A sorte está lançada

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A acirrada disputa eleitoral, opondo basicamente a esquerda e a direita do país, numa situação econômica e social cada vez pior, embora nem sempre os campos políticos estejam claramente delimitados, está levando parcelas da base da sociedade a acreditar que somente um “louco” pode dar jeito no país.

É evidente que há um histórico conhecido, no mundo e no Brasil, de que a efetivação de tal crença só levou a situações ainda piores e a desastres e desgraças incomensuráveis. Nos anos 1930 e 1940, a história da loucura fascista italiana e japonesa e do nazismo hitlerista alemão mostra que ao invés de resolver os problemas que atormentavam seus povos, os loucos que assumiram o poder político os agravaram com a pavorosa emergência da Segunda Guerra que incendiou o mundo todo e causou mais de 100 milhões de mortos.

Também valeria a pena examinar em que resultaram o encilhamento no início da República, o tratamento policial da questão social por Rodrigues Alves, a repressão da Policia Especial na ditadura varguista, o fichamento ideológico da ditadura disfarçada de Dutra e a matança indiscriminada da ditadura militar dos anos 1960-1970. Apreciando esses acontecimentos com visão crítica, todos eles tiveram início com o apoio de parcelas da população crentes de que as “loucuras” seriam capazes de endireitar os erros e consertar o Brasil.

No entanto, apesar dessas crenças, os resultados somados de tamanhas “loucuras” produziram uma nação atrasada, com soluços de desenvolvimento que murcharam a curto prazo, agravando a desnacionalização, a dependência e a subordinação da economia e da sociedade do país a algumas potências estrangeiras, assim como piorando as profundas desigualdades sociais herdadas tanto do escravismo colonial e imperial, quanto do republicanismo latifundiário da agregação, agora modernizado e travestido de agronegócio.

Apesar desse histórico nacional extremamente negativo, parcelas da população brasileira pobre e mediana o ignoram e acham que algum louco como Bolsonaro pode resolver a situação crítica em que o Brasil se encontra. É verdade que a esquerda política pode até argumentar que isso se deve, em grande parte, à campanha que a mídia da grande burguesia e que setores da classe média privilegiada realizam para impedir o retorno do PT ao governo. Mas isso não resolve o problema de ter que disputar o voto daqueles que, embora sejam os principais prejudicados se a loucura da ultradireita for guindada ao governo, estão dispostos a depositá-lo a favor de um louco.

Nessas condições, o “discurso” da esquerda, embora tenha que apresentar suas propostas econômicas, sociais e políticas para tirar o país do atoleiro a que foi levado por políticas erradas, destinada a beneficiar as grandes empresas monopolistas estrangeiras e nacionais, não pode ser do mesmo tipo terrorista que o tucanato está usando. Precisará ser particularmente incisiva na disputa dos corações e mentes das camadas populares, encarnando aquilo que pode ser considerado o “modo Lula de dialogar com as grandes massas do povo”.

É evidente que isso não é fácil. Muitos dos melhores oradores sindicalistas formados ao lado de Lula jamais conseguiram aplicar tal “modo de diálogo” a contento. Apesar disso, no entanto, na quadratura atual não basta o tipo de esforço democrático e popular realizado até agora para transformar em ofensiva a defensiva estratégica a que foi levada pela aliança golpista de 2016.

O discurso eleitoral da esquerda precisa, nessa reta final, tocar fundo nos corações e mentes dos desesperançados e conseguir mudar o voto na “loucura”. Esta, com promessas vagas, desconexas e fascistas, tenta conquistar o apoio de milhões de brasileiros desiludidos e indignados e impor ao Brasil, sob o manto do processo eleitoral democrático, um retrocesso ainda mais desastroso do que o do golpismo temerista e do que de todas as loucuras históricas pelas quais nosso país já passou.

É verdade que as pesquisas eleitorais recentes apontam para um aumento na rejeição da loucura e para um crescimento dos candidatos do campo popular e democrático.

No entanto, sempre é bom não se iludir com dados que podem não representar o conjunto do eleitorado e podem induzir a erros. E considerar seriamente que, como diria César, um imperador romano da antiguidade, também autor de muitas loucuras que levaram seu império à ruina, “alea jacta est”. Isto é, “a sorte está lançada”.

Espera-se que a esquerda, como um todo, saiba ler essa “sorte” com a seriedade que merece. Mesmo porque, se não souber, terá que deixar a autocrítica para as gerações vindouras.

Leia também:

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Wladimir Pomar

Escritor e Analista Político

Wladmir Pomar

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