“Tardiamente, o Brasil compreende o peso do PMDB nas eleições municipais”

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As eleições municipais se encerraram em quase todo o Brasil, com exceção dos 55 municípios que ainda terão segundo turno. Enquanto o PMDB se manteve absoluto com mais de mil prefeituras e o PSDB ampliou sua inserção, vimos o PT perder espaço, apesar de outros setores da esquerda não acompanharem a decadência petista. Para analisar essas eleições entrevistamos o cientista político Humberto Dantas, professor da USP e da Fundação Escola de Sociologia e Política.

 

“Doria ganhou com a antipolítica e isso não pode beneficiar o político. Ou seja, que Geraldo Alckmin não imagine que possa chegar em 2018 e dizer não ser político, apesar de que andou ensaiando isso em algumas falas, como durante as ocupações das escolas, quando desqualificou o movimento secundarista dizendo que era ‘só um movimento político’. Ele próprio é um movimento político. O que então elegeu o Doria se não a política? Um discurso fortemente pautado na ideia do ‘ser bem sucedido’. E avalio que isso é construído em parte pelo governo Lula no discurso em relação ao consumo”, analisa Dantas.

 

Ao comentar a eleição do Rio de Janeiro, Dantas vê elementos gloriosos e trágicos. Glorioso é o fato de que a candidatura de Marcelo Freixo superou a de Pedro Paulo, mostrando que nem sempre quem porta todos os recursos vencerá. Por outro lado, vê a reação do eleitor como trágica por carregar fortes traços de intolerância política. Em âmbito federal, analisou que Temer tem como principal qualidade a capacidade de negociar com o Congresso e isto pode acalmar os ânimos em Brasília, sempre com a ressalva a respeito de possíveis intervenções do Judiciário.

 

“A relação entre o Executivo e o Legislativo tende a se tornar estável até pelo menos o começo de 2018, quando vamos assistir a alguns rachas devido a sucessão. E haverá também um ruído em fevereiro próximo por conta das eleições da presidência da Câmara e do Senado. Mas o Temer é extremamente hábil do ponto de vista da relação com o Legislativo. Ele conhece muito daquilo. Coisa que a senhora Dilma Rousseff poderia ter se aproveitado de maneira significativa, mas como ela era dona do planeta e resolveu acreditar no Mercadante como articulador político, acabou pagando o preço que pagou”.

 

Leia a entrevista completa a seguir.

 

Correio da Cidadania: Como analisa as eleições municipais deste domingo, 2 de outubro, em todo o Brasil? Quais as suas impressões gerais mais importantes?

 

Humberto Dantas: Vou concentrar minha resposta em alguns pontos que devem ser destacados. Primeiro, no que as novas regras trouxeram para a realidade do país – e não trouxeram parte do que se esperava. Foi uma eleição muito mais curta e que dialogou com um eleitor cada dia mais intolerante com relação à política. Ou seja, pouco tempo de campanha com muita intolerância pode findar, como resultado, em um aumento de afastamentos. Seja por votos brancos e nulos ou pelo aumento de abstenções em alguns lugares em especial. São fenômenos crescentes.

 

Só resisto um pouco ao olhar para os votos nulos da forma como as pessoas irresponsavelmente têm olhado, simplesmente dizendo que aumentou muito e ponto. Precisamos ver quantos desses votos foram anulados por decisões da Justiça no que se refere a impugnações de candidaturas. É um pouco cedo ainda para olhar para os votos nulos e precisamos esperar a Justiça Eleitoral se manifestar.

 

O segundo ponto é uma eleição com menos propaganda, que de certa forma poderia ser interessante se o eleitor estivesse interessado em procurar mais informações. Nesse sentido, a Justiça Eleitoral aprimorou muito, em primeiro lugar, o nível das propagandas de estímulo à participação política. Em segundo lugar, os seus espaços na internet, principalmente por meio do divulgacand, o sistema de divulgação de candidaturas. O trabalho de divulgação de candidaturas deste ano de 2016 da Justiça Eleitoral é algo para ser consolidado no Brasil e merece ser parabenizado.

