“Em outros declives
semelhantes, vimos, com prazer, progressivos indícios de desbravamento, isto é,
matas em fogo ou já destruídas, de cujas cinzas começavam a brotar o milho, a
mandioca e o feijão”.
“Pode-se prever que em
breve haverá falta até de madeira necessária para construções se, por meio de
uma sensata economia florestal, não se der fim à livre utilização, ou, melhor
dizendo, devastação das matas desta zona”.
“As ervas desse campo,
para serem removidas e para fertilizar o solo com carbono e extirpar a multidão
de insetos nocivos, são queimadas anualmente pouco antes de começar a estação
chuvosa (...) assistimos com espanto à surpreendente visão da torrente de fogo
ondulando poderosamente sobre a planície sem fim”.
“(...) a atividade dos
homens que esburacam o solo (...) para a extração de metais. Covas informes e
montões de cascalho desfiguram as serras situadas a oeste e norte da cidade,
nas quais corre ouro no xisto argiloso”.
“Infelizmente (...),
ávidos de sua carne [tatu galinha], não ponderam sobre essas sábias
disposições. Perseguem-no com tanta violência, como se a espécie tivesse de ser
extinta.”
“No solo adubado com
cinzas das matas queimadas dá boas colheitas (...) Contudo, isso se refere
somente à colheita do primeiro ano; no segundo já é menor e, no terceiro, o
solo em geral está parcialmente esgotado e em parte tão estragado por um capim
compacto (...) que a plantação é desfeita ...”
“Maiores lucros deram,
outrora, as minas de ouro (...). Agora estão esburacados os bancos de areia dos
rios de todos os lugares e a superfície da terra”
“Em parte, haviam sido
queimadas grandes extensões das pradarias. Assisti hoje a este fenômeno
diversas vezes e, por um quarto de hora, atravessamos campos incendiados,
crepitando em altas chamas”.
“Subimos então a Serra
Garo, que oferecia um aspecto totalmente singular de abandono e devastação
pelas inúmeras escavações feitas para as lavras de ouro”.
***
Lendo as citações
acima, o leitor pode estar se perguntando de onde elas foram extraídas, até
pela linguagem pouco usual, e a que lugares referem-se. Poderá imaginar que são
trechos de publicações técnicas sobre o meio ambiente, talvez algum relato de
um membro de uma ONG ambientalista ou de um viajante de Portugal ou outra coisa
qualquer do gênero. Pois bem, não é nada disso. Na verdade, as citações foram
extraídas do livro “Viagem no Interior do Brasil” (1976, Editora
Itatiaia/EDUSP, tradução de Milton Amado e Eugênio Amado) do naturalista
austríaco Johann Emanuel Pohl (aliás, livro que particularmente recomendo, pela
riqueza de informações sobre o Brasil da época). O detalhe que torna as
citações mais interessantes para aquelas pessoas preocupadas com o meio
ambiente é a época em que foi feita a viagem: entre 1818 e 1819. Isto mesmo, há
quase 190 anos! Repito: cento e noventa anos atrás. Triste constatar que, de lá
pra cá, não só pouca coisa mudou como retrocedemos em outras.
O naturalista viajou
pelos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás e Tocantins e descreveu os
caminhos por onde passou, detalhes geológicos, aspectos da fauna e da flora,
costumes e tradições das cidades, do campo e de agrupamentos indígenas,
aspectos históricos, etc. Embora não seja seu foco principal, pode-se extrair
várias conclusões a respeito da forma como o meio ambiente era tratado. O
imediatismo, a destruição pela cobiça, a nefanda prática das queimadas, a falta
de planejamento e o hábito de esgotar os recursos para posteriormente mudar o
local da destruição são facilmente percebidos ao longo do texto. Na verdade,
dada a época em que o relato foi feito, isto não constitui grande surpresa. O
mais impressionante, no entanto, é a analogia com os dias atuais. No tocante à
mineração, basta lembrar Serra Pelada, os acidentes com derramamento de
substâncias tóxicas no rio Pomba, as invasões de Terras Indígenas e áreas
protegidas. Sobre a exploração madeireira, temos a mesma gana exploratória,
agora disfarçada sob os auspícios das Concessões Florestais de florestas
públicas, planos de manejo e do recém criado Serviço Florestal Brasileiro. No
quesito queimadas, continuamos com taxas recordes e números que beiram ao
ridículo. Quanto à extinção de espécies e desmatamento, bem, estas é melhor nem
comentar. Quase dois séculos se passaram, o discurso ambientalista ganhou
força, as ONGs são entidades de peso político extraordinário, mas tudo indica
que, na prática, nada mudou.
Rogério Grassetto Teixeira da Cunha, biólogo, é
doutor em
Comportamento Animal pela Universidade de Saint Andrews.
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