“É saudável que os índices de participação nas eleições tenham caído; estranho seria o contrário”

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Passados dois meses da confirmação do impeachment de Dilma, as eleições municipais parecem ter referendado as previsões de diversos analistas: uma forte ressaca sobre o Partido dos Trabalhadores, avanço de partidos da direita tradicional quase por inércia, um pequeno crescimento da esquerda anticapitalista e, por fim, forte taxa de votos nulos, brancos e abstenções.

 

Como tem sido recorrente, há narrativas para todo gosto, em alguns casos com indisfarçada autocomplacência, em especial nos setores que se denominam progressistas, mas continuam em dúbia atuação nas mais diversas pautas que perpassam as cidades.

 

Sem dúvida alguma, o PT foi o maior derrotado. Apesar de estar no segundo turno em 7 cidades, a legenda capitaneada por Lula ainda não assegurou nenhuma localidade com pelo menos 500 mil habitantes.

 

Como castelo de cartas

 

O tamanho do baque pode ser medido apenas pela região metropolitana de São Paulo. Se em 2012 o partido venceu na maior cidade do país e formou um cinturão de prefeituras em importantes cidades vizinhas (Santo André, São Bernardo, Diadema, Mauá, Guarulhos e Osasco), em 2016 tal hegemonia se desmanchou no ar e em nenhuma delas o partido se reelegeu.

 

Certamente, o caso paulistano é o mais emblemático – e emocional. Vista como uma gestão positiva em relação a setores da classe média, mas não muito diferente das demais em relação aos mais pobres e periféricos, Fernando Haddad não conseguiu renovar seu mandato.

 

Como praga, a polarização ideológica procurada com o PSDB em 2014 voltou a cobrar o preço. Mesmo sem o engajamento midiático que já vimos a favor de outros grãos-tucanos, João Dória, controverso candidato da high society cuja campanha se apropriou da imagem do trabalhador comum, atropelou seus concorrentes de maneira que nenhum instituto de pesquisa pode prever e foi eleito logo no primeiro turno. Aparentemente, engoliu a votação de Celso Russomano, mais uma vez rejeitado na reta final, enquanto a campanha de Haddad tentava tomar os votos de Erundina, muito menos volúveis ideologicamente. O editorial da Folha de S. Paulo, que lamenta a ausência de segundo turno, é sintomático da estupefação geral.

 

Dessa forma, caiu por terra a elaboração do séquito lulopetista a respeito da “divisão nas esquerdas” que a candidatura de Luiza Erundina teria provocado. Mesmo porque não há praticamente nenhum pé na realidade em atrelar tais fileiras, exceto nos restritos círculos coabitados por pessoas que viveram o PT pré-2002, o que já não contempla a juventude brasileira criada sob relações e políticas sociais mercantilistas, sempre apresentadas como as únicas possíveis.

 

“Não adianta sair agora e falar ‘vamos retomar uma Frente de esquerda pra derrotar...’. Estão brincando. Ficaram 12 anos fazendo a ‘Frente’ com a burguesia financeira-industrial-agronegocial. Não dá pra chegar agora e dizer ‘vamos formar a Frente Popular’”, já dissera o sociólogo do trabalho Ricardo Antunes a este Correio, em novembro passado.

 

Ademais, se já não há muita unidade entre setores considerados “fora da ordem”, a realidade mostra ser quase impossível a recuperação de qualquer vínculo entre um e outro lado, o que pode ser notado nas recentes manifestações “Fora Temer”. Iniciadas ao melhor estilo junho de 2013 – boa dose de espontaneísmo; mosaico de pautas da juventude; presença de autonomistas, estudantes secundaristas que ocuparam escolas e até a volta de black blocs; sequência diária de atos –, já tiveram seus ânimos refluídos.

 

Posto que a desaprovação ao governo Temer continua gigante, parece legítimo afirmar que a ostensiva presença de setores governistas e movimentos sociais atrelados ou pelo menos tolerantes ao PT “desconvidaram” vários setores que foram às ruas em 2013 e continuam com “sangue nos olhos” – afinal, a sensação de bem estar social desapareceu do ar e não parece ter data pra voltar.