 

Por fim, a questão do financiamento de campanha. Na minha opinião, não atenuou em nada as críticas feitas sobre as empresas, mas apenas desvendou práticas ignoradas ou ainda novas práticas que denotam não bastar uma nova lei para melhorar o país. Vimos aberrações expressivas e distorções absolutas em relação ao financiamento. Isso precisa ser considerado. E para começar uma mudança positiva é absolutamente necessário plantar uma cultura política democrática.

 

As novas regras não resultaram nos milagres que quem é legalista gosta de ditar e dizer, e precisamos olhar com atenção. O problema é que as respostas que vêm do Congresso Nacional dão conta de que teremos uma nova rodada de reformas políticas no Brasil e eu não sei se tais reformas trarão coisas melhores.

 

Correio da Cidadania: Quem mais ganhou e mais perdeu?

 

Humberto Dantas: Houve um derretimento nítido, visível e incontestável do PT, que como partido pagou um preço muito mais caro que os demais, sobretudo por conta de um linchamento ao seu nome e reputação que criou outrora, inclusive em relação ao chamado combate à corrupção etc. O PT pagou de forma absolutamente cara tudo o que se fez com sua imagem e o que ele mesmo fez com sua imagem. Ninguém é “bonzinho” nessa história: lincha-se mais o PT do que os outros, mas o PT também ultrapassou de forma significativa e ostensiva o nível do razoável. Temos um problema sério para discutir.

 

O PT já tinha mostrado que iria perder muito espaço. Havia demonstrado uma redução de quase 50% de candidatos encabeçando coligações nos municípios, redução muito acima da média dos demais. Também já tinha mostrado uma redução de cerca de 15% das candidaturas lançadas isoladamente e, consequentemente, como uma média ponderada, apresentou ainda uma redução de cerca de uma quarta parte de suas candidaturas espalhadas pelo país.

 

Se reduziu nas cidades, diminuiu sua presença nos municípios e pagou um preço muito caro no resultado das eleições. O PT caiu de mais de 600 prefeitos eleitos em 2012 (e já havia perdido cerca de 20% desses prefeitos ao longo dos últimos meses porque simplesmente saíram do partido, seja por brigas internas, ou por quererem se afastar da sigla; muitas campanhas sequer usaram a estrela e a cor vermelha) para pouco mais do que 200 e poucos prefeitos em 2016.

 

Essa sangria significativa do PT é em parte por conta de um sentimento de antipetismo que se construiu no Brasil, e em parte é um certo distanciamento da população em relação à esquerda. Poderíamos estar diante de movimentos cíclicos. Se levarmos em conta os dois mandatos do Lula podemos ver um afastamento em relação à direita e agora estaríamos vivendo uma onda contrária, de afastamento da esquerda. Uma variação comum, que acontece em muitos países. Mas aqui o PT pagou caro.

 

Os outros partidos de esquerda não pagaram tão caro assim. O PDT aumentou um pouco no número de prefeituras. O PCdoB cresceu bastante, apesar de ser muito pequeno. O PSOL manteve duas prefeituras, mas está no segundo turno em algumas cidades, e mesmo enfraquecido nelas é um partido que precisa ser considerado, pois foi para segundos turnos importantes. Ir para o segundo turno no Rio de Janeiro é muito emblemático para o partido. Por isso, a questão do refluxo e das dificuldades da esquerda é simbolizada predominantemente pelo PT.

 

Outro ponto é que o Brasil vai aprendendo tardiamente o peso que o PMDB empresta às eleições municipais. Por sinal, tenho pra mim que parte dos conflitos entre PT e PMDB se deu também porque o PT começou a entrar muito nos municípios e ligou o alerta do PMDB.

 

Existe uma relação conhecida na ciência política entre total de prefeituras conquistadas e número de deputados federais eleitos. Quer dizer, grandes bancadas do Congresso se fazem a partir de muitas prefeituras e isso se retroalimenta. Claro que existe o peso da cidade e toda uma complexidade, mas no geral pode ser dito com uma relativa tranquilidade.

