|
Agora é tarde. As pedras já foram lançadas
contra Júlio Lancellotti. Aqueles que por algum motivo discordam de sua maneira
de ver e atuar estão secretamente felizes. Ou não tão secretamente. Aqueles que
praticam o jornalismo do escancaramento, com ou sem evidências, já cumpriram
sua missão.
Hermano Freitas, por exemplo, utilizando
locuções verbais para exprimir fatos acontecidos, (ou não?), em época passada,
escreveu: “ex-interno da Febem, Batista teria conhecido e iniciado um
relacionamento amoroso com o padre na instituição, onde foi internado aos 16
anos por roubo” (Folha Online, 27/10/2007). A expressão “relacionamento
amoroso” é o que interessa, sobretudo num momento em que casos registrados de
pedofilia dentro da Igreja católica criaram e difundiram a sensação de que o
mais provável é que se repitam sempre e em todo lugar.
O recurso das aspas funciona como pretexto
para reproduzir a fala irresponsável de quem quer que seja sobre o que for. Na
mesma matéria
de Hermano Freitas, lemos, com as aspas indicando (heróica objetividade...) as
palavras de um outro: “‘Eles chegaram a ter relações sexuais dentro da igreja’,
disse o advogado de Batista. [...] O advogado afirma que o valor dos bens
recebidos por seu cliente foi de ‘quase 700 mil reais’ e que o relacionamento
entre o padre e ex-detento acabou após Batista ter se casado, em outubro de
2006. Ainda de acordo com ele, o sacerdote mantinha relações sexuais com outros
meninos”.
Diogo Mainardi, na Revista Veja (ed.
2031), adota outro expediente. O da pseudo-insinuação. Chamar o padre de
“Michael Jackson da Mooca” é colocá-lo no banco dos réus por antecipação, e
reduzir a figura do sacerdote à imagem de um astro pop tupiniquim.
Na Record, o programa “Fala que eu te escuto”
emitiu seu veredicto. O problema de Júlio Lancellotti é o celibato. Se não
houvesse celibato obrigatório para os padres, estes casos deixariam de existir.
Não é bem uma pergunta, ou uma enquete... É condenação mesmo.
No dia 3 de novembro, divulgou-se na mídia o
“desabafo público” de Pe. Lancellotti, depois das pedradas: “aquelas coisas
todas, que foram ditas e colocadas nas manchetes dos jornais e dos noticiários,
não aconteceram”.
A mídia não sente culpa. Ninguém admitirá que
atirou a primeira, a segunda, todas as pedras. E sempre alimenta perversa
esperança. De, antes do Natal, aplicar o golpe de misericórdia...
Gabriel Perissé
é doutor em Educação pela USP e escritor. Web Site: www.perisse.com.br
Para comentar este artigo,
clique aqui.
|