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O Datafolha publicou, na edição de domingo último da Folha
de S. Paulo, a sua primeira rodada de pesquisa sobre a disputa eleitoral do
próximo ano nas principais capitais do nosso país. No caso do Rio de Janeiro, a
principal conclusão, aventada pelos analistas do instituto, é a inexistência de
favoritos consolidados.
O universo da amostra é reduzido, foram ouvidos 639
eleitores cariocas, o que resulta em alta margem de erro: quatro pontos
percentuais para cima e para baixo. Embora não altere a posição relativa dos
prováveis contendores, outro dado amplia ainda mais a limitação da enquete:
muitos dos listados não serão candidatos. Cidadela rebelde, o Rio carrega a
tradição, por conta da crise crônica de sua política, de sempre montar por
último o cenário definitivo nas disputas eleitorais.
Nos três cenários montados pela pesquisa, empatados
tecnicamente, aparecem na ponta sempre os mesmos nomes. Pela ordem: Wagner
Montes, do PDT, (varia entre 15 e 18 pontos); Crivella, do PRB (entre 14 e 17
pontos); e Denise Frossard, do PPS (entre 14 e 15 pontos). Primeira
constatação: os partidos ditos “grandes”, que controlam nos três níveis as
máquinas governamentais, ainda estão mal situados na largada.
A novidade, no pelotão de frente, é o deputado Wagner
Montes. Dono de programa televisivo de larga audiência por tratar, na base do
“esculacha”, os problemas da segurança pública, dificilmente será candidato.
Não tem a preferência do seu partido e ele próprio não revela maior interesse
na disputa. Denise Frossard, que foi ao segundo turno na última eleição para o
governo estadual, a julgar pela a movimentação, e pelo que dizem os que lhe são
próximos, não será candidata. Entre os três, o único nome certo na disputa é o
bispo Crivella. Está lançado, controla o partido e o rebanho religioso que lhe
projetou na política, mas ostenta uma sólida rejeição que, nesta e em todas as
outras pesquisas, alcança o triplo das intenções declaradas de voto.
No segundo pelotão, empatados entre si e, por conta da
margem de erro, há casos de empate técnico até com os do primeiro bloco,
aparecem os mesmos candidatos nas três simulações. São eles: Jandira Feghali,
PCdoB (entre 9 e 12 pontos); Eduardo Paes, agora PMDB (entre 9 e 10 pontos);
Chico Alencar, PSOL (7 e 8 pontos). Aqui
também o quadro é movediço.
Além da visibilidade alcançada por disputas majoritárias nas
duas últimas eleições, dois deles enfrentam dificuldades comuns: dependem de
variáveis que não controlam para se afirmarem como candidatos. Eduardo Paes, oriundo do esquema César Maia,
deixou a secretaria geral do PSDB e corre o risco de se esborrachar (salto
triplo sem rede) no imbróglio do PMDB fluminense. Jandira Feghali, além do
desgaste sofrido pelo apoio de seu partido ao Renan Calheiros, está abrigada na
prefeitura petista de Niterói e, da mesma forma que o neopemedebista, tem sua
candidatura enredada nas malhas indecifráveis do pacto Lula-Cabral. Os dois
dependem de padrinhos que podem decidir em contrário.
Solange Amaral, que aparece na posição intermediária (entre
5 e 6 pontos), é a candidata oficial da prefeitura e do César Maia, um lastro
pesado demais. Apesar da máquina e da exposição volumosa em programas luxuosos
e frios, não sai do lugar. Abaixo dela, o verde Sirkis, depois de prolongada
temporada no esquema Maia, ainda não se firmou na tentativa de vôo solo. As
últimas colocações, na faixa de 1
a 2 pontos, estão ocupadas pelo economista Carlos Lessa,
do PSB; a vereadora Andréa Gouveia, do PSDB; e Wladimir Palmeira, do PT.
Neste caldeirão de nomes, alguns deles de trajetória
respeitável, a grande novidade da pesquisa é a presença do deputado federal
Chico Alencar entre os pólos efetivos da disputa. Seu nome aparece, embora com
percentual reduzido, até na menção espontânea. Bom de voto, mandato combativo,
ele pode surpreender como a grande novidade do processo eleitoral do próximo
ano. Dois outros fatores atuam a seu favor. A militância aguerrida do PSOL, que
em curto tempo construiu uma imagem pública positiva do partido, e o fator
Heloísa Helena: quase um quarto dos cariocas votou nela para presidente e, na
última pesquisa de opinião, está na dianteira em várias regiões da cidade.
Faltam mais de dez meses para a eleição e a grande maioria
da população está distante do debate político. Muita água ainda vai rolar. Em
tal situação, como dizem, pesquisa eleitoral não passa de um retrato do
momento. E os números do Datafolha revelam, apenas, que o pequenino PSOL e
Chico Alencar estão muito bem na foto.
Léo Lince é sociólogo.
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