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Hugo Chávez e a "liberdade de imprensa"
A não renovação da concessão pública da RCTV na Venezuela pelo presidente Hugo Chávez teve e continua tendo enorme repercussão mundial, atingindo todos os continentes, desde países desenvolvidos até os não desenvolvidos.
Por que uma atitude de um presidente latino-americano foi capaz de despertar tamanho interesse, mobilizando reações de apoio e de censura, mas especialmente estas últimas se tomamos como termômetro o noticiário produzido pela enorme maioria da grande mídia em escala global?
O economista Nildo Ouriques, professor do departamento de Economia e presidente do Instituto de Estudos Latino-Americano da Universidade Federal de Santa Catarina (IELA-UFSC) - www.ola.cse.ufsc.br –, faz uma extensa e sofisticada análise, reportando-se a analogias históricas e a importantes teóricos da economia política e das comunicações, que pode ajudar a entender essa “reação de manada”.
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Tal como advertiu Orwell, os jornalistas e intelectuais temem a opinião pública que dizem respeitar porque no fundo sabem que as propostas oriundas do nacionalismo revolucionário praticado em Caracas são razoáveis e foram amplamente utilizadas pelas potências dominantes tanto no passado quanto no presente, como meio para preservar seus interesses.
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A característica essencial da “liberdade de imprensa” na maioria dos países latino-americanos é que o jargão não permite distribuição de tempo equânime aos dois lados da notícia. Este padrão de comportamento pode ser visto quando comparamos o tratamento jornalístico destinado ao presidente Bush em comparação com o presidente Chávez.
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Curiosidade elementar: enquanto nos países centrais a crítica sobre o funcionamento da imprensa como grande empresa é um ato de lucidez básica, na periferia capitalista implica em sérias dúvidas sobre as convicções democráticas daqueles que esgrimem o argumento.
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Por que o jornalismo brasileiro – que desfruta
plenamente da “liberdade de imprensa” – não percorre os bairros de Cite Soleil,
escutando a dor e o desespero das vítimas da violência, que, segundo organizações
independentes, são praticadas inclusive por nossas tropas, além de também
escutar o “outro lado” do conflito, fortalecendo ainda mais as virtudes de
nossa democracia e as convicções da opinião pública?
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Entende-se a distância que as elites brasileiras
pretendem manter do que denominam as “mudanças chavistas”, pois estas, no
essencial, desataram na Venezuela um amplo processo de democratização do
Estado, de descolonização do poder e da política e de construção coletiva de um
projeto nacional que, no Brasil, somente se admite retoricamente.
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É compreensível o comportamento dominante na
mídia brasileira diante da medida adotada pelo governo da Venezuela, pois, em
nosso país, nos deparamos com dois fenômenos importantes que estão sendo
tratados lá: o primeiro, a superconcentração de capital no setor; e o segundo,
a política oficial de concessões.
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Entre todos os mecanismos que evitam a
concorrência, o mais apreciado pelos monopólios é aquele que garante a posição
de mercado (privilégio de monopólio) por 20 ou 30 anos por meio de lei. Este
era o caso, por exemplo, da RCTV e tem sido a norma para o setor das
comunicações, como para tantos outros em muitos países.
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A esquerda brasileira é predominantemente
liberal e somente cosmeticamente marxista ou radical. Qual é a razão pela qual
podemos dispor de 60 ou mais canais na televisão fechada, enquanto condenamos
grande parte da população à miserável programação dos canais abertos? Não
haverá informação, nem mesmo oposição inteligente. Restará a censura voluntária ou o culto do
ceticismo pseudocrítico, evitando a crítica orwelliana em seus pontos centrais.
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