A virada necessária

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Resultado de imagem para haddad discurso depois da eleição
No último dia de outubro do ano fatídico de 2018 a Comissão Executiva Nacional do PT publicou uma resolução a respeito dos resultados eleitorais. Numa transcrição sintética, afirma que a candidatura Haddad-Manuela, representantes da democracia e do projeto de desenvolvimento com inclusão social, recebeu mais de 47 milhões de votos. Ao mesmo tempo, proclama que o PT elegeu a maior bancada da Câmara Federal e uma das maiores representações nas Assembleias Legislativas, além de quatro governadores seus e muitos outros de partidos aliados.

Por isso tudo agradece aos militantes do PT, PCdoB, PSB, PROS, PSOL e de outros partidos que votaram em Haddad, em defesa da democracia e dos direitos do povo. E proclama que no segundo turno formou-se uma verdadeira frente democrática, em defesa do estado de direito e da civilização, ameaçados pela candidatura fascista, frente que contribuiu para manter acesa a luta pelo progresso e pela justiça social.

Em seguida, acusa o processo eleitoral de ter sido marcado pela violência e pelo ódio político, a começar pela cassação da candidatura Lula, pela indústria de mentiras nas redes sociais de caixa 2 e sem debates no segundo turno, assim como pelos desvios e violência que a Justiça Eleitoral e o Supremo Tribunal Federal têm o dever de investigar. E reitera que, apesar de tudo, o PT continuará ao lado dos trabalhadores, do povo sofrido, da soberania do Brasil e da democracia, como sempre esteve há quase 40 anos.

Assim, promete resistir à reforma da Previdência contrária aos aposentados e aos trabalhadores, à entrega das empresas estratégicas e das riquezas do Brasil aos interesses estrangeiros, e à submissão do país aos Estados Unidos. Promete, ainda, resistir a todos os retrocessos que atinjam a agricultura familiar, os direitos de negros e mulheres, a valorização da Cultura e dos direitos humanos, e construir uma frente de resistência pelas liberdades democráticas, de organização e de expressão.

Para tanto, decide criar uma Rede Democrática de Proteção Solidária, reunindo advogados voluntários para reagir às violações dos direitos humanos e civis, das liberdades de organização, de imprensa e de expressão, assim como reforçar a campanha Lula Livre, porque tal campanha simboliza a defesa da liberdade, da democracia e dos direitos humanos. Para tanto, convoca seus diretórios regionais e municipais a se integrarem com os movimentos sociais, a Frente Brasil Popular e a Frente Povo Sem Medo, organizando plenárias de articulação para resistir, numa grande frente pela democracia e pelos direitos do povo, à eleição de um aventureiro fascista, fruto da campanha de ódio e de mentiras que manipulou o desespero e a insegurança da população.

A resolução da Executiva Nacional do PT poderia ter acrescentado que um dos objetivos principais do governo Bolsonaro será destruir o PT e demais partidos de esquerda. Se há alguma dúvida a esse respeito, basta consultar todas as entrevistas pós-eleitorais do presidente eleito e constatar que tal objetivo continua aparecendo como item principal de todas elas. Não por acaso Moro foi chamado para chefiar o ministério chave para essa empreitada destrutiva.

Apesar disso, o comando do PT não realizou, em sua resolução, um exame das causas de sua derrota eleitoral. Nem atentou para o fato de que a superação de tais causas será a condição básica para evitar a destruição do PT como principal instrumento de luta dos trabalhadores e das camadas populares. A resolução da Executiva Nacional do PT não emite qualquer opinião a respeito das causas que levaram a candidatura Haddad-Manuela a receber milhões de votos a menos do que os candidatos do PT nas eleições anteriores.

Nem opina por que alguns desses milhões de votos foram brancos, nulos ou mesmo carreados para Bolsonaro. Preferiu acentuar os aspectos aparentemente positivos da derrota (se é que isso é possível), e continuar no mesmo caminho das palavras de ordem genéricas a respeito da liberdade, democracia e direitos humanos.

Sequer citou a necessidade imperiosa de reativar suas organizações ou núcleos de base como instrumentos fundamentais para realizar uma oposição firme à ofensiva fascista. Também parece não fazer parte de seu horizonte a necessidade de fazer com que seus dirigentes e militantes, em especial nos estados do sul, sudeste, centro e norte do país, reaprendam a falar com o povo e para o povo, numa linguagem que atinja seus corações e suas mentes.

Nem sentiu a necessidade de especificar os assuntos concretos que, como cita genericamente, levaram desespero e insegurança ao povo, a exemplo da queda da produção industrial, do desemprego, da falência de grande parte do comércio, da corrupção, do aumento da criminalidade e dos assassinatos, incluindo os praticados pelos órgãos de segurança, fazendo o país viver uma verdadeira guerra civil não declarada.

Na batida de ignorar as causas da derrota, a Executiva Nacional do PT corre o risco, daqui a um ano, ou menos ou mais, de emitir uma nova resolução denunciando o avanço do fascismo e reiterando sua disposição de continuar na luta por democracia, liberdades, estado de direito, progresso, justiça social e civilização. Ou seja, de continuar repetindo mais do mesmo e sendo incapaz de fazer com que a luta de resistência consiga mobilizar grandes contingentes do povo que foi e continua sendo enganado pela pregação fascista.

As organizações e correntes democráticas, populares e de esquerda no Brasil estão diante da necessidade imperiosa de não mais terem “derrotas com aspectos positivos”, mas vitórias práticas que deem início à paralisação da ofensiva fascista e, num segundo momento, façam o fascismo recuar no rumo da derrota definitiva. O que só será conseguido se reconhecerem as causas mais profundas que levaram grandes camadas do povo brasileiro a enxergarem nas barbaridades fascistas uma solução para seus problemas e forem capazes de fazer com que tais camadas acordem para a realidade.

A história demonstra que em todas as batalhas, inclusive políticas, são comuns as derrotas. Mas, naquelas em que o comando é incapaz de analisar e tirar as lições da derrota, esta se torna permanente e destrutiva. Somente naquelas em que o comando foi capaz de analisar as causas da derrota e adotar medidas estratégicas e táticas para superá-las o caminho da vitória se tornou possível, mesmo com dificuldade.

O PT tem as condições indispensáveis para a análise de sua derrota e para a adoção das medidas estratégicas capazes de superá-la e de enfrentar o tsunami que ameaça destruí-lo: uma militância numerosa e aguerrida que, apesar de todos os erros dos últimos anos, ainda mantém laços com as camadas mais amplas e profundas do povo brasileiro e tem capacidade de reaprender a falar com elas e para elas. Só falta que seu comando tenha a capacidade de dar a virada necessária para que tais condições se tornem realidade. Creio que é o que pretendem todos os que não foram omissos na disputa contra a ofensiva fascista.

 

Wladimir Pomar

Escritor e Analista Político

Wladmir Pomar

Comentários   

0 #1 RE: A virada necessária sandro 23-11-2018 18:02
Assim acaba um lider traidor do povo
Chega a um momento que perde a serventia..mas esse e' outro assunto . E' hora de vonstruir uma frente de resistencia, mas sem a hegemonia de ninguem
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