 

Por fim, o episódio da atividade de Haddad na Praça Roosevelt com setores mais ligados às artes e cultura parece ter jogado uma pedra em tal noção: para muita gente, foi chocante ver seus apoiadores vaiarem a intervenção crítica de moradores de rua, revoltados com o tratamento dispensado pela prefeitura a diversas ocupações de viadutos e locais públicos. A reintegração de posse do viaduto Alcântara Machado, marcada para 13 de novembro, certamente não depõe a favor de quem apresenta o petista como alternativa arejada.

 

“Haddad teve muitas contradições, passou um período difícil do país, com crise etc. E numa cidade historicamente conservadora aplicou políticas um pouco antipopulares, como a diminuição da velocidade dos carros. Haddad não foi reprovado só pela moradia, mas porque se aproximou muito da classe média e menos da periferia. João Dória foi eleito pela periferia e isso é o mais preocupante”, analisou ao Correio Natália Szermeta, coordenadora do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST).

 

Foi só por 20 centavos?

 

Muitas questões marcam uma cidade como São Paulo. Mas para ficar em duas que ocuparam muito espaço nesses anos, é de se pensar o preço que o prefeito pagou ao cerrar fileiras com o governo Alckmin e as empresas que exploram o transporte rodoviário em São Paulo na renitência de aumentar a tarifa – a despeito das inúmeras irregularidades que a auditoria contratada por ele mesmo já apontara na prestação de contas das concessionárias.

 

“Independentemente da reação de Haddad, junho de 2013 é uma ruptura da sociedade com a política institucional. É um sentimento profundo, em especial se lembrarmos que mobilizou muita gente, 2% da população brasileira. A rejeição ao sistema de representação e ao déficit democrático foram duas grandes pautas, aliadas aos pedidos de mais direitos, de atendimento daquilo que se considera essencial”, disse ao Correio o filósofo e professor da USP Pablo Ortellado, um dos autores do livro “20 centavos: a luta contra o aumento”.

 

 

Não é possível afirmar que a manutenção da tarifa em 3 reais durante todo o mandato poderia garantir um apoio maior de setores contra-hegemônicos e levá-lo à vitória, mas tampouco dá pra esquecer o fato de o prefeito ter comparado o Movimento pelo Passe Livre (MPL) ao Estado Islâmico em janeiro de 2015, quando voltou à carga no reajuste da tarifa, na mesma semana em que os radicais islamitas dizimavam a redação do semanário francês Charlie Hebdo.

 

 

Ao mesmo tempo, setores jovens ligados ao PT “furaram” o movimento e fizeram uma reunião de fachada para referendarem o aumento, em troca do chamado “passe livre estudantil”, que subsidia 50 passagens mensais a estudantes da rede pública. Sem contar que o estudante deveria se filiar a UNE para dispor do benefício. Ou seja, ao mesmo tempo em que se passava a perna no movimento que pauta a tarifa zero, fazia-se marketing em cima do próprio tema.

 

“Vejo uma relação indireta entre o aumento da tarifa e a derrota eleitoral. Haddad poderia ser visto como mais amigável à sociedade civil, mas a maneira como reagiu a junho só aumentou a rejeição a ele. Depois, a Lava Jato reforçou muito tal sentimento a que referi e a votação num não político, como Dória, também é reflexo dessa insatisfação”, analisou Ortellado.

 

Outro aspecto muito sensível ao movimento social da cidade era a promessa de entrega de 55 mil moradias populares, que inclusive gerara um boom de ocupações de prédios e terrenos. No entanto, os pilares da especulação imobiliária, que engoliu praticamente todo o território da cidade, não foram tocados e a moradia acessível, para além da opressão dos alugueis que extenua até a classe média, continua um sonho.

 

“Na habitação, Haddad sem dúvida deixou a desejar, mas é preciso considerar que houve toda uma discussão em relação à dívida pública. Ainda assim, deixou a desejar e não cumpriu a promessa. O problema habitacional é amplo, não é só fazer casa. Ele falhou não só na construção como na aplicação do pouco do que se consolidou no Plano Diretor, em termos de combate à especulação, mecanismos de controle do déficit habitacional etc. Mas é bom ressaltar que não é culpa de um governo, e sim um caso crônico no Brasil”, disse Szermeta.

