Estados Unidos e Brasil: o insuficiente gesto de aproximação de Washington

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Alvo da curiosidade digital inadequada dos Estados Unidos durante bastante tempo, o Brasil adotou postura de retaliação diplomática, ao cancelar a visita da presidente Dilma Rousseff a Washington, programada para o final de 2013.

Decisão cautelosa até porque no transcorrer da presença da dirigente por lá novas informações poderiam vir a lume e embaraçar os dois mandatários. Estimava-se que não o volume da documentação liberada por Edward Snowden, porém o seu correspondente grau de confidencialidade seria superior ao revelado pelo então soldado Bradley Manning anos antes. Até o momento, ninguém acusou o analista foragido aos olhos da lei estadunidense de comerciar os segredos.

Com a conclusão da Guerra Fria desfavorável à Rússia na transição da década de 80 para a de 90, muitos aguardaram - ou alardearam - nova posição das agências de espionagem: ao invés de bisbilhotar a toda hora administrações, elas se dedicariam a coletar informes de empresas consideradas rivais de similares norte-americanas.

Em vez da política, portanto, a preocupação seria relativa à economia. Com o atentado terrorista de 11 de setembro de 2001, o foco se alteraria, embora com ajustes porquanto a atenção se direcionaria de maneira direta a organizações extremistas, não a governos, a não ser que conectados àquelas por meio de financiamentos, por exemplo.

A dificuldade, no entanto, para os órgãos estadunidenses não é o de coleta ou de captação de dados: é a de interpretação das informações provindas de variadas plataformas civis digitais. Se durante o conflito amero-soviético cada unidade administrativa valia-se de canais específicos para a circulação de notícias, hoje as agremiações fundamentalistas dispensam isso, em função das possibilidades ofertadas pelas redes sociais, de caráter privado e em sua maioria de origem norte-americana.

De modo tradicional, países costumam acompanhar a movimentação de servidores – em geral, diplomatas ou militares – de outras nacionalidades em suas cidades. A depender da análise de suas andanças e de contatos, vigilâncias com muita atenção podem ocorrer.

Em regimes autoritários, os dirigentes preocupam-se mais com a circulação de estrangeiros, em vista da expectativa de contatos (considerados ilegais ou incômodos) com a oposição ou com empresários de determinados ramos.

Em casos extremos, declarar um e outro personae non gratae é possível, embora infrequente. Este tipo de ação, ainda que incomode o corpo diplomático, não é avaliada como ríspida ou ameaçadora, por defender o próprio território, logo o interesse nacional.

Todavia, o século 21 alterou a forma de atuar: o espião, civil ou militar, é até certo ponto dispensável, porque o aperfeiçoamento da tecnologia permite a execução do serviço à distância e de modo mais discreto. Em havendo denúncias e, por conseguinte, repercussão de monta, o planejamento se esboroa por determinado período.    

Em junho do mesmo ano, Keith Alexander, general de três estrelas sob cuja titularidade estava a Agência de Segurança Nacional (NSA), havia tentado justificar o programa de vigilância e, destarte, retirar de Snowden mérito em tornar pública a atuação ilegal de supervisão global dos norte-americanos, embora este argumento não fosse aceito pela burocracia daquela gestão - https://www.theguardian.com/world/2013/jun/23/nsa-director-snowden-hong-kong

A invocação é sempre a de resguardar os cidadãos de ações terroristas. Naquela altura, Snowden estava sem passaporte válido e com um pedido de prisão. Rússia, país com o qual os Estados Unidos não têm tratado de extradição, ser-lhe-ia opção de asilo, local em que reside até os dias atuais.   

Conquanto não tenha havido desculpas públicas ao Brasil, o dano no relacionamento cotidiano da Casa Branca com vários países da região seria identificado em discurso em novembro na Organização dos Estados Americanos (OEA) por John Kerry, equivalente a ministro das Relações Exteriores.

De acordo com ele, a fase da Doutrina Monroe findara. A despeito dos fundamentos preocupantes emitidos em face das revelações cibernéticas, ele cria na constituição de relações futuras, amparadas, por sua vez, em valores democráticos. Eis o formato, por meio de mesuras diplomáticas, de reconhecer o equívoco, ainda que sem informar se ele seria mantido ou não - https://2009-2017.state.gov/secretary/remarks/2013/11/217680.htm.    

Virgílio Arraes

Doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

Virgílio Arraes

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