Estados Unidos e Brasil: negócios, não queixas

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Bastante pragmática, a diplomacia norte-americana ante o continuado esperneio brasileiro diante das fundadas denúncias de espionagem indicou a substituição momentânea de tópico na pauta bilateral: em vez de política, com servidores a trabalho de maneira secreta, economia, com a presença pública de aplicadores privados.

Em sendo um dos países de maior investimento no Brasil, os Estados Unidos não podiam ser menosprezados, a despeito do correto queixume governamental. Na realidade, a lamúria de Brasília derivou da revelação das ações de Washington, não de sua execução em si, visto que administrações espionam umas às outras, de acordo com suas capacidades.     

Em se alterando o norte da relação bilateral, o destaque seria a vinda do empresariado de porte, provindo de companhias do setor militar, alimentício, farmacêutico, agrícola e quejandos, ao Brasil, com o propósito de diversificar parcerias. Naquele ano, os ventos estavam bastante favoráveis ao comércio estadunidense.

Em setembro de 2013, missão brasileira havia se dirigido a Washington com a perspectiva de tratar de diretrizes de livre comércio, ainda que sem êxito – na prática, havia o desejo de ampliar o acesso do agronegócio pátrio ao mercado norte-atlântico.  

Tais iniciativas de cá e de lá costumam ser coordenadas pelo Conselho Empresarial Brasil-Estados Unidos (CEBEU), estruturado em 1976, com a participação de duas entidades importantes: a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e a Câmara de Comércio dos Estados Unidos. A entidade agrega mais de cem empresas, dentre as quais figuram algumas entre as maiores do planeta.  

Naquela época, o objetivo principal da viagem ao Brasil do grupo empresarial era o segmento aeronáutico, haja vista a possibilidade da venda de três dezenas de caças, almejada havia anos, com a perspectiva de se chegar a um valor próximo dos cinco bilhões de dólares ao cabo da comercialização - https://brasil.elpais.com/brasil/2014/02/07/internacional/1391794397_572010.html.

O problema dos mercadores norte-americanos era a posição de insatisfação dos dirigentes brasileiros com as denúncias de bisbilhotice oficial, em cujas cotidianas apurações estariam informações sobre o planejamento da Petrobras, por causa em tese das reservas do pré-sal, estimadas como a joia da coroa nacional.

A decepção da espia talvez tenha sido muito intensa a Brasília por conta de Washington estar sob titularidade dos democratas, a princípio menos conservadores do que os republicanos e, destarte, mais propícios ao diálogo, logo à cooperação.   

Apesar do mencionado desgaste no relacionamento bilateral, o Brasil não concederia, no entanto, asilo político ao divulgador da intromissão norte-americana: Edward Snowden, funcionário de prestadora de serviços – Booz Allen Hamilton - à Agência Nacional de Segurança (NSA), obrigado a abrigar-se em território russo em junho de 2013, local onde reside até hoje.   

Negociar com empresas estadunidenses no campo bélico poderia significar aos olhos da opinião pública pátria vergamento ainda maior ao desgastado Planalto diante das necessidades mercadejantes da Casa Branca.

Desta sorte, a inclinação temporária de Brasília com o fito de adquirir os aviões se dirigiria a Estocolmo e, em menor escala, a Paris. Washington compreenderia que a eventual modificação de parceiro decorreria também da proximidade da eleição presidencial de 2014, momento no qual os trabalhistas no poder há três mandatos pelejariam com os socialdemocratas no segundo turno.

Na altura, o nacionalismo, mesmo de maneira secundária, seria cobrado por parcela do eleitorado. Isso poderia claro influenciar de modo decisivo o resultado do pleito. Assim, o Planalto precisava portar-se de forma enérgica em função da Casa Branca.  

Virgílio Arraes

Doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

Virgílio Arraes

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