O
Senado Federal, ao salvar pela segunda vez o mandato de Renan Calheiros, fez
vista grossa para o que pensa a opinião pública e debochou da cidadania. Operou,
no caso, como comitê de oligarcas que, no escurinho do voto secreto, preserva
os interesses da casta. Na teoria,
câmara alta. Na prática, baixio das bestas. Indecoroso agora é o Senado
inteiro.
Mas
não é só o Senado. O acordão que produziu
a vitória, desastrosa para a democracia, foi urdido nos laboratórios do
Planalto. Com a ajuda, é claro, daqueles
que se fazem passar por oposição, mas compartilham com os governistas o mesmo
valerioduto e a mesma política econômica. Os donos do poder pactuam entre si e quem
sustenta o pau da barraca é o presidente Lula.
Ele é o principal responsável e a bóia de salvação de Renan Calheiros.
Mas
não é só o Renan. Apesar da extensa folha de serviços (tropa de choque do
Collor, ministro da Justiça do Fernando Henrique, pilastra de sustentação da
governabilidade lulista), ele foi rebaixado para a segunda divisão. Por
enquanto (ainda restam duas representações do pequenino PSOL), o mandato está
salvo. No entanto, o mais grave na votação do Senado foi a salvação de um tipo
de política, da qual a simbiose Lula-Renan era apenas uma das feições. As empreiteiras que sustentam gestantes e
tesoureiros de campanha continuam intocadas. Permanecem intocadas as máquinas
eleitorais que sustentam a primazia dos negócios na política.
Tanto
é assim que, na seqüência da votação tenebrosa, o grupo da moral homogênea que
dirige o PMDB saiu em campo. Sarney pai
e Sarney filha, o próprio Renan, Jucá, Gedel, Barbalho e companhia bela,
articulados ao presidente Lula e seus petistas amestrados, buscarão o consenso
com o baronato tucano para a escolha rápida no novo presidente do Senado. Vale
tudo, menos atravancar o curso dos negócios. É duro, mas inevitável, constatar:
o intestino grosso da pequena política estende o seu manto sulfuroso sobre as
nossas combalidas instituições republicanas.
Enquanto
isso, nas margens do agonizante Rio São Francisco, uma voz se levanta contra os
negócios que dominam a pequena política e faz saber a todos que, de livre e
espontânea vontade, assume o propósito de entregar a sua vida pela vida do rio
São Francisco e do seu povo. Longe do
planalto e de seus palácios, próximo da tróia de taipa de Canudos e da voz
profética de Gregório de Matos, um homem justo se entrega ao sacrifício contra
a máquina mercante.
Dom
Luiz Cáppio, bispo da igreja católica, fala branda e feições tranqüilas, é
daqueles religiosos que optam por moer no áspero ao lado do povo pobre. Andou
com Lula nas caravanas da cidadania, fez a campanha da esperança contra o medo,
apostou na mudança e, agora, teimando na coerência, se faz protagonista de um
gesto extremo que, como um calafrio, percorre a consciência digna da cidadania.
Pela segunda vez em greve de fome, ele diz que seu gesto “é o último recurso
para fazer o governo federal desistir desta obra insana” e que, “quando a razão
se extingue, a loucura é o caminho”.
Dom
Tomás Balduíno, outra figura luminosa da igreja, vai direto ao ponto: “essa
obra é faraônica, inadequada e destinada a reforçar o caixa dois das campanhas
políticas”. E disse mais: “o presidente
Lula será responsabilizado se dom Luiz morrer. Só ele. Isto porque ele foi
avisado em tempo. Há um divisor de águas, com os pobres de um lado e as
empreiteiras de outro”. Hidronegócios,
agronegócios, parlamento de negócios, partidos de negócios, governo de
negócios. Triturados por tanto negócio e
tanto negociante, só nos resta clamar: fora Renan, viva Dom Cáppio!
Léo
Lince é sociólogo.
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