200 anos da Revolução Pernambucana – Bárbara de Alencar

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Degradadas de forma irmanada, a política e a economia no Brasil desesperançam os cidadãos locais, mortificados ao assistir de maneira diária o triste desdobramento da crônica dos maus costumes de importantes filiados das primeiras agremiações partidárias ou de seus agregados.

Nem sequer a tessitura do registro de cada partido envolvido nas investigações difere: em cada explicação própria a seus simpatizantes, oferta-se a ideia de que alguns de seus membros têm sido sacrificados em prol da manutenção de interesses de uma elite nacional em torno da qual eles por suposto se recusaram a compor ou a ela associar-se, mesmo de modo temporário.

Na justificativa partidária individual, tombaram seus representantes por postar-se ao lado da população, não contra ela, ainda que o comportamento cotidiano não comprove isso – de fato, a recente transação concertada entre trabalhistas e peemedebistas entrou em colapso devido à incompetência gerencial do grupo à frente do neoliberalismo tropical, não do questionamento de diretrizes.

Desalojados dos gabinetes oficiais, pregam os mesmos petistas a morigeração outrora evocada para chegar ao Executivo federal em 2002 em vista da postura dos autodenominados socialdemocratas. Todavia, após quase década e meia à frente do poder, já não são mais imaculados para oratória de caráter tão regenerador, ainda sem expiação do passado.   

Em face de tal quadro, foi possível aproximar, jamais unir, durante o processo de desalojamento de titularidade do poder dos trabalhistas e quejandos conservadores e progressistas, por razões bastante diferentes sem sombra de dúvida. Aos primeiros, o descontentamento com a condução do leme reacionário; aos segundos, a decepção com o menosprezo à imperativa necessidade de redução do hiato social.            

Todavia, a narrativa cravada entre os adeptos do trabalhismo não seria a de queda por tibieza material após a aplicação de ocasional sanção judicial, após apurações policiais, mas por firmeza ideológica conjecturada, logo moral.

À acusação de fraqueza administrativa em grau extenso aos governantes federais, contrapõe-se de modo seco a de renovação espiritual, ou seja, a eleitoral, não a de explicação incisiva diante das dúvidas das inquirições oficiais.

Em apenas um mundo neobarroco seria possível acomodar histórias tão díspares a partir do mesmo acontecimento. Como exemplo, há a destituição de Dilma Rousseff do cargo maior do país por ampla votação congressista e, ao mesmo tempo, o perdão a ela pela falta de tino administrativo, ao manter-lhe os direitos políticos.

No primeiro semestre de 1817, dezenas e dezenas de brasileiros foram tratados a ferro e fogo pelo governo real após a necessária rebelião a favor de tratamento mais igualitário entre locais e reinóis.

De ouvidos moucos, a administração bragantina recusou-se a debater reforma mínima. Diante da intransigência, eclodiu a movimentação pátria rumo à república e federação em parte do Nordeste contra o despotismo lusitano.

No Crato, região do Cariri (Ceará), a pernambucana de Exu Bárbara Pereira de Alencar, já viúva, seria punida de maneira exemplar pela Coroa.

Apoiadora de primeira hora da sublevação contra a tirania governamental, ao incentivar sua família a participar e dispor de recursos, ela seria presa com três filhos, dois dos quais padres.

Passaria ela por cárcere em Fortaleza, Recife e Salvador, onde seria contemplada com a anistia geral em agosto de 1821, decorrente da implementação do constitucionalismo em Portugal – 1820.

A revolução na interiorana vila durou menos de dez dias. A ideia inicial seria levá-la de lá a Icó, depois a Sobral e, por último, a Fortaleza. Um dos motivos do fracasso teria sido a ausência da surpresa em sua proclamação em decorrência da prisão efetuada de revolucionário na Paraíba com documentos sobre a sedição.

O detido era homem de confiança do padre José Martiniano de Alencar, filho de Bárbara. Além do mais, a notícia dos insucessos no Rio Grande do Norte e em Pernambuco também contribuiria para o malfadado fim do levante cratense.

Com o término abrupto da insurgência, o capitão-mor do Crato ofereceu a Bárbara fuga da cidade, desde que permanecesse acomodada em sua fazenda. No entanto, ela recusaria o favor e acompanharia os filhos; todos algemados seriam conduzidos até Fortaleza.

No caminho até a capital, eles eram ofendidos e humilhados – os bens haviam sido confiscados. Lá, como até hoje em todo o país, as condições prisionais eram péssimas – vide a tentativa frustrada do artigo 179 da Constituição de 1824 de ao menos atenuar isso: “as cadeias serão seguras, limpas e bem arejadas, havendo diversas casas para separação dos réus, conforme suas circunstâncias e natureza dos seus crimes”.  

A família de Bárbara, em face de sua liderança, ainda apoiaria o movimento de independência formal em 1822, a partir do envio de tropas para o Piauí sob liderança de seu filho Tristão Araripe, e a Confederação do Equador em 1824.

Em 1831, ela seria perseguida por aderentes do motim do coronel Pinto Madeira, de feitio absolutista, e se refugiaria no Piauí. Em agosto do ano seguinte, faleceria. Jazem seus restos no Ceará no município de Campos Sales.

Em dezembro de 2014, a presidente Dilma Rousseff sancionou a lei 13056 por meio da qual o nome da primeira prisioneira – e líder, por que não? – política do Brasil seria inscrito no Livro dos Heróis da Pátria em Brasília. É hora de evocar os valores de “dona Bárbara do Crato” diante da crise nacional.

Leia também:

200 anos da Revolução Pernambucana – a República do Crato

200 anos da Revolução Pernambucana

Virgílio Arraes

Doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

Virgílio Arraes

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