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Depois da
pancadaria na ANEEL, terreno por excelência do público privatizado, o leilão se
deu em 7 minutos. Tendo Furnas como anteparo, possuidora das informações e do
"capital social", e a Odebrecht e Andrade Gutierrez como
alavancas, em permanente simbiose com o Estado, o capital internacional é que no médio prazo se apossa do projeto, envolvendo
grandes fornecedoras Alston e Siemens e o Banif e o Santander como antenas dos mercados financeiros internacionais.
O valor da energia que será comercializada no mercado cativo: R$ 78,87. Um valor
cabeça e rabo, capicua, palíndro em forma numérica. A jogada decisiva no
dominó. O segredo do enigma de um deságio tão grande, para além da composição
“interna” de preços entre o consórcio/oligopólio formado, está na livre
negociação dos 30% da energia de Santo Antonio destinados aos consumidores
livres como a Vale, entre outros grupos econômicos.
Outra explicação seria o
sinal verde dado ao Consórcio vencedor para antecipar a operação da usina antes
de dezembro de 2012, isso se o Governo e demais autoridades
continuarem a “facilitar os investimentos”. As 33 condicionantes
requeridas para se obter a licença de instalação, que antecede a licença de
operação, pelo visto, e pelo que foi ofertado, também foram leiloadas.
Fica demonstrado
com esse leilão, como faz questão de dizer Flávio Neiva da Associação
Brasileira das Empresas Geradoras de Energia Elétrica, que a parceria entre os
setores público e privado é plenamente viável. Claro, desde que o erário, as
populações locais e o meio ambiente paguem a conta. Desde que o Estado entre
com facilidades regulatórias, logísticas e financeiras e que depois os
conglomerados privados não se esqueçam disso antes das eleições. Esse leilão de fato mostra como se
viabiliza uma PPP (parceria público-privada): adestre as estatais do setor
elétrico, encaixote o IBAMA e o MMA, terceirize o BNDES e os investimentos e os
agradecimentos não faltarão.
O mesmo Flávio
Neiva disse ainda que o certame é uma prova da viabilidade dos empreendimentos
hidrelétricos e da exploração do potencial amazônico. "Hoje temos
tecnologias capazes de construir projetos adequados à região". Mas como
sabem que são projetos adequados sem estudos igualmente adequados, sem que haja
outro empreendimento similar no planeta? Nunca se testou antes usinas com
dezenas de turbinas bulbo em um rio em formação, com baixas quedas, caudaloso, com enorme vazão hídrica e de
sedimentos. O Madeira é um cobaia que o governo federal está oferecendo em
sacrifício aos mercados, em nome da "aceleração do crescimento".
O
licenciamento do Complexo Madeira é a permissão para um experimento frankensteiniano
para que se produzam criaturas similares em série na Amazônia. São os votos
de Maurício Tolmasquim com esse leilão: "que ele abra as portas para que
outras usinas sejam aprovadas de forma rápida". Arrombada a porta da Amazônia, que passe
rápido a boiada, o agronegócio, o setor eletrointensivo, as estradas e as
hidroelétricas. Fronteiras agrícola e mineral puxadas pela fronteira elétrica.
Terra, subsolo, água, energia e aparatos (des)regulatórios para multiplicar
plataformas de exportação.
A nação não passa
de um pretexto descartável. Mario Menel, presidente da Abiape (Associação
Brasileira dos Investidores em Autoprodução de Energia Elétrica), ao ser
inquirido sobre como a Usina de Santo Antonio ajudaria a indústria “nacional”,
respondeu: “nós lidamos basicamente com produtos de exportação tais como
minério de ferro, como aço, com commodities internacionais. E para isso a
energia elétrica tem que ser competitiva, tem que ser barata, porque se não for
assim nós perdemos o nosso grau de competição no mercado internacional, tendo
em vista que nós exportamos a maioria dos nossos produtos”.
Menel fala em nome
dos 9 associados da ABIAPE, que representam juntos 30% do PIB industrial do país: Votorantim Energia, Companhia Vale
do Rio Doce, Alcoa Alumínio, Valesul Alumínio, Belgo – Arcelor Brasil,
Companhia Siderúrgica Nacional, Camargo Corrêa Energia, Samarco Mineração,
Gerdau Açominas. Para eles , hidroelétricas como a de Santo Antônio significam
subsídio para aumentar a escala de suas exportações. Energia para produzir e
escoar matérias-primas e semi-manufaturados que tornam mais “eficientes” as cadeias
de suprimentos das transnacionais.
Menel nos faz o favor de ser explícito: “uma usina desse porte, que é hídrica,
ela representa uma oportunidade para que esses grupos, nesse momento, fixem os
seus custos de produção, porque como investidores nós não estaremos sujeitos às
variações de tarifas ao longo do tempo. Se for obtida uma concessão e nós
conseguirmos nos incorporar num consórcio vencedor nós teremos a nossa energia
fixada ao longo do tempo. Trataria então de um custo significativo e sob o nosso
inteiro controle. Essa é a importância dessa usina para nós”.
Com as usinas, querem
fazer do Madeira uma plataforma de extração e exportação de energia, um território remodelado e suspenso no ar.
“Energia barata” composta com danos incalculáveis e irreversíveis para os povos
da Amazônia e para o ambiente global. “Energia limpa” para a produção suja e
perdulária das transnacionais. Conversão brutal e em grande escala de vida em mercadoria. Populações
tradicionais, população trabalhadora das periferias, pequenos camponeses, sem
terra, lutadores da cidade, das barrancas, das matas e do campo, em Rondônia e em toda Amazônia, precisam de uma frente comum de luta,
articulada nacional e continentalmente. As mobilizações protagonizadas pela Via Campesina e organizações
locais em Brasília, Porto Velho e
Sobradinho nesse dia 10 de dezembro demarcam esse território comum de
resistência.
Luis Fernando
Novoa é professor da
Universidade Federal de Rondônia, membro da Rede
Brasil e da REBRIP
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