No
Brasil, parcelas da esquerda partem do pressuposto que as contradições de nossa
sociedade são próprias da ordem capitalista. Não seriam derivadas de qualquer
atraso ou gargalo de desenvolvimento nacional, produzido pela permanência de
setores ou interesses pré-capitalistas. Daí concluem que isso tornaria evidente
que estamos em uma etapa socialista da revolução.
Os
defensores desse pressuposto dizem que a população brasileira não vive em
função da soja, da celulose e da mineração, mas sim de seus pequenos negócios e
da sua agricultura familiar, opostos ao capitalismo. E, supõe-se, precursores
do socialismo.
Eles
também sustentam que a energia do rio Madeira não interessa para a maior parte
da população, que depende do mercado interno, dos serviços públicos, da
capacitação tecnológica e do micro-crédito. Em outras palavras, mercado
interno, serviços públicos, capacitação tecnológica e micro-crédito estariam em
oposição aos setores agro-exportadores e às grandes empresas do capitalismo, e
seriam partícipes da etapa socialista.
É
interessante que não notem que esse tipo de discussão está colocado nos limites
estritos da ordem capitalista. A luta, justa e necessária no atual contexto
brasileiro, entre os pequenos negócios, a agricultura familiar e outros setores
de pequenos proprietários, contra os grandes negócios, é eminentemente uma luta
de pequenos capitalistas contra grandes capitalistas. É aquilo que no jargão
político se chama luta democrático-burguesa.
Ao
monopolizar o capital, as tecnologias, as rendas e as terras, triturando os pequenos
(e também os médios) capitalistas, o grande capital introduziu brutais
distorções no desenvolvimento das forças produtivas e nas relações de produção,
repondo na ordem do dia problemas que pareciam superados por seu
desenvolvimento. Portanto, recolocou na ordem do dia uma reivindicação
histórica da sociedade brasileira, a da democratização da propriedade, urbana e
rural, o que é importante para a luta socialista, mas não é socialismo.
Pretender
que a sobrevivência e o desenvolvimento desse pequeno capitalismo, contra o
grande capitalismo, represente a entrada na "etapa socialista"
pressupõe não só dizer que o pequeno capitalismo sobreviverá no socialismo, mas
principalmente que ele é o próprio socialismo. Não deixa de ser uma forma de
evitar os temores dos pequenos capitalistas, escondendo que a ultrapassagem, ou
a ruptura, com o capitalismo inclui a socialização de, pelo menos, uma parte
substancial da propriedade privada dos meios de produção.
Seria
melhor dizer francamente, para os pequenos capitalistas, que nas condições de
oligopolização da sociedade brasileira, somente o socialismo tem condições de
realizar a democratização da propriedade e garantir a sobrevivência, por um
tempo razoável, dos pequenos capitalistas ao lado das formas socialistas de
propriedade. Isso pode dar um nó na cabeça de muita gente, mas é muito mais
educativo do que espalhar ilusões.
Wladimir Pomar é escritor e analista político.
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