Brasil-Estados Unidos: as expectativas para o último ano de Barack Obama

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2012 seria momento de pleito presidencial nos Estados Unidos. Assim, a preocupação da Casa Branca voltar-se-ia para o interno à medida do possível. Se durante três anos de gestão o democrata Barack Obama demonstrou interesse insuficiente à América Latina, o quarto não seria diferente – registre-se que seu antecessor, o republicano George Bush Jr., pouco diferiu dele no tocante à dedicação a assuntos do continente.

Dois países sobressaíam de maneira negativa aos olhos do bipartidarismo estadunidense concernente à região: a tradicional Cuba, resquício da intransigência da Guerra Fria, liderada pela família Castro e a emergente, em razão da ascensão progressiva dos preços do petróleo desde 2009, Venezuela comandada por Hugo Chávez a datar de abril de 2002.

Graças à importância seminal do produto no cotidiano da economia latino-americana, ele pôde executar a chamada petrodiplomacia, voltada para a disseminação de ideário de cooperação local.

Na simplificação conservadora dos formuladores e decisores de Washington, Havana e Caracas simbolizavam no bolivarianismo a marca do autoritarismo e da nacionalização, não da colaboração. No linguajar monocórdico dos Estados Unidos, a América Latina só precisaria aplicar duas antigas recomendações: a de livre comércio e a de democracia, desde que formal.

México e Bogotá completavam o quadro desfavorável, em decorrência da preocupação com a movimentação desenvolta de organizações delinquentes, em especial as vinculadas ao narcotráfico. Santiago forneceria o aspecto positivo na perspectiva da Casa Branca, ao ser presidida por Sebastián Piñera, em torno do qual existia uma coligação neoliberal.  

Do outro lado na vastidão americana, a mandatária Dilma Rousseff começaria seu segundo ano à frente do Planalto ainda com a imagem resguardada de burocrata eficiente, ou melhor, de tecnocrata exemplar.

Nesse sentido, as expectativas quanto à projeção de sua imagem ao correr de seu mandato inicial seriam contidas, haja vista seu carisma ser menor se comparado com o de seu predecessor imediato, Luiz Inácio Lula da Silva.

De todo modo, o otimismo circulava em sua administração, dado que o crescimento econômico havia chegado a praticamente 4% em 2011. Em termos de projeção internacional, o antigo dirigente trabalhista havia legado a ela a realização da cimeira Rio + 20, atualização em solo pátrio da Eco 92.

Na América do Sul, o país dividia a atenção em termos políticos com a desacanhada Venezuela. Com a retirada de Lula do proscênio nacional e o ingresso de Dilma nele, Chávez seria mais chamativo aos governos continentais, tendo em vista sua retórica de união.

Nos BRICS, acrônimo inadequado para abarcar as singularidades de seus cinco membros, não havia espaço suficiente para o Brasil diante da dimensão do poderio militar da Rússia e do econômico da China.

Quanto ao relacionamento do Planalto com a Casa Branca, Brasília aguardava naquela fase bons sinais de Washington, a despeito do desgaste em virtude da divergência entre ambos sobre o rumo a ter sido concedido à Líbia ao tempo da séria crise da longeva ditadura de Muammar Kadafi.

De toda sorte, esperava-se para aquele ano a retribuição da visita de Dilma Rousseff a Barack Obama. Ela ocorreria em abril e teria por foco dois pontos: biocombustíveis – etanol - e educação superior – a divulgação do polêmico programa Ciência sem Fronteiras em cuja concepção não se contemplou o arco das disciplinas de humanas.

Virgílio Arraes

Doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

Virgílio Arraes

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