Estados Unidos e Brasil: confusão em torno da espionagem eletrônica

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2013 representa claro momento de divergência na ampla coligação presidencial. A insatisfação veio de um dos aliados mais tradicionais do trabalhismo: os socialistas, unidos a ele no plano nacional desde a eleição de 1989 quando se definiu a composição Lula da Silva (PT) e José Paulo Bisol (PSB).

A materialização do descontentamento seria firmada no ano seguinte com a candidatura própria da agremiação, encabeçada por Eduardo Campos e Marina Silva, embora uns considerassem os indícios de dissabor naquela altura como mero boitatá.

Em que pesasse o favoritismo da reeleição da presidente Dilma Rousseff, registrado nas várias pesquisas, seu antecessor no Planalto se preocuparia de modo presciente com eventual possível cisão e com seus futuros efeitos na governabilidade.

Todavia, a preocupação urgente do governo trabalhista não era com a sobrevivência das alianças internas, mas sim com a de maior importância externa, a norte-americana, por causa das denúncias de bisbilhotice de assuntos brasileiros por servidores públicos daquele país.

O assunto levou ao funcionamento – vez que havia sido instituída em julho - de uma comissão parlamentar de inquérito (CPI) no Senado Federal, sem a colaboração inicial da oposição socialdemocrata. Assim, sua abertura seria com oito indicados dos onze parlamentares imprescindíveis. Nem sequer todos os suplentes haviam sido indicados pelos partidos.  

Ela em tese poderia apurar a extensão dos dados coletados sem autorização por outrem, mesmo de maneira estimada, bem como apontar as falhas na proteção das comunicações do alto escalão da administração federal. Como segunda medida da câmara alta, houve a proposição de voto de censura contra a Casa Branca. Por último, sugeriu-se à primeira mandatária a suspensão da viagem à capital estadunidense em outubro.

Cancelar o deslocamento demonstraria o desprazer de Brasília com o posicionamento impróprio de Washington de recolha irrestrita de informações – tal procedimento não se teria limitado a princípio aos metadados, ou seja, à identificação geral de ligações telefônicas, ao se mencionarem o destinatário e a duração da chamada, porém ao teor.

Por outro lado, suspender a visita ao dirigente-mor Barack Obama seria renunciar a palco de escol para denunciar a postura inadequada da gestão do Partido Democrata. Como setembro é o mês de abertura da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (AG/ONU), a diplomacia pátria poderia valer-se desse momento para externar sua contrariedade diante do enxovalhamento de sua soberania por potência avaliada já não como parceira, entrementes adversária.

De forma simultânea, granjear também apoio internacional, haja vista situação similar de outros países, como México, ou blocos como União Europeia (UE) ou Mercado Comum do Sul (Mercosul). Se fosse mais incisivo o aborrecimento da administração trabalhista, o embaixador, Mauro Vieira, junto à Casa Branca poderia ser até convocado a retornar.     

As medidas de retaliação, mesmo simbólicas, condicionavam-se à configuração de manifestação do governo norte-americano, isto é, se haveria desculpas e de que maneira elas seriam encaminhadas à contraparte brasileira. De modo cauteloso, o Planalto não as exigiria oficialmente, sob risco de desmoralizar-se ainda mais, em caso de menosprezo pela Casa Branca.

Na visão estadunidense, sua própria inquietação não se relacionava com o ânimo da burocracia brasileira, porém com a possibilidade de prejudicar-se na disputa de comércio dos caças, no seu caso com o F-18, com franceses e suecos  – a venda ultrapassaria sem dificuldades a cifra do bilhão de dólares.

Como compensação pelo comportamento avaliado como insultuoso, Washington cogitaria acenar a Brasília com o apoio à quimera de ingresso como membro permanente do Conselho de Segurança onusiano (CS/ONU).

Sem efeito prático, o galanteio diplomático serviria, contudo, para acalmar o gabinete presidencial pátrio, ao preservar-lhe ao menos a imagem perante a população.

Virgílio Arraes

Doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

Virgílio Arraes

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