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O
governo de Margaret Thatcher marcou uma profunda transformação na sociedade
inglesa. Seu alvo era acabar com o tradicional “Estado de bem estar social” dos
trabalhistas, considerado pelos conservadores o responsável pela crise do país.
Adotando
um liberalismo e um monetarismo radicais, Thatcher conseguiu equilibrar as
finanças, mas às custas da abolição do salário-mínimo, da redução dos serviços
sociais e de outras providências que sacrificaram
a classe trabalhadora em benefício dos empresários. A última delas, a poll tax, um tipo de imposto em que,
quanto mais pobre o cidadão, mais tinha de pagar, acabou causando sua queda, em
1990, onze anos depois de sua posse.
A
história do “O legado da família Winshaw”, do inglês Jonathan Coe,
desenvolve-se contra o pano de fundo da Inglaterra da era Thatcher, marcada
pelo egoísmo, a competição sem freios, a falta de ética nos negócios e os
privilégios das classes abastadas. É aí que os membros da família Winshaw
encontram ambiente favorável para crescerem e se tornarem um grupo de
“vencedores”, ricos e respeitados pela sociedade, apesar dos seus processos
inescrupulosos. Autênticos “filhos“ bem amados do sistema, cada um deles em seu
setor – bancos, galeria de arte, política, tráfico de armas e agroindústria –,
parecem indestrutíveis, solidamente apoiados pelo governo nas suas por vezes
escusas transações.
Mas
há uma brecha nessa armadura. É a tia Tabhita, tida como louca, que contrata
Michael Owen - um jovem escritor pouco conhecido - para escrever a história dos
Winshaw. Para isso, ela entrevista os membros da família e começa a entrever
seus podres. Passa a pesquisar certos fatos obscuros, especialmente depois que
surge um detetive particular trazendo novas informações.
Enquanto
isso, Michael começa um caso com uma vizinha, Fiona. Quando, doente, ela
procura os outrora impecáveis serviços médicos oficiais, o leitor tem
oportunidade de conhecer um pouco do que foi feito pelo governo para destruir o
que era um dos pilares do Estado do bem estar social inglês.
Na
parte final, o livro vira uma dramática novela policial à qual não falta o
clássico fim surpreendente.
Com “O legado da família Winshaw”, Jonathan Coe criou
um romance de ficção política de alto nível, capaz de colocá-lo entre os
grandes da literatura inglesa. Inteligente, agradável e instigante, é uma obra
que vale a pena ler. Edição da Record, traduzido de forma elogiável por Celina
Cavalcante Falck.
Luiz Eça é jornalista.
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