O modelo é um só

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A confirmação de Marina Silva como candidata a presidente pelo PSB alterou substancialmente as eleições presidenciais de 2014. A julgar pela primeira pesquisa do IBOPE, divulgada no dia 26, podemos estar diante de um cenário eleitoral imprevisível, com uma concreta possibilidade de derrota do governo Dilma, o que não tinha se colocado de forma tão clara até agora. Nem mesmo logo após o impacto do mensalão no início de 2006 o cenário foi tão incerto para o ciclo de vitórias petistas nas eleições presidenciais.

 

Claro que se pode estar ainda sob o impacto e a influência da trágica morte de Eduardo Campos, que recolocou em circunstâncias extraordinárias a ex-senadora Marina Silva novamente como candidata a presidente. Por esse cenário desenhado até aqui pelas recentes pesquisas, os tucanos são os perdedores imediatos, pois uma avalanche pró-Marina canalizaria os votos úteis do eleitorado, especialmente o conservador, que poderia ver nela a melhor alternativa para derrotar Dilma. Tal percepção se desenha mortal para o PSDB.

 

Já num segundo turno, os riscos para o PT são enormes de acordo com os primeiros dados, e a disputa Dilma versus Marina seria a priori imprevisível.

 

Mas há vários fatores que podem apontar para uma não confirmação de tais cenários. Para começar, Dilma está estabilizada com um eleitorado em torno de 40% dos votos e os índices de aprovação ao seu governo voltaram a subir. Além disso, com o início do horário eleitoral na TV e no rádio, a desproporção de tempo entre Dilma e Marina, e mesmo entre Dilma e Aécio, e o fato de o ex-presidente Lula ter já entrado com tudo na campanha da TV, seguramente, tendem a favorecer o governo.

 

Também não se deve desprezar a máquina tucana, segundo grande bloco dominante da política burguesa, que governa os dois estados de maior colégio eleitoral do país, São Paulo e Minas Gerais.

 

A possibilidade de a estagnação econômica em 2014, com destaque para a recessão na produção industrial e o eventual desemprego, afetar em curto prazo o governo não está, por seu turno, tão clara. É possível até a prevalência da percepção de que é melhor manter o atual governo, que poderia ser quem melhor tem condições de enfrentar a crise (tal como já sugeriu Lula no horário eleitoral).

 

De toda forma, abre-se um cenário possível de que, pela primeira vez após duas décadas, se rompa a polarização eleitoral PT-PSDB. O que torna imperativo que os movimentos sociais progressistas e as esquerdas se posicionem, considerando que o perfil de Marina tem grande entrada em setores progressistas, juventude e críticos ao atual modelo de “desenvolvimento”.

 

Uma análise atenta da natureza da aliança PSB-Rede e uma aferição objetiva das ambiguidades de Marina Silva na sua campanha eleitoral em 2010 demonstram que a candidata desta aliança não tem um projeto de país diferente dos candidatos dos blocos dominantes.

 

Não é preciso ficar no campo das posições mais conservadoras de Marina, associadas ao fundamentalismo religioso, que, por certo, não dialogam com as demandas de gays, lésbicas e transexuais, tampouco com a luta pela legalização do aborto, da maconha e várias outras lutas democráticas.

 

Há uma contradição insofismável entre o discurso da nova política e o pragmatismo das alianças adotadas pelo PSB, como o demonstra o fato de o chefe da legenda estadual em São Paulo ser o vice de Alckmin. Como falar de junho e nova política aliado ao PSDB, um governo que utiliza a repressão policial contra jovens, movimentos, pobres e negros?

 

Quando se fala da política de preservação do meio ambiente, talvez o mais forte perfil de Marina Silva, as incongruências saltam à vista: a começar pelo fato de que seu vice atual na chapa, representando o PSB, Beto Albuquerque, é ligado ao agronegócio e a favor dos transgênicos. Qual será o discurso de Marina em relação ao agronegócio? Manterá sua crítica à revisão do Código Florestal? O que falará quanto às grandes obras e megaprojetos tão apreciados pelos seus aliados desenvolvimentistas do PSB?

 

No que diz respeito à política econômica vigente – com a evidente dominância do capital financeiro, e consequente orçamento amarrado para o pagamento da dívida e juros; um modelo agroexportador ancorado nas commodities agrícolas e na superexploração dos combustíveis fósseis para responder à lógica de mercado; os megaprojetos e obras, que trazem as grandes empreiteiras como um dos setores chaves do modelo de crescimento –, a candidatura de Marina, até onde se sabe, não apenas não propõe uma ruptura, como defende a maior autonomia do BC. Ou seja, o aprofundamento das pressões do mercado financeiro na economia.

 

Em que pese o inegável peso eleitoral de Marina e o seu perfil ligado a uma permanente defesa da questão ambiental, será mais uma vez uma “terceira via” por dentro do sistema. Um alternativa, no melhor dos casos, híbrida, que parece flertar fortemente com uma lógica de ajustes na política econômica e agora ainda mais prisioneira da defesa de um modelo sustentável nos marcos do capitalismo e dos pilares da atual política econômica.

 

Não há como desconstruir os chamados “avanços” apresentados pelo governo PT-PMDB e a falsa alternativa representada por Marina Silva sem afirmar em alto e bom som que mudanças a valer, para o Brasil ser outro país, têm de ser estruturais, que outro modelo de desenvolvimento tem de partir da igualdade social.

 

Uma brutal crítica à desigualdade social histórica no país, mantida pela atual política econômica e seu modelo de “desenvolvimento”, é o caminho para se afastar da falácia eleitoral.

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