ser
julgados sob o critério da destinação universal de um bem público extremamente escasso
no semi-árido – a água, acessível a todos, mas preferencialmente aos mais pobres.
Quando se tangencia este critério, para a erigir a obra técnica em si, sua construção
em estilo faraônico e uma rede de interesses privados poderosos no seu entorno,
seria muito ingênuo supor que esta não fosse mais uma repetição da velha estratégia
de obras públicas “contra as secas”, recalibrada agora com verniz da modernidade
do agronegócio brasileiro.
Consciente da impossibilidade
de diálogo (até o presente), pela absoluta intransigência do poder civil e insensibilidade
de setores ponderáveis do poder religioso, restou a D. Cappio o gesto extremo de
colocar sua própria vida em doação.
Das respostas que a sociedade,
o governo e as Igrejas derem a esse gesto de D. Luiz, dependerá a sua própria vida.
Outros testemunhos no passado, de verdadeiros pastores
do semi-árido, como o foram, cada qual a sua maneira, Antonio Conselheiro, Pe. Ibiapina
e Pe. Cícero Romão Batista - para citar os mais conhecidos -, experimentaram a tragédia
o abandono e a marginalização como respostas dos poderes civil e eclesial de suas
épocas.
Agora estamos no século
XXI e um gesto profético como o de D. Luiz Cappio não deveria produzir morte, abandono
ou marginalização; mas, ao contrário, despertar a sociedade e o seu governo para cuidar
dos pobres do semi-árido nordestino de maneira exemplar, com sentido de justiça,
amor à natureza e pleno respeito a uma outra maneira de fazer política de desenvolvimento. É o momento de colocar nossas posições pois, se benditos são os mártires, maligna
é a sociedade que por ação ou omissão produz mártires.
Guilherme Costa
Delgado é doutor em economia
pela UNICAMP e consultor da Comissão Brasileira de Justiça e Paz.
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