 

Esquerda?

 

“PSB é o partido de esquerda que elegeu maior número de prefeitos em 2016”, é o título da nota veiculada nesta segunda-feira pelo partido da base aliada de Alckmin em São Paulo. Assim, compreende-se, para além de todo o debate crítico sobre o PT, a destruição do imaginário de esquerda nas mentes e corações da população, mesmo entre setores entusiastas de ideias de igualdade social e econômica e dos serviços essenciais como direitos indiscutíveis.

 

Parece muito mais um descolamento definitivo entre setores que nunca deixaram de pautar a necessidade de superação do ordenamento capitalista e aqueles que insistem em se apresentar como “mediadores da barbárie”, sob a crença no caminho da conciliação entre segmentos e classes diferentes, quando não opostos.

 

Se nas ruas isso já é razoavelmente visível, nos parlamentos carece de confirmação. Elementos não faltam, pois mesmo a festejada eleição de Eduardo Suplicy para vereador foi acompanhada da eleição de dois políticos do dito fisiologismo, por conta do quociente da votação referente à coligação da qual fazia parte o PT. Enquanto isso, a chamada “bancada ativista” lamenta ter ficado pelo caminho, mesmo com razoáveis votações, que não puderam ser potencializadas por alguma legenda de maior peso parlamentar.

 

“A esquerda tem condições de construir uma alternativa coerente a esse sistema político, que está falindo, com a radicalização sobre a democracia. De confrontar os efeitos da crise econômica sobre os mais pobres, com um programa de reformas populares e estruturais. E não tomar a institucionalidade como o único espaço da política”, analisou o líder do MTST, Guilherme Boulos no dia seguinte ao pleito, em entrevista à Rede Brasil Atual.

 

 

Apesar de transcorrerem num período menor de tempo, com menos financiamento empresarial e holofotes midiáticos, as eleições municipais parecem refletir as mesmas fraturas que os últimos três anos expuseram nas ruas e avenidas de um Brasil que, nas instituições, continua sem rumo, e fora delas parece cada vez mais contestador e politizado, a despeito de ressentidas análises.

 

 

“(Estou) abismado com a tal esquerda gourmet que está crucificando os pobres de São Paulo pela eleição do Dória. Impressionante!”, criticou frei João Paulo também na segunda, em seu twitter.

 

Nulos, brancos e abstenções

 

Por fim, já é hora de qualificar a análise em relação àqueles que não participam da “festa da democracia”, isto num país onde o voto é formalmente obrigatório – mas, sim, é possível não comparecer em determinado pleito, jamais justificar a ausência e mesmo assim ter sua situação eleitoral tida como regular pela Justiça Eleitoral.

 

Em São Paulo, pela quinta vez consecutiva viu-se o aumento da proporção do não voto, como mostra a matéria do Nexo. A última vez que a curva de votantes ascendeu foi em 2000, quando a população elegeu Marta Suplicy e aposentou o malufismo na capital.

 

No Rio de Janeiro, a despeito da euforia com Marcelo Freixo, o “ninguém” foi vencedor, com 38%. Em 22 capitais, essa categoria ocupa o primeiro ou segundo lugar numa imaginária classificação geral. Já o índice de títulos emitidos para adolescentes caiu 9% entre 2012 e 2016. Pra completar, em termos de eleições presidências verifica-se a mesma tendência de 2006 pra cá (sempre considerando primeiro turno).

 

“O absenteísmo é reflexo de tais sentimentos de rejeição à política tradicional. Não foi só em São Paulo que o voto em gente de fora do sistema se apresentou. Acho saudável que os índices de participação nas eleições tenham caído; estranho seria o contrário. O ponto é ver quais respostas serão oferecidas pra essa crise de representação e descaracterização da política”, resumiu Pablo Ortellado.


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Gabriel Brito é jornalista do Correio da Cidadania.

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