Caminhos sombrios antigos e atuais

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Ainda há gente supostamente bem informada que descarta a possibilidade de o Brasil estar ameaçado pelo fascismo. Afinal, o representante público dessa corrente está concorrendo a eleições democráticas, com destemperos verbais considerados comuns em tais disputas. O que nos obriga a relembrar caminhos históricos idênticos ou aparentemente idênticos como uma das formas de nos precavermos da possível repetição de acontecimentos trágicos.

Tomemos o período que vai do final da década de 1910 aos anos 1930. Nessa época, duas profundas crises capitalistas seguidas afundaram o mundo nas matanças da Primeira Grande Guerra, impuseram uma derrota humilhante à tentativa da Alemanha redividir o sistema colonial implantado pelas outras potências imperialistas, levaram esse país a se debater numa profunda crise econômica e social, e prepararam o terreno para a hecatombe nacional nazista e para a hecatombe mundial da Segunda Guerra Mundial.

Antes do final da década de 1910, a Alemanha fora sacudida tanto pela tentativa de revolução espartaquista quanto por um poderoso movimento político nacionalista de ultradireita, ironicamente denominado Deutsche Arbeiterpartei (Partido dos Trabalhadores Alemães), um ano depois rebatizado de Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores Alemães, ou Partido Nazista, no qual ingressou e ganhou relevância o ex-cabo do Exército Germânico, Adolf Hitler.

Durante a década de 1920, esse partido caracterizou-se por ações violentas, inclusive massivas, de cunho nacionalista, racista, antissemita, antissocialista, anticomunista, antidemocrático e ditatorial contra opositores políticos e de outras nacionalidades. Os alvos principais eram aqueles que, real ou hipoteticamente, pretendiam seguir os exemplos da revolução russa de 1917 e haviam se jogado na tentativa revolucionária espartaquista de 1918.

Tais características se acentuaram com a crise capitalista global iniciada em 1929, que intensificou o desemprego massivo e a pobreza social. Explorando o descontentamento popular, assim como o temor da grande burguesia alemã e de parte considerável da classe média e dos cleros católico e protestante contra uma revolução socialista e/ou bolchevique, os nazistas granjearam o apoio de grande parte daquelas classes e aumentaram sua representação no parlamento (Reichstag), passando de 12, em 1928, para 107 em 1930.

Logo depois, em 1932, o Partido Nazista ampliou sua presença parlamentar para 230 deputados, a maior de então, embora minoritário no cômputo geral. Sua trama para a implantação de um regime ditatorial que superasse o desemprego através da produção armamentista e da preparação de nova guerra mundial avançou através da aliança com o Partido do Centro Católico, então dirigido por Franz von Pappen, chanceler do governo Hindenburg.

As denúncias de partidos democráticos, socialistas e comunistas a respeito dessa trama e do perigo mortal representado pela possível nomeação de Hitler como chanceler foram, porém, desconsideradas pelos demais partidos, incluindo o Partido Social Democrata (SPD). Este preferia acusar os comunistas pelos erros cometidos anteriormente (qualquer semelhança com a situação brasileira não é mera coincidência) e concentrar todos os seus esforços no apaziguamento de Hitler.

Nessas condições, embora os nazistas continuassem minoritários no parlamento, o Partido do Centro Católico, de Von Pappen, manobrou para a nomeação de Hitler como chanceler. Logo depois, na noite de 27 de fevereiro de 1933, os nazistas agiram rapidamente para criar um incidente de vulto e ter pretexto para implantar sua ditadura. Incendiaram o edifício do Reichstag, acusando os comunistas pelo atentado. Ao mesmo tempo, a pretexto de que tal incêndio seria apenas o aviso para o desencadeamento da “revolução bolchevique”, encarceraram milhares de comunistas, socialdemocratas e anarquistas por toda a Alemanha.

É verdade que, durante o julgamento dos principais acusados pelo incêndio do Reichstag, incluindo o búlgaro Dimitrov, a trama nazista foi desmascarada. O que não impediu, no entanto, que os nazistas continuassem sua ação para eliminar toda e qualquer oposição. Em junho de 1933, impediram o Partido Social Democrata (SPD) de participar do parlamento. A seguir proibiram os Nacionalistas (DNVP), o Partido Popular (DVP), o Partido do Estado (DStP) e o Partido do Centro Católico. Ou seja, não pouparam sequer a direita “civilizada”.

Em julho de 1933 o Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores foi oficialmente declarado partido único por um decreto-lei que ameaçou de punição com trabalhos forçados ou com a prisão todos que tentassem organizar novos partidos políticos. Nos meses e anos seguintes o Reichstag aprovou o Ato e as Leis que encerrariam definitivamente suas funções: o Ato que transferiu suas funções legislativas para o poder executivo; a Lei de Reconstrução, que aboliu a autonomia dos estados da Alemanha; e as Leis antissemitas, que legalizaram o assassinato de milhões de judeus, ciganos e outras populações “não-arianas” em campos de concentração.