 

A eleição municipal também poderia ser muito cara para o PMDB, um partido que não tem uma liderança nacional capaz de ganhar uma eleição presidencial. E a estratégia do PMDB ficou nítida nas vezes em que o governo Temer retardou todas as medidas impopulares que podiam ser tomadas, sobretudo no que diz respeito a ajuste fiscal, limitação de direitos sociais e coisas dessa natureza. Obviamente, não podia correr o risco de o partido se desgastar diante do eleitorado.

 

E a estratégia do PMDB se verificou bem sucedida. Está absolutamente claro que funcionou já que, de novo, o partido fez mais de mil prefeitos. Foi assim em 1996, 2000, 2004, 2008, 2012 e 2016. É muito emblemático porque nenhum partido chega nem perto de mil prefeitos. Para termos ideia, o último partido que chegou a mil prefeituras foi o PFL em 2000. E de lá pra cá nada mais chegou perto de mil prefeituras, a não ser o PMDB, um dado muito significativo. É o partido que mais candidatos lançou, o único partido que está presente em mais de 5 mil cidades – o PT chegou a isso em 2012, mas recuou fortemente. Fica nítido o peso das eleições municipais para o PMDB.

 

Alguns dirão que a maioria das cidades é pequena, mas não importa. Quem acha que eleição municipal se analisa a partir de São Paulo não entende nada de eleição municipal. Absolutamente nada. E é importante entendermos as eleições municipais no Brasil.

 

Um último ponto que eu destacaria foi um crescimento significativo do PSDB, que no final das contas é muito mais um transbordamento da diminuição da esquerda do que propriamente uma crença da sociedade brasileira no que o PSDB possa representar. Foi aquela máxima popular do “se só tem tu, vai tu mesmo”. Sobrou o PSDB como um partido que poderia, de certa maneira, ser uma alternativa para uma parcela dos cidadãos. E isso se torna muito claro na principal eleição que o PSDB venceu, em São Paulo.

 

Correio da Cidadania: Sobre a eleição de São Paulo em particular, o que explicaria a vitória tão acachapante de Doria? E a quais erros Haddad pagou o preço?

 

Humberto Dantas: A despeito do fato de ainda existirem 55 cidades com segundo turno, das 92 que poderiam ter, e a despeito do fato de o PSDB estar disputando a prefeitura em 19 dessas 55 cidades, nenhuma vitória do PSDB em nenhuma dessas 19 cidades será tão emblemática ou importante quanto a vitória do João Doria Jr. Com uma ressalva: tal vitória precisa ser lida da forma como ela de fato é, isto é, uma vitória do governador Geraldo Alckmin dentro do partido. Mas não acredito que seja uma vitória do Alckmin fora do PSDB.

 

João Doria não foi atacado pelos seus adversários porque ninguém daria conta dele no segundo turno, que dirá ganhando no primeiro. Ninguém o desmontou. Esperaram. Pensaram que, se ele passasse correndo, seria possível desmanchá-lo no segundo turno. Não foi o que aconteceu.

 

A campanha teve um ritmo importante, interessante e bem feito, mas apelou o tempo inteiro para a antipolítica. É o meu ponto: Doria ganhou com a antipolítica e isso não pode beneficiar o político. Ou seja, que Geraldo Alckmin não imagine que possa chegar em 2018 e dizer não ser político, apesar de andar ensaiando-o em algumas falas. Por exemplo, durante as ocupações das escolas, quando ele desqualificou o movimento secundarista dizendo que era “só um movimento político”. Ele é um movimento político. Ele é a política e não adianta tentar se afastar, pois fica ridículo.

