Correio da Cidadania

Estados Unidos: 50 anos do golpe militar no Chile

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Ditadura sangrenta comandada pelo general Pinochet no Chile começou há 50  anos
Há meio século, uma ditadura militar instalou-se no Chile sob estreito acompanhamento dos Estados Unidos. Não seria a primeira do continente desde o alvorecer da Guerra Fria, porém, seria a mais chamativa da região por deslocar o país do ideário socialista, ratificado nas urnas em setembro de 1970, ao neoliberal, imposto pelas armas a datar da ruptura institucional em setembro de 1973.

Durante o período autoritário de mais de uma década e meia, o neoliberalismo castrense viveria propagado, embora de maneira distante da realidade, como modelo de eficiência socioeconômica diante de outros países com regimes similares como Brasil ou Argentina.

Formuladores e implementadores da doutrina neoliberal seriam afamados como Chicago Boys em alusão à maioria do grupo ter efetivado seus estudos superiores em economia na Universidade de Chicago em torno da visão de mundo de Milton Friedman.

A administração ditatorial não impediria, no entanto, duas recessões, por exemplo, nem estabeleceria a livre concorrência conforme advogado na retórica pelos neoliberais – o importante setor do cobre, nacionalizado na gestão de Salvador Allende, seria supervisionado pelo segmento militar.

A conjuntura internacional seria favorável à política do novo governo em seus primeiros passos em decorrência do grande abalo econômico ocasionado pelos reajustes expressivos do petróleo entre o final de 1973 e início de 1974. A medida havia sido determinada pelos principais produtores do Oriente Médio e cercanias como severa retaliação ao Ocidente depois do resultado da Guerra do Yom Kippur.

Desamparada em face da súbita elevação da cotação do barril de petróleo, a social-democracia da faixa norte-atlântica se desgastaria bastante de modo célere e proporcionaria, destarte, condições apropriadas para a emergência do neoliberalismo norte-americano a ser implementado de forma pioneira em solo chileno não por capacidade de convencimento, via eleição presidencial, mas por coerção, via golpe de Estado.

A incisiva intervenção executada localmente, ao valer-se da deslealdade de parte do alto oficialato das forças armadas, havia sido amadurecida além-mar, ao utilizar-se a Casa Branca da insatisfação das corporações nacionais cujas filiais haviam sido estatizadas no Chile como a de minérios ou a de telefonia.

Assim, a Agência Central de Inteligência (CIA) auxiliaria a implementação da tomada de poder. Naquela época, o fomento da ação decorria da preocupação do desdobramento de dois acontecimentos de estrepitoso impacto nos interesses de Washington: a Revolução Cubana e a Guerra do Vietnã. Ambos influenciavam posicionamentos distintos na América Latina e Caribe.

O primeiro era materializado em movimentações de índole transformadora, conquanto de impacto prático reduzido, como Bolívia, onde faleceria Che Guevara em 1967 ao ser capturado pelo exército, Peru e Colômbia. O segundo era concretizado com golpes internos ou com intervenções externas, malgrado a rubrica institucional, como no Brasil, República Dominicana, Argentina, Chile e Uruguai.

A intensidade da circulação de um polo embasava a atuação do outro, ainda que o desequilíbrio de poderio entre cada um fosse considerável. Agremiações revolucionárias dependiam de diminuto apoio logístico, às vezes oriundo de nações comunistas, ao passo que as conservadoras costumavam estar à frente das administrações e contar com ocasional socorro norte-americano.

Em situação de transição na economia, o Chile de Salvador Allende se depararia com a intransigência política dos Estados Unidos de Richard Nixon, de maneira que o governo teria destino bem trágico, ao tornar-se aviso para polos progressistas da América do Sul.

A Guerra Fria em sua fase final assistiria ao desmoronar das ditaduras militares na região: Argentina, Uruguai, Brasil, Paraguai e, por último, Chile. De modo surpreendente, o neoliberalismo de hoje em dia já não procede da espada, mas da pena de partidos no passado de esquerda.

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Virgílio Arraes

Doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

Virgílio Arraes
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