Em 1934, Hitler fundiu os cargos de presidente e chanceler num só, o de Führer und Reichskanzler, tornando-se chefe das forças armadas. No período posterior, o regime nazista abandonou a Sociedade das Nações (a ONU da época), criou a Gestapo, o órgão máximo da polícia política (imitada no Brasil com a criação do DOI-CODI, durante a ditadura militar), acelerou a corrida armamentista, interviu na guerra civil espanhola, e passou a dominar militarmente países vizinhos, de modo a realizar a “guerra santa contra o comunismo” da União Soviética. A tragédia posterior a 1939, quando a invasão da Polônia desencadeou a Segunda Guerra Mundial, é conhecida, embora muita gente teime em desconsiderar seus precedentes.

Qualquer semelhança com que está acontecendo hoje no Brasil não será mera coincidência. Apesar do espaço histórico de quase cem anos entre a Alemanha da década de 1930 e o Brasil de hoje, e da diferença entre a burguesia germânica (extremamente nacionalista) e a burguesia brasileira (historicamente entreguista), há muitas identidades entre a atual situação brasileira e aquela vivida pela Alemanha. As figuras da ultradireita brasileira de hoje se assemelham às da ultradireita alemã de então, e o discurso da brasileira, mesmo descontando os neologismos, parece cópia fiel daquela.

Para conferir, basta ver e ouvir o que disse o candidato Bolsonaro a respeito da tortura, dos “erros da ditadura” ao não eliminar “uns 30 mil”. Ou o que disse seu filho Eduardo a respeito do fechamento do STF com apenas “um cabo e um soldado”. Ou os comentários do general candidato a vice a respeito das “raças” brasileiras” e da “nova constituição” a ser elaborada por um “conselho de notáveis”.

Nessas condições, se ocorrer o pior da vitória fascista no segundo turno das eleições brasileiras, pouco adiantará desculpas pelo “apoio crítico” desmobilizador ou pela “neutralidade” para não se parecer com os erros do PT. Todos, inclusive apoiadores não fascistas do “antipetismo”, são candidatos a entrar na fila dos “inimigos” do “novo regime” pretendido pelo bolsonarismo e apoiado pelo trumpismo da nação para cuja bandeira o capitão bate continência.

Mesmo porque o fascismo tupiniquim, ao contrário do nazismo, não poderá contar com uma corrida armamentista ou com outras medidas capazes de gerar empregos e reduzir as desigualdades sociais, mesmo provisoriamente. A política trumpista, assim como a crise europeia, não favorecem qualquer novo “milagre econômico” no Brasil. As políticas econômicas e sociais defendidas pelo “Posto Ipiranga” fascista tendem a agravar a situação de desemprego e de desigualdades econômicas e sociais.

Em tais condições, os grandes contingentes populares que, como na Alemanha dos anos 1930, acreditaram nas promessas fascistas e permitiram sua vitória eleitoral serão levadas ao desencanto, ao desespero e à luta, que só pode ser contida com mais fascismo ditatorial. Portanto, a experiência histórica fascista sugere atenção para o pior que pode acontecer.

Porém, mesmo que isso não ocorra, por precaução diante do futuro, será preciso fazer um balanço urgente e sério dos erros e defeitos cometidos pelas organizações de esquerda, principalmente pelo PT, nos 30 anos de democracia formal da Constituição Cidadã. Isso, em especial, naquilo que diz respeito à construção, fortalecimento e desenvolvimento de elos orgânicos profundos com as grandes massas populares do povo brasileiro, que constituem a maioria esmagadora da população, elos que foram perdidos por seu abandono frente às demandas das preocupações institucionais.

A perda desses elos, especialmente a partir de 1995, representa o que há de mais grave na atuação do PT. Não há nada que possa desculpá-lo por permitir que camadas diversas das massas populares brasileiras tenham se deixado enganar pelo discurso fascista e estejam dispostas a votar no candidato da ultradireita. Assim, mesmo que haja uma vitória contra o fascismo bolsonarista, tal vitória terá sido parcial, exigindo uma vigorosa virada na sua atividade política.

Primeiro, no campo ideológico, político e organizativo das camadas profundas do povo. Militante partidário só pode ser realmente considerado aquele que estiver relacionado às lutas cotidianas do povo trabalhador, dos excluídos e da classe média baixa. E só deveriam participar de funções governamentais aqueles que não só tenham conhecimentos técnicos para tanto, mas também um conhecimento claro dessas lutas cotidianas das camadas populares.  

Depois, na disposição de superar o que caracteriza negativamente nosso país. Isto é: atraso, dependência e subordinação econômica às corporações das potências capitalistas, assim como imensas desigualdades sociais e corrupção generalizada que transforma representantes políticos em lobistas de interesses empresariais espúrios. Ou seja, disposição e ação para superar tais características negativas pelo menos através:

1) do aumento dos investimentos públicos e privados na elevação da produção industrial e agrícola;

2) da geração de empregos, de poder de compra, de riqueza e de independência nacional que a elevação da produção industrial e agrícola permitirão;

3) da modernização e endurecimento das leis e ações de combate à corrupção, incluindo a praticada por dirigentes de partidos políticos (incluindo os do PT).

É inadmissível, por exemplo, que apesar das denúncias antigas, nada tenha sido feito para investigar Palocci, ou que algo idêntico se repita no futuro.
A luta em torno desse núcleo duro de políticas democráticas e populares é o que pode barrar a ofensiva fascista, ou evitar novas tentativas golpistas e novos renascimentos fascistas. Se a vitória for das forças populares e democráticas. Afinal, a esperança está sempre presente.

Wladimir Pomar

Escritor e Analista Político

Wladmir Pomar

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