Estados Unidos – a corroboração do pêndulo à direita 

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Chega-se ao fim de 2016 nos Estados Unidos com o lamento de parte da população acerca do resultado da eleição presidencial, em que o êxito coube a um representante do segmento mais retrógrado do país, embora ele próprio tenha sido considerado entre os democratas, como se expressou em fevereiro o ex-presidente Jimmy Carter, menos rígido em termos ideológicos que o texano de ascendência cubana-canadense Ted Cruz. 

 

De fato, a vitória de Donald Trump foi uma surpresa, ainda incomestível para liberais e mesmo para certos setores republicanos – em janeiro, Jeb Bush, ao aspirar a ser o terceiro presidente da família em 25 anos, havia zombado do chamativo septuagenário empresário nova-iorquino, ao alcunhá-lo de ‘candidato do caos’ em um vídeo, onde se destacava o pouco lustre do pleiteante em assuntos de política internacional ou de religião. Entrementes, Bush seria um dos primeiros desistentes, ao retirar-se da campanha após poucas semanas.  

 

Por outro lado, os autoconsiderados progressistas, alojados de forma acomodada em sua maioria no Partido Democrata, não refutaram o perfil bastante tradicional de sua principal expoente, Hillary Clinton. 

 

Seu oponente interno, Bernie Sanders, foi desconsiderado para eventual composição de chapa desde o início da peleja, bem como Elisabeth Warren, ainda que com adjetivos condescendentes. Desta maneira, os liberais contribuíram para a presente elevação do patamar do conservadorismo na política estadunidense, aspecto, no entanto, comum a várias sociedades, entre as quais a brasileira, desde o encerramento da bipolaridade.

 

Por exemplo, a proposta de reforma do sistema financeiro do senador de Vermont, ao ter por referência a da década de 30 (Glass-Steagal) não seria avaliada como digna de apreço – a legislação daquela época seria modificada no final da segunda gestão por um dirigente democrata, Bill Clinton, em 1999. 

 

Aos olhos dos assessores da candidata, a proposição de Sanders nem sequer abarcaria o complexo quadro do segmento – ao apenas dividir o setor bancário entre o de varejo e o de investimento. O tratamento rigoroso a ser destinado a todos eles foi um ponto no qual ele tentou se distinguir de Clinton, porém, ao cabo da contenda, pesou-lhe isso de maneira desfavorável. 

 

Afinal, como ele próprio lembrou ao longo da competição, uma das instituições mais tradicionais e influentes do mercado global, a Goldman Sachs, havia tido dois ministros/secretários da fazenda extraídos de seus quadros nos últimos anos. De modo singular, cada agremiação partidária recepcionou um: Henry Paulson pelos republicanos e Steven Mnuchin pelos democratas.

 

Durante o primeiro semestre, a ascensão de Trump solidificou-se, de sorte que seus adversários importantes, Ted Cruz e John Kasich, abandonariam a disputa em maio. A renúncia de ambos não representaria ajuda imediata a ele, ainda que ele obtivesse o apoio da controvertida National Rifle Association (NRA). A justificativa do representante do Texas para não patrociná-lo decorria de ofensas proferidas por ele a sua família.

 

A postura pouco polida do afamado homem de negócios iria aflorar de forma mais séria no final da corrida presidencial, ao ser acusado várias vezes de ofensas verbais e até físicas a mulheres.   

 

No entanto, nem sequer isto seria suficiente para impedir seu êxito em novembro, ao superar sua concorrente democrata por setenta e quatro votos no restrito colégio eleitoral, não obstante sua derrota entre a população – quase três milhões de votos a menos, isto é, pouco acima de dois por cento, a maior diferença até hoje na apuração da participação da sociedade.     

 

 

Virgílio Arraes é doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

 

Virgílio Arraes

Doutor em História das Relações Internacionais pela Universidade de Brasília e professor colaborador do Instituto de Relações Internacionais da mesma instituição.

Virgílio Arraes

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