|
Ainda em 2006, depondo diante do Congresso americano, o
embaixador americano Zalmay Khalizad foi taxativo: “Não temos nenhum objetivo
de estabelecer bases permanentes no Iraque”.
Como a mentira tem pernas curtas, logo em junho deste ano, o
governo Bush anunciou, através do seu porta-voz, Tony Snow, que o exército
americano poderia permanecer em suas bases mais algumas décadas, talvez uns 50
anos.
Com isso, desdenhou a opinião pública americana que, nas
últimas pesquisas, contestara a Ocupação por 66 a 22%. Fez-se surdo ao
clamor das massas dos demais países, enrouquecidas de tanto vaiar o presidente
americano por sua ação no Iraque, apoiada somente por Israel - por razões
óbvias- e pela Albânia – talvez um caso de síndrome de Estocolmo, adquirida
durante o brutal regime de Enver Hodja.
Na ocasião, o povo e o governo iraquiano, os principais
interessados, não foram consultados, sequer informados, previamente. Bizarro,
pois o Iraque, segundo a própria Casa Branca, é um país independente, a quem
cabe tomar suas próprias decisões.
No Iraque, os protestos foram gerais, mesmo os dos políticos
aliados.
Recém-chegado de Washington, onde fora fazer lobby no
Congresso contra a retirada imediata das tropas, Mowaffak al Rubaie,
conselheiro especial do primeiro-ministro Maliki, assegurou que os planos americanos
de "permanência até o Dia do Julgamento Final” eram inaceitáveis. “Seria
um casamento forçado para o qual esqueceram de avisar a noiva”, acrescentou.
Para Saleh al Mutlaq, o líder da Frente do Diálogo Nacional
Iraquiano: “isto faria os poucos iraquianos que ainda acreditam em uma solução política
perderem as esperanças”.
Mas Bush não deu a mínima. Em fins de novembro, ele e o
primeiro-ministro Maliki anunciaram um acordo estratégico que punha uma pá de
cal na controvérsia sobre a retirada das forças de ocupação. Dispunha que, em
fins de 2008, o exército americano passaria suas funções para os iraquianos. Cerca
de cinqüenta mil soldados permaneceriam ad aeternum em 4 mega-bases, para proteger o governo e a democracia do
Iraque contra agressões internas ou externas. Em troca, o governo iraquiano se
comprometia a favorecer os investidores americanos - leia-se, as companhias de
petróleo.
Ficariam assim alcançados os objetivos reais da invasão: uma
posição dominante num dos mais importantes países do Oriente Médio e a posse das
segundas reservas mundiais de petróleo.
O preço pago pelo povo americano foi alto: cerca de 3.900
soldados mortos, 25 mil feridos e cerca de 1,3 trilhão de dólares (gastos
projetados pela Comissão Mista de Economia do Congresso). Para Bush, barato,
diante dos lucros gigantescos vislumbrados.
O Iraque tem reservas comprovadas de 115 bilhões de barris
de petróleo. O Conselho de Relações Exteriores calcula que podem chegar a 300
bilhões de barris, o que, a preços de hoje, representaria 30 trilhões de
dólares. Com a Nova Lei do Petróleo, redigida pelos americanos, a estatal do
Iraque ficaria com 17 dos 80 campos de petróleo em operação, passando os demais
para as multinacionais (especialmente americanas, que o “acordo estratégico”
favorece), além de todos os outros a serem descobertos. Serão muitíssimos, pois
apenas 2 mil poços já foram abertos, o que é muito pouco (só o Texas tem 1
milhão). A nova lei prevê imensos rendimentos para as petrolíferas estrangeiras
e prazos de 30 anos de contrato. Será o negócio do século, em beneficio de um
setor ao qual, aliás, a família Bush está ligada.
Com os 50 mil soldados nas bases, Washington teria força
para garantir os contratos petrolíferos e também enquadrar o governo iraquiano,
sempre que contrariasse a política externa americana. E assim o Iraque poderá se
tornar um protetorado dos Estados Unidos.
Políticos, tanto sunitas quanto xiitas, protestaram contra o
diktat bushniano: “uma interferência americana pelos anos a fio”. O grupo do
aiatolá Moqtada AL Sadr, líder dos radicais xiitas, também chiou. E a influente
“Associação dos Eruditos Islâmicos” taxou os signatários iraquianos como
“colaboracionistas com os ocupantes”.
Refletiram a opinião do povo. Pesquisa recente da ABC/BBC mostrou que
78% dos iraquianos acham que as o país
vai mal, 47% apóiam a retirada imediata das tropas , 79% se opõem à presença da
coalizão e 57% apóiam a violência contra elas.
Uma outra pesquisa, esta do comando médico do exército
americano, explica essa rejeição. Apenas 38% dos fuzileiros navais e 47% dos
soldados do exército acham que os civis devem ser tratados com dignidade.
Em julho de 2008, o acordo estratégico seria convertido em
tratado, incluindo detalhes como número de soldados e os privilégios às empresas
americanas. Previamente, teria de ser aprovado pelo congresso iraquiano, que
costuma ouvir a opinião pública.
Mas o que os iraquianos pensam não conta para Bush: o
importante é que, além dos republicanos, terá o apoio de democratas de peso.
Hillary Clinton, a principal postulante à presidência, já se declarou favorável
à permanência de uma força para garantir a democracia e os interesses
americanos. O próprio povo dos Estados Unidos aceitaria o plano da Casa Branca,
pois, com a posse do petróleo iraquiano, não faltaria gasolina nos postos de
serviço, e, com a hegemonia sobre o Iraque garantida à força, o Irã (demonizado
pela imprensa) teria suas garras aparadas.
Não se pode negar que foi um lance brilhante, capaz de fazer
Bush emergir vitorioso do pântano da guerra do Iraque.
Sucede que ainda temos um prazo de 7 meses até a discussão
do tratado pelos congressistas. Ainda que difícil, há chances de eles virarem o
jogo. Lembro que vêm resistindo à aprovação da nova lei do petróleo que Bush
impõe. Podem surpreender mais uma vez votando contra.
Sem tratado, Bush ficaria a pé, legítimo lame duck, sem
influência na eleições presidenciais. Esperando ansiosamente pela hora de se
retirar para as doçuras do seu rancho no Texas.
Luiz Eça é jornalista.
|
- Por favor, o assunto do seu comentário precisa ser relevante ao assunto do artigo.
- Ataques pessoais serão deletados.
- Por favor, não use os comentário para fazer propaganda de seu site ou será deletado.
|
Powered by AkoComment Tweaked Special Edition v.1.4.6 AkoComment © Copyright 2004 by Arthur Konze - www.mamboportal.com All right reserved
|