 

O que elegeu o Doria se não a política? Um discurso fortemente pautado na ideia do “ser bem sucedido”, “ser trabalhador”, “ser rico”, “ser próspero”. E avalio que isso é construído em parte pelo governo Lula no discurso em relação ao consumo – aquela coisa de “as pessoas têm inveja porque eu coloquei o pobre no avião e na faculdade”. Precisa ser debatido com muita atenção, porque estamos diante de uma ascensão de valores de uma certa classe média, nova ou tradicional, que quer ser rica e ponto; quer consumir e ponto. Independentemente do que a política possa fazer de bom para as pessoas, e ela pode.

 

Estamos em um momento delicado de uma leitura social e a história do Doria que precisa ser vista com muitas ressalvas. Poderia fazer com que os partidos se habilitassem a pensar que em 2018 políticos não devem ser lançados à presidência da República, mas, sim, empresários bem sucedidos que dialoguem com a classe média nacional. Analiso que pode ser um grande tiro no pé, mas não duvido que aconteça.

 

Sobre o Haddad, avalio que ele pagou três preços. Pagou pelo desgaste do partido, dos seus principais líderes e do seu principal cabo eleitoral. A exemplo do Doria, o Haddad também era um poste político na época da sua eleição. Haddad em 2012 foi poste assim como o Doria em 2016. Os discursos foram bons e de certa maneira os elegeram. Não acho que o Alckmin tenha tido influência na eleição do Dória em termos de campanha, mas em termos de estrutura, como o Lula teve para o Haddad em 2012. E o fato é que Doria e Haddad são postes políticos.

 

O Haddad teria pagado um preço expressivo relativo ao desgaste do PT e suas lideranças, mas também sofreu com outros dois fenômenos. Primeiro, com a sua própria imagem. Ele foi extremamente duro, faltou muito jogo de cintura pra discutir com quem não gosta ou discorda dele. Aparecer entre os membros do partido tocando guitarra, descolado e sorrindo, é fácil. É como você ir na casa da sua mãe almoçar: pode sentar na mesa de cueca e que está tudo bem. Quero ver almoçar na casa do chefe. E o Haddad não teve jogo de cintura. Demonstrou uma dureza muito expressiva no trato com quem o criticava. Não teve paciência para a crítica.

 

Tenho dito abertamente que é típico de professor arrogante de universidade pública. Não estou chamando todos os professores de arrogantes, pois eu não faria uma estupidez dessas, mas é muito típico do meio acadêmico, do qual eu faço parte e posso tranquilamente dizer: nós somos arrogantes e não gostamos de gente que pensa diferente. Fique claro que nem todos, mas em boa parte somos, sim, arrogantes, onde eu me incluo – tristemente, é um defeito.

 

Terceiro ponto: a forma como as medidas do Haddad foram impostas na cidade e como foram lidas pela opinião pública. Esse outro problema dialoga muito com a questão da arrogância. A maneira como as medidas foram impostas na cidade, sem diálogo em muitos casos, e tratadas como verdades. Acabaram sendo assombrosa, forte e desproporcionalmente criticadas pela imprensa ou boa parte da grande imprensa, o que também prejudicou muito o Haddad.

 

A combinação desses três fatores faz com que o Haddad tenha optado, na minha opinião, pelo pior ritmo de campanha que poderia ter empregado. Que foi mais menos nesse tom: “não é que o meu governo foi ruim, mas por eu não ter gasto dinheiro com propaganda você não prestou atenção na minha genialidade” – e aí ele se deu mal. E ele disse com todas as letras, nem ao menos colocou um personagem para falar, ele mesmo disse. Na voz dele, esteve praticamente chamando o eleitor de imbecil. Foi uma campanha trágica. E isso divide. Quem o enxerga como um gênio e o ama e quem o odeia. E houve uma reação à figura do prefeito que pagou um preço caríssimo por um ritmo de campanha completamente atropelado.

 

E para piorar, trouxe para ser vice uma figura que o PT não engole. O petista não engole o Chalita. Complicou. Sei de gente que foi em eventos do Haddad onde o Chalita estava presente e houve conflito, confusão. Não era disso que o Haddad precisava para se reeleger, não é mesmo?

