Em
Limeira, estado de São Paulo, um juiz (juiz?) recusou-se a receber pessoas que o
procuravam para fazer cessar um despejo, pois as famílias ocupantes só não saíam
da área porque não tinham para onde ir. Tratava-se de dar um tempo para que se
encontrasse um terreno que as abrigasse provisoriamente, enquanto a Justiça não
resolvesse a pendência entre a prefeitura e o governo federal, em torno da
propriedade, que o Incra pretende usá-la para assentar as famílias que a
ocupavam.
A
disputa entre os dois órgãos públicos gira em torno do valor jurídico de um
documento firmado pelo governo federal. Não há necessidade de provas, perícias,
testemunhas - nada. É só ler o documento e dizer: "a prefeitura tem razão"
ou então "o governo federal" tem razão.
Entretanto,
essa mesma Justiça que não foi capaz, em sete meses, de solucionar um processo
simplíssimo, decretou fulminantemente o despejo imediato de 250 famílias -
decisão esta executada com bombas de efeito moral, balas de borracha, gás pimenta,
sem a menor consideração pelas crianças apavoradas nos barracos de plástico.
Em
Abaetetuba, no Pará, uma juíza de direito (juíza?) ordenou a prisão de uma
jovem em uma cela com dezenas de presos. Essa repugnante aberração, cometida
por agentes do poder público fez vir à tona casos semelhantes em quatro estados
da federação. Certamente, uma CPI bem feita descobrirá que existem muitos
outros.
Esses
casos, que dominaram o noticiário da semana, não discrepam muito da seqüência
de violências que estão sendo cometidas diariamente contra o povo por agentes
do poder público e por agentes do poder econômico, sob a proteção dos
primeiros.
Basta
lembrar que, há duas semanas, cinco sem terras foram mortos, por pistoleiros, credenciados
como seguranças, na Fazenda da multinacional Sygenta, no Paraná; e que, há um
mês e pouco atrás, assistimos na TV a eletrizante caçada de dois suspeitos de
tráfico de drogas em uma favela do Rio de Janeiro, por atiradores de escol
entrincheirados em um helicóptero da Polícia. Ao vivo e em cores.
Duas
explicações para esta escalada de barbárie.
Primeira:
"os ricos perderam o medo dos pobres", como concluiu Eric Hobsbawn ao
analisar as mudanças ocorridas no mundo entre 1989 e 1991.
Segunda:
"a banalização do mal", conceito que Hannah Arendt cunhou para
descrever situações de embotamento do senso moral, como aconteceu na Alemanha
nazista. Nesse contexto, aberrações se sucedem com tal freqüência que entram na
rotina da vida e levam pessoas normais a aceitar as atrocidades como inelutáveis.
Nessa realidade vergonhosa, tem culpa quem se deixa
levar pela inércia e acomodação a ponto de perder a capacidade de indignar-se.
Comentários (2)
Escrever comentário
Por favor, o assunto do seu comentário precisa ser relevante ao assunto do artigo.
Ataques pessoais serão deletados.
Por favor, não use os comentário para fazer propaganda de seu site ou será deletado.