Brasil-Estados Unidos: a esperança na diplomacia presidencial de Dilma

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Há a expectativa ou ao menos a esperança entre diversos governos brasileiros de que seus interesses – ou suas aspirações - fossem reconhecidos pelas principais potências como mundiais, não sul-americanos ou no máximo sul-atlânticos, a despeito da expressa ausência de condições materiais para isso.

A chancelaria e os meios de comunicação costumam enaltecer a atuação de alguns dos dirigentes-mores pátrios através da denominada diplomacia presidencial, ou seja, da valorização excessiva do mandatário do momento em suas atividades internacionais.

Há por vezes boas iniciativas, porém carentes de execução plena como a ideia de aproximar-se da América do Sul, por meio do financiamento de projetos de infraestrutura, ou da África, via ampliação da rede de representações.

Sem dúvida, a disposição para levá-las adiante é expediente útil ao desenvolvimento nacional, desde que aplicadas com transparência como no caso continental ou como passo inicial na dimensão lusófona.

No primeiro semestre de 2012, a atenção maior do Planalto voltava-se para a visita da presidente Dilma Rousseff a Barack Obama. Seria a retribuição dela à viagem do dirigente do norte ao país em março do ano anterior.

Naquele período, a oferta econômica de Brasília a Washington era pequena, ao concentrar-se no campo energético. De toda forma, a pauta tinha de ser reduzida, dado que a preocupação prioritária da Casa Branca se ligava ao próprio pleito presidencial em novembro.

Assim, havia o desejo de que o etanol pudesse tornar-se uma commodity aceita, até em decorrência da valorização do produto em 2011 no mercado estadunidense – preço acima disso ocorreria só em 2015.

Outrossim, a chamada zona petrolífera do pré-sal atraía a atenção, por localizar-se fora de área (potencialmente) turbulenta como o Oriente Médio, o Cáucaso ou até a faixa do Orinoco na Venezuela, por causa do governante Hugo Chávez.  

Na esfera política, existiam dois tópicos importantes: um próximo geograficamente, vinculado à 6ª Cúpula das Américas, a ser realizada na Colômbia, logo após o deslocamento da mandatária brasileira à capital norte-americana.

Encontros presidenciais são rotina chancelar de feitio pouco extenuante, mas havia naquela cimeira um ponto simbólico a concertar: a incorporação de Cuba em futuras rodadas. Os Estados Unidos opunham-se de maneira formal à presença vindoura do pequeno país, ao mencionar o aspecto ditatorial de Havana, fator a seus olhos impeditivo de participação. Na prática, a objeção referia-se à manutenção do regime comunista, mesmo de modo abrandado.       

O segundo seria bem distante e dizia respeito ao conflito civil sírio, ainda em fase inicial. A Casa Branca aspirava à saída do ditador Bashar al Assad, com a finalidade de implementar democracia ao estilo ocidental. Nesse sentido, aguardava o apoio do Planalto ao seu projeto.

Por outro lado, Damasco buscava alongar sua sobrevivência; destarte, contataria o grupo dos BRICS, em torno do qual orbitava Brasília, embora em posição secundária, haja vista a presença de Moscou e de Pequim.

Nele, o Brasil não conseguiria fechar posição de consenso, visto que Rússia e China não concordariam com o afastamento do governante da Síria, posição defendida pela Liga Árabe (LA), entidade de duas dezenas de países da região médio-oriental, junto à Organização das Nações Unidas (ONU).

Ao cabo dos preparativos rumo à Casa Branca, o Planalto optou por centrar-se na parte econômica, de característica tecnocrática e, portanto, mais previsível. A prudência de Brasília justificava-se, vez que seria improvável na política exterior acarinhar Washington a contento sobre Havana e Damasco.  

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Virgílio Arraes

Doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

Virgílio Arraes

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