 

Correio da Cidadania: O que tais resultados refletem da crise política, econômica e institucional que paralisou o país nos últimos dois anos?


Humberto Dantas: Podemos pensar em alguns elementos colocados na primeira resposta. Temos uma descrença aguçada em relação à política, o que é muito ruim. As expectativas vindouras em relação ao plano federal vão colocar a política ainda mais em xeque porque vão começar as “maldades” e as dificuldades. O governo vai trazer coisas muito duras, difíceis e ruins que precisam ser trazidas matematicamente. Teremos desafios fiscais, previdenciários, trabalhistas e em termos políticos o cenário pode ficar ainda mais desgastado.

 

Também precisamos acompanhar a Justiça, que é hoje o grande ponto de interrogação e pivô da política nacional. É atípico o comportamento da Justiça. É razoável que a Justiça atue, mas já faz 30 anos que seria razoável – ela está um pouco atrasada. Mas vamos esperar para ver o que vai ser feito.

 

Correio da Cidadania: A ascensão do PSOL no Rio e a ida de Marcelo Freixo ao segundo turno significam pouco ou muito? Vê essa ascensão como algo importante para as esquerdas que se colocam ou tentam se colocar por fora do petismo?

 

Humberto Dantas: É impossível afirmar que a esquerda morreu. Isso é uma idiotice do tamanho de um bonde. Pode ter encolhido por meio de uma série de acusações, problemas etc.; como também por meio de uma fluidez do eleitorado que muda de lado e ocupa espaços diferentes sem grande adesão. Mas obviamente, tanto a direita quanto a esquerda têm seus adeptos mais claros, clássicos, convincentes e convencidos do que querem para suas vidas e para a sociedade. Não estou defendendo nem criticando ninguém, apenas dizendo que existem. A esquerda não poderia estar morta, mas ela pode estar fragilizada significativamente.

 

E o Rio de Janeiro sempre está numa certa vanguarda na negação das regras e da lógica. As eleições no Rio são normalmente a antítese daquilo que se percebe nacionalmente. Neste ano, se contrapôs à noção de que quem arrecada mais, usa mais a máquina e aparece mais no rádio e na televisão, vence. A eleição do Rio de Janeiro mostra que a despeito de recursos extremamente caros é possível que um candidato com praticamente tudo nas mãos perca. E foi o que aconteceu com o Pedro Paulo, ou seja, o Rio de Janeiro talvez tenha dado um sinal de que nem tudo está ganho quando se tem quase tudo nas mãos. E pelas razões conhecidas.

 

O prefeito do Rio insistiu com uma história assombrosamente bizarra. Apostar num sujeito que vem a público para dizer, em pleno século 21, que “sentou a borracha na mulher”... Não dá para acreditar que faça sentido ou que fosse se sustentar. O Pedro Paulo é o símbolo maior de que nem sempre, quando se tem tudo, está garantido. E é um excelente sinal, independentemente de o governo Paes ter sido bom ou ruim. É um sinal importantíssimo para a classe política brasileira.

 

Infelizmente, no entanto, as eleições do Rio de Janeiro estão sendo disputadas em um segundo turno por polos muito distantes um do outro. O que existe de mais conservador possível em termos de política versus o que existe de mais progressista. Se isso se convertesse num bom debate, ganharíamos muito como país, ou seja, os polos conseguiriam debater decentemente. Mas o grande problema é que temos assistido no Rio um festival de intolerâncias, principalmente por parte dos eleitores nas redes sociais, o que assusta qualquer mente sã. Mas não são todos. Sobrou um meio termo que se sentiu órfão e está querendo morrer, viajar, desaparecer e sumir – o que é ruim. Porque talvez adensem a descrença deles mesmos na política, o que é negativo.

 

Assim, o Rio de Janeiro é muito emblemático tanto positivamente quanto negativamente e precisamos refletir. Algumas coisas que têm sido lançadas na internet, algumas coisas que têm sido vistas, como uma foto de dois homens se beijando e a frase “se você quer isso pra sua cidade, vote no Freixo” – pô, onde que eu voto? É essencial: é tolerância, é vida em sociedade, em comunidade, é aceitar o outro, não pode ser visto sob um ponto de vista negativo.

