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Cada vez mais a mídia, ao
absorver o modelo de realização da publicidade, constrói seus produtos de forma
que a irracionalidade seja privilegiada na reação do público. Alguns fatos
recentes são ilustrativos. O discurso do Papa Bento XVI, na Alemanha, onde
comentava que Maomé pregava usando violência, ao ser colocado no domínio da
opinião pública mundial, causou uma onda de protestos por parte das comunidades
muçulmanas. Já a manifestação do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, nas
Nações Unidas, em Nova York,
quando chamou George W. Bush de demônio, também se tornou tema de discussão,
ora fazendo menção ao exibicionismo do chefe de Estado venezuelano, ora
criticando a política equivocada norte-americana, motivada exclusivamente por seus
interesses de expansão hegemônica.
Outro episódio que pode ser
realçado é a polêmica em torno da morte ou não de Bin Laden. Já o discurso
arquitetado pela Rede Globo, no Brasil, ao redor da ausência do então candidato
Luiz Inácio Lula da Silva ao derradeiro debate presidencial do primeiro turno, foi
assumido pelo restante da mídia e, a partir daí, disponibilizado nos demais serviços
informativos, numa tentativa propositada de fazer com que as pessoas se
posicionassem preferencialmente contra seu não comparecimento. Não ocorreu o
mesmo com os candidatos a governador (e o presidente anterior), que também
primaram por não debater.
Recentemente terminou em
Moçambique a segunda edição do programa Fama show, veiculado pela Soico
Televisão (STV). Tal como na primeira montagem, conseguiu índices de audiência
consideráveis, causando desconforto para a concorrência. Também foi visível o
desfile de políticos naquela atração, em busca de granjear a visibilidade que tanto
lhes interessa, na medida em que se aproximam as eleições autárquicas.
Poucos dias depois do Fama show,
a mesma STV viu confiscados alguns dos seus bens pelo não cumprimento de uma
decisão judicial, resultante do não pagamento de salário de uma antiga
funcionária, fato inédito em Moçambique, onde a justiça não só tarda mas,
freqüentemente, não chega. A polêmica entre a emissora e o Tribunal Judicial de
Maputo (TJM) instalou-se. O grupo Soico, através de seus meios, a STV, a Soico FM
(SFM) e o jornal O país, procurou colocar a opinião pública a seu favor. Dessa
vez quem aproveitou para se visibilizar e criticar a pseudo-injustiça cometida
pelo TJM contra a STV foram algumas individualidades da oposição, a associação
das empresas jornalísticas e outras personalidades.
Por mais díspares que esses
acontecimentos pareçam, são ilustrativos da lógica midiática, voltada para
construções da realidade, processo possível pela presença jamais vista das tecnologias
de informação e comunicação (TICs). Nesse sentido, os eventos somente ganham
importância se forem ajustados aos protocolos da mídia. Nessa maratona vale
tudo, as empresas querem audiência e atrair anunciantes, os políticos perseguem
espaço para manifestar-se e até os setores mais radicais muçulmanos pretendem
expressar via comunicação industrial sua revolta contra o império norte-americano
e países europeus.
Essa confluência de interesses
faz com que o funcionamento da mídia tenda a tornar-se esquizofrênico,
desafiando quem tem preocupação de percebê-la. Assuntos com certa racionalidade
despertam baixo interesse e pouco são pautados, na medida em que são incapazes de
excitar. Pedro Bial, da Rede Globo, durante as eleições de 2006, mostrou aos
brasileiros o que seu grupo de comunicação considera os problemas do Brasil. Exibido
no Jornal nacional, não se sabia ao certo se era um espaço de jornalismo ou de
entretenimento, em qualquer dos dois com conotação espetacular. O certo é que
era muito divertido.
Seria possível ainda citar a
relação da mídia com os institutos de pesquisa no último período eleitoral brasileiro
como sendo também um dos aspectos que pesam na confusa complexidade da práxis: praticamente
não se identificaram nos espaços comunicacionais críticas sérias às enormes falhas
daqueles organismos. Enfim, todos os setores da sociedade cometem erros, menos
a mídia, conforme ela própria, por considerar-se a fiel guardiã da democracia.
Assuntos muitas vezes sem relevância,
ao serem pautados pelas indústrias culturais, acabam tornando-se objeto de
discussão pública, numa escala e velocidade não conhecidas em outros contextos.
Os fatos, construídos a partir do modo de operar do campo das mídias, quanto
mais atiçam a dimensão do inconsciente, individual ou coletivo, mais
importantes se tornam e mais são visibilizados. Assim, a mídia pode adotar a
“perspectiva pela incongruência”, como dizia Kenneth Burke, invertendo
deliberadamente o sentido de proporção, ou seja, se alguma coisa parece pequena,
imaginar que é grande e vice-versa.
Claro, tudo pode ser
relativo, menos as verdades veiculadas pelos meios massivos. É justamente assim
que se manifesta a lógica caótica da mídia, que transborda as categorias de
análise, tornada, assim, um constante desafio para seus observadores. Enfim, há
sempre algo no fundo do seu inconsciente.
Valério Cruz Brittos
é professor no programa de pós-graduação em Ciências
da Comunicação da UNISINOS (Brasil) e doutor em Comunicação e Cultura
Contemporâneas pela UFBA.
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João Miguel é professor na UEM
(Moçambique) e doutorando em Ciências da Comunicação pela UNISINOS.
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