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Já dizem que
Bali será um fracasso, em que pese a boa vontade de tantos, como foi Kyoto. Não
se poderia esperar nada do “capitalismo ecológico”. Essa história do
“poluidor-pagador, usuário-pagador, crédito carbono, selos ecológicos” apenas
transformou em negócios a tragédia ecológica do planeta. Ou se vai à raiz do
modelo, ou o modelo nos elimina.
Vamos de Bali
a Sobradinho, onde D. Luiz faz jejum e oração contra a transposição do São
Francisco e a favor de alternativas que alcançam 44 milhões de nordestinos com
água potável. É a mesma luta de quem não se conforma com a lógica predadora do
modelo civilizatório, aqui revestido da velha indústria da seca, do atual
hidronegócio, dos governos a serviço dos predadores.
A nova
realidade do mundo exigiria cuidados minuciosos com a água e os solos. Dos 260
milhões de hectares irrigados no mundo, 80 milhões estão salinizados,
particularmente nas regiões áridas e semi-áridas. Dos 11 projetos de irrigação
analisados pelo Banco Mundial no Nordeste Brasileiro, sete são deficitários e
muitos inviabilizados pela salinização. Hoje, a agricultura irrigada é
responsável pelo consumo de 70% da água doce utilizada no mundo. Portanto,
manejar a água nos dias de hoje é absolutamente diferente de 50 anos atrás
quando Lula era menino, ou 150 anos atrás quando D. Pedro era imperador. Entretanto, chamar as corporações técnicas,
as empresas e os governos à luz da razão, pelo que parece, nem com greve de
fome até à morte.
Nossa tendência
é afirmar de forma conclusiva que o capital é predador e suicida. Pedro
Casaldáliga, na sua imensa sabedoria, acha que a humanidade não é suicida, que
“ela vai encontrar caminhos de sobrevivência”.
Hoje sequer
falamos de pessoas. Já falamos na sobrevivência da espécie humana. Se a
tragédia planetária for contada aos bilhões, não haverá problema, desde que a
espécie sobreviva. A elite mundial acha que será a sobrevivente, com seus
exércitos, sua tecnologia, sua ciência, seu poder. Os pobres serão expurgados.
É bem provável que seja assim.
Entretanto,
esses dias aqui com Frei Luiz, diante da serenidade dele, da manutenção da
magnanimidade, da nobreza de seus gestos, sem vestígios de rancor, sem
apequenar a alma, aprendemos que a história guarda segredos e que ninguém a
controla. Os poderosos também se acabam. Quem não acredita em Deus terá seu
acerto com Gaia. Gaia transforma todos em pó e os re-assimila em seu ventre
fecundo. É ela quem nos comanda, não nós que a comandamos. A vitória final
pertence à Gaia.
Roberto Malvezzi, o Gogó é coordenador da CPT.
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