 

Hoje vi uma notícia colocando até o PT no rolo, dizendo que o partido declarou apoio a Crivella. Aí você abre a notícia e ela é de outubro de 2014. Quer dizer, o PT apoiou o Crivella contra o Pezão. Tudo bem, traiu, fez parte do governo etc. Mas passou, hoje o PT está declaradamente apoiando o Freixo, inclusive já fecharam acordos. A baixeza, a mesquinhez, a guerra pela guerra, a disseminação de informação falsa – as coisas, como tem sido feitas, estão equivocadas. Assim o Rio de Janeiro vai aos extremos: ao da glória e ao da lamentação.

 

Correio da Cidadania: O que comenta do PT especificamente? O que esse pleito deve significar para o partido?

 

Humberto Dantas: Em diversos momentos, sobretudo no fim do governo Lula, falou-se o seguinte – e eu concordo com tal análise: Lula se tornou um personagem maior do que o PT. Tenho pra mim que estamos perto de ver o Lula se tornar algo que o PT terá de considerar menor que si próprio. Ou seja, é claro que o PT tem de defender o Lula, salvá-lo e falar bem dele, pois vai precisar. Mas em algum instante o Lula vai ter de ser uma página virada na história do PT. Não acho que o PT tenha que esperar a vida se encarregar, ou seja, daqui tantos anos o Lula morre e o partido muda o nome da Fundação Perseu Abramo para Abramo-Lula e está tudo resolvido. Não acho que seja isso. O PT tem de resolver seu problema, precisa se reinventar além da figura do Lula, reconhecendo seus erros.

 

Tenho ouvido muitos petistas reclamarem que cobra-se muito do PT e nada de outros partidos. Isso se deve ao fato de o PT ter sido o único grande partido que o país teve, em termos de estrutura e mensagem partidária. Não existe outro.

 

O PMDB desfez sua história de MDB, transformando-se numa confederação de legendas com lideranças localizadas que não dialogam entre si. Tanto que quando Michel Temer começou a lutar pela presidência da República, para assumir o posto, escrevi um texto para uma consultoria dizendo que o Temer não tem vocação de liderança alguma, pois um cara que preside o PMDB há mais de dez anos é um acochambrador, ou seja, um arrumador de casa. Ele é um mordomo, não um presidente da República. Um arrumador de vaidades. E quem disse o mesmo na semana passada? Fernando Henrique Cardoso. Nitidamente, o Temer não é líder e o PMDB não é um partido.

 

O PT foi o único partido do país e o Lula foi uma das maiores lideranças políticas da história do Brasil. E se chegamos ao ponto de Lula se tornar maior do que o PT, o PT vai ter que repensar seu papel como partido. Não pode se apequenar para onde a imagem do Lula muito provavelmente será mandada: o limbo. Não que concorde, mas é possível.

 

O PT precisa se repensar a partir da ideologia. Avalio que o PT vai ter de começar de baixo e correr muito atrás. Relançar nomes e criar uma nova característica de candidatos. À medida que conseguir espaços, governar de maneira emblemática. Será cobrado por isso, mas acho que tem como se reerguer no longo prazo.

 

Outro partido que também foi gigante no Brasil, mas nunca mais se encontrou foi o PFL, atual DEM. Mudou de nome, colocou uma arvorezinha bonita para simbolizar alguma coisa mais moderna, tentou de tudo. Fez mil prefeitos no ano 2000 e caiu de novo, ao fazer 200 e poucos em 2016. É um partido que também precisa se reinventar, mas não está sabendo fazê-lo. O PT pode cair em algo do tipo, mas o PT tem mais força como partido para tentar se reinventar e se reerguer. Do PFL muita gente foi embora. Tanto faz, entre aspas, ser do PFL, do PL, do PPB ou do PMDB para boa parte dos políticos.

