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A eleição da Argentina era considerada um verdadeiro
plebiscito sobre o presidente Néstor Kirchner. Os círculos da direita receberam mal a
vitória, com mais de 45% dos votos da candidata oficial. É obvio. O que causa
estranheza são as críticas de parte da esquerda ao governo e às perspectivas de
serem mantidas suas linhas gerais pela nova presidente. Chegaram a falar que a
política econômica de Kirchner foi pautada pela ortodoxia.
Ora, enfrentar o mercado internacional, forçando-o a aceitar
uma reestruturação de 75% da dívida externa de 178 bilhões de dólares na base
de um terço do seu valor está longe de ser um procedimento ortodoxo.
Mas a heterodoxia de Kirchner não parou aí. Ele renegou um
dos principais dogmas do FMI - a liberdade dos mercados -, ao instituir uma
taxa sobre as principais commodities exportadas pelo país, mantendo assim o
dólar apreciado e o peso desvalorizado, para garante maior competitividade
internacional aos produtos argentinos.
Na contramão do neoliberalismo que assola a América do Sul, o
presidente reestatizou empresas públicas privatizadas por Menem que prestavam
maus serviços, como a Águas Argentinas (multinacional de origem francesa), o
Metrô de Buenos Aires, o Correo Argentino e a Thales Espectrum (reguladora do
espaço rádio-elétrico argentino).
Essas medidas eram essenciais ao seu projeto de promoção do
desenvolvimento do país em termos nacionalistas.
Quando Kirchner assumiu, em 2003, a Argentina estava na
bancarrota, tendo seu PIB caído desastrosos 20%. Como resultado das políticas governamentais,
o país sofreu uma completa transformação. Nos 5 anos e meio de Kirchner, a taxa
média de crescimento da Argentina alcançou 8,7% - a mais alta do hemisfério
ocidental, três vezes maior do que a média da América Latina.
E quem ganhou mais com este vertiginoso enriquecimento do
país?
As estatísticas respondem que foram as classes menos
favorecidas. Mais de 11 milhões de pessoas, 28% da população, saíram da linha
da pobreza, com a redução do seu número de 54%, em 2002, para 23%,em 2007.
O desemprego, que, em 2002, deixava sem rumo 21% da
população, caiu para 8,5%, em 2007. Nesse mesmo período, os mais pobres
triplicaram seus rendimentos.
Mas a elevadíssima inflação de 41% que Kirchner encontrou no
início do seu mandato foi um obstáculo à elevação da qualidade de vida do povo.
Kirchner buscou reduzi-la, primeiro congelando preços.
Quando começaram a
desaparecer produtos das prateleiras, ele, embora mantendo congeladas as
tarifas dos serviços públicos de transporte, gás e correio, mudou de tática.
Passou a forçar acordos com segmentos empresariais para evitar aumentos.
Quando necessário, não deixou de intervir na economia. Ele
tornou crime a formação de estoques especulativos e promoveu boicotes contra
empresas e setores que não colaboravam na luta anti-inflacionária, como os
pecuaristas, os frigoríficos e a Shell. Contra esta poderosa multinacional, que
se recusava a manter seus preços, o presidente convocou o povo a não entrar nos
postos de gasolina dela. A seguir, aplicou sucessivamente duas multas de 1,6
milhão e 7,3 milhões de dólares por desabastecimento de gasolina e diesel, terminando
por solicitar a prisão de dois executivos da companhia.
Apesar dos esforços do presidente, a inflação ainda é alta.
Note-se que baixou consideravelmente – de 41,5%, em 2002, para 13%, previstos
em 2007 pelo conceituado economista Dante Sica.
Censura-se também Kirchner por adotar políticas sociais
compensatórias, tipo Bolsa Família. De fato, um programa análogo existe,
garantindo uma renda de 150 pesos ao chefe de família desempregado que se
encontra abaixo da linha da pobreza (dados de 2003). No entanto, tem efeito residual
na redução da pobreza, a qual se deve basicamente aos aumentos do número de
empregos, dos salários e das aposentadorias.
A um levantamento das realizações progressistas do governo
Kirchner não pode faltar a revogação da anistia aos militares e policiais
envolvidos em tortura e assassinatos, que provocou a abertura de processos em
todo o país, alguns já concluídos com a condenação dos réus. E, certamente, o
abandono do alinhamento automático com o governo americano.
Em diversas ocasiões, Kirchner opôs-se frontalmente a
Washington. Foi o que aconteceu na conferência de Mar del Plata, quando
liderou, junto com Chávez, a recusa dos países do Mercosul em aceitar a ALCA
como fora apresentada. Logo na sessão inaugural (com a presença de Bush),
Kirchner afirmou a “inescapável e indesculpável responsabilidade dos Estados
Unidos pelas políticas que levaram a América Latina à pobreza e tragédia
social”.
Com essa folha corrida, ainda assim Kirchner é visto com
restrições por alguns grupos de esquerda, que o vêem mais próximo de Lula do
que de Chávez.
Os fatos provam o contrário.
Na verdade, Kirchner não é totalmente igual ao presidente
venezuelano, pois se veste bem, é culto, tem um porte elegante, não tem
ascendentes índios, fala inglês e talvez até francês. Por outro lado, não
insulta estadistas estrangeiros, nem deseja reeleger-se muitas vezes. E,
supremo defeito, não é um socialista bolivariano... ou mesmo, “san martiniano”.
Mas, no essencial, seu governo foi tão independente, desenvolvimentista e
favorável aos pobres quanto é o de Chávez. E olhe que a Argentina não tem todo
aquele petróleo.
Luiz Eça é jornalista.
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