 

O problema é que o PT também assumiu em parte essa característica quando inchou após a primeira eleição do Lula e recebeu muita gente que também não estava nem aí se era do PT ou de outro partido. O PT tinha a chave do governo federal e isso bastava. Agora que o PT desembarcou do poder, nós vamos ver quem é petista mesmo, e é partir de tais indivíduos que o partido terá de se reerguer para além do Lula.

 

Correio da Cidadania: Qual a relação entre esse crescimento dos nulos, brancos e abstenções com a cultura política brasileira, inclusive se observarmos seu crescimento nos últimos pleitos?


Humberto Dantas: Novamente, temos alguns extremos que são importantes. Em algum momento as pessoas vão entender e aprender que não adianta virar as costas, elas serão representadas, queiram ou não. Ou seja, é infinitamente mais conveniente se esforçar para encontrar o menos pior do que ignorar o processo. Em algum instante ainda vamos amadurecer, mas ainda falta.

 

Segundo ponto: é a eleição, disparadamente, em que eu mais assisti ao empenho de fundações, instituições, institutos, organizações, terceiro setor, fundações empresariais, meios de comunicação e justiça eleitoral tentando comunicar a importância das eleições e explicando algumas partes importantes dela. Fazia muito tempo que eu não via o que costumo chamar de educação política tão visível em algumas atitudes e ações. É pouco? Não tenha dúvida, é muito pouco. Mas é um pouco maior do que o nada e, se for tendência, vamos ganhar muito.

 

Correio da Cidadania: Que cenários enxerga para o país no próximo período, com Michel Temer entronizado na presidência sob intensa impopularidade? Acha que a instabilidade prosseguirá por tempo indeterminado?

 

Humberto Dantas: A relação entre o Executivo e o Legislativo tende a se tornar estável até pelo menos o começo de 2018, quando vamos assistir a alguns rachas devido à sucessão. E haverá também um ruído em fevereiro próximo por conta das eleições da presidência da Câmara e do Senado. Mas o Temer é extremamente hábil do ponto de vista da relação com o Legislativo. Ele conhece muito daquilo. Coisa que a senhora Dilma Rousseff poderia ter se aproveitado de maneira significativa, mas como ela era dona do planeta e resolveu acreditar no Mercadante como articulador político, acabou pagando o preço que pagou.

 

Não estou aqui para dizer se é golpe ou se não é. O que sei é que a Dilma ignorou a política da forma como ela é feita e pagou um preço caríssimo. Por sinal, os dois presidentes que ignoraram essa questão pagaram o maior de todos os preços: Collor e Dilma. São fenômenos diferentes, questões distintas, mas pagaram por dialogar mal com a política. É um ponto importante.

 

Do ponto de vista da política tradicional e das relações entre legislativo e executivo, o Temer é hábil o suficiente para manter em dia a sua relação com o Congresso. Mas volto a insistir que o peso da Justiça é importante, e precisamos ver com muita atenção, porque não é simples, não é fácil e pode desmanchar também com o novo governo. Não só pela ação que corre no TSE, mas também por todas as questões relacionadas às Operações Lava Jato, Zelotes etc. Não podemos deixar de lembrar um segundo sequer de que esse governo que saiu do poder acusado de corrupto teve o PMDB desde 2005 enfiado dentro do Palácio do Planalto. Ninguém é vice de alguma coisa sem estar envolvido.

 

Temos ainda de ver a narrativa que o governo vai vender para a sociedade em relação ao amargo remédio que nos dará. Temos visto constantemente nos noticiários o desafio e o interesse do governo em montar uma boa equipe de comunicação. Vai precisar dizer pra sociedade que o amargo na verdade é doce. O governo vai ter de aprender a falar, dialogar com a mídia, saber os preços de tudo... E sabemos que a coisa não é tão bonita quanto parece. Podemos esperar as coisas mais bizarras.

 

 

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Raphael Sanz é jornalista do Correio da Cidadania.

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