2015

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O que poderemos esperar da economia para o próximo ano?

 

Sob o ponto de vista do governo, os objetivos são claros. Com o anúncio dos novos integrantes de sua equipe econômica, tendo à frente o economista Joaquim Levy, parece que a receita ortodoxa da “freada de arrumação” foi o caminho escolhido.

 

Dilma Rousseff, depois de perseguir a retomada do crescimento econômico durante os quatro anos do seu primeiro mandato, vê-se, talvez, surpreendida com os péssimos resultados colhidos: dependendo do dado preciso do PIB para esse ano de 2014 – que será péssimo, abaixo de 0,5% -, a média de crescimento anual do país neste período estará situada em uma faixa entre 1,5% e 2%, uma das mais baixas médias de toda a nossa história.

 

Além disso, outros resultados evidenciam problemas mais graves. Nossas contas externas, estruturalmente deficitárias no tocante a serviços e rendas, passam novamente a apresentar déficit na balança de comércio, agravando a nossa necessidade de atrair recursos pela conta de capital, através de empréstimos em moeda estrangeira ou viabilizando a entrada de capitais externos para aquisição de ativos, fixos ou financeiros, ampliando com isso o nosso passivo externo.

 

O grande problema é que temos uma conjuntura externa muito desfavorável para todos os países - como é o caso, infelizmente, do Brasil - que apostaram todas as suas fichas, nesses últimos anos de bonança do comércio internacional, na exportação de commodities agrícolas e minerais. Os preços desses produtos no mercado internacional vêm desabando, como consequência ainda da crise financeira de 2007/2008 e da desaceleração das economias asiáticas, tendo à frente a China.

 

Estas são apenas algumas das dificuldades a serem enfrentadas. Internamente, o realinhamento de preços no setor elétrico e dos combustíveis, o ajuste da taxa de câmbio – com a necessária desvalorização do real, buscando elevar a competitividade das exportações e estimulando o setor industrial –, além de medidas que reavivem o aumento da taxa de investimento na economia, são exemplos das complexas tarefas que este segundo mandato de Dilma terá de responder.

 

É a partir desse quadro que o receituário ortodoxo deverá ser avaliado. Joaquim Levy, o novo ministro da Fazenda, promete inicialmente prioridade no chamado ajuste fiscal. O objetivo seria promover uma reformulação fiscal da ordem de 50 bilhões de reais, entre medidas de aumento de receitas e cortes de despesas. Pelo lado da receita, fala-se na volta da cobrança da Cide (contribuição embutida no preço dos combustíveis), da CPMF, no aumento da alíquota de PIS/COFINS sobre importados e a elevação da tributação de importação de bens supérfluos.

 

Pelo lado das despesas, o foco será o rígido controle da expansão dos gastos correntes do governo federal, tendo na mira, mais uma vez, as despesas previdenciárias, os gastos de pessoal e programas sociais. Não é gratuita, por exemplo, a onda de uma série de estudos e projeções alarmantes sobre o suposto déficit da previdência, que voltam a ser apresentados na mídia dominante, procurando justificar a necessidade de uma nova rodada de mudanças nas atuais regras de aposentadorias do INSS.

 

Também estará sendo congelada a operação de transferências de recursos do Tesouro para os bancos públicos, o que trará inevitáveis impactos na dinâmica de investimentos no país. Esta é uma questão extremamente delicada, pois a chave do entendimento para o baixo crescimento atual – ou mesmo a estagnação econômica – encontra-se justamente na dificuldade de o país vir a ter taxas de investimento elevadas. Com a pífia participação do setor público, esta taxa tem oscilado entre 16% e 18%, muito aquém do que seria o necessário para um novo ciclo duradouro e sustentado de crescimento.

 

Para piorar ainda mais esse quadro, e frente ao agravamento da crise econômica internacional – com impactos mais graves em relação aos países exportadores de petróleo –, o Banco Central sinaliza que manterá a trajetória de elevação da taxa básica de juros, em um momento em que a expectativa é, também, para esse ano de 2015, do anúncio da elevação da taxa de juros nos Estados Unidos.

 

Essas medidas criarão ainda mais dificuldades para a aposta que o governo faz, de a retomada dos investimentos vir de decisões da esfera privada. O governo diagnostica que haveria uma crise de confiança do empresariado, mas o fato é que essas decisões privadas, de novos investimentos, vinculam-se sempre ao binômio segurança/rentabilidade e, nos dias atuais, com focos de incertezas globais, a rentabilidade dos negócios estritamente financeiros, ancorados na dívida pública, parece despertar muito mais o espírito animal dos capitalistas do que a suposta vontade genérica de um empreendedorismo produtivo.

 

Por tudo isso, infelizmente, parece que percorreremos uma trajetória que aguçará o nosso impasse político. O impasse representado por uma sociedade que se move na busca de novos horizontes – conforme as manifestações populares de junho de 2013 deixaram claro – ao mesmo tempo em que encontra um sistema político e um modelo econômico engessados.

 

Neste aspecto, os desdobramentos das investigações da Operação Lava Jato serão um vetor a mais na crise política de representação que vivemos. A tradição de um acordo por cima, buscando minimizar prejuízos e consequências aos poderosos interesses envolvidos, desta feita poderá não se concretizar. Ao mesmo tempo, a possível recessão econômica causada pelo ajuste prometido irá acelerar os conflitos de uma sociedade que, frustrada em seus anseios, exigirá – de alguma forma – mudanças substantivas na economia e na própria política que nos dominam.

 

Paulo Passarinho é economista

Comentários   

0 #2 RE: 2015Netho 14-12-2017 15:16
O que diria a "lei fundamental da revolução" de Lênin? As classes subalternas ainda se sujeitam a viver da mesma maneira e as classes dirigentes mantêm a mesma forma de dominação e controle com pouco esforço. A conciliação lulo neopetista deu mais fôlego e facilitou a consolidação da hegemonia da Casa Grande. Agora, somente agora, Lula começa a ver as consequências do pacto conciliatório com a plutocracia e os grandes latifundiários do 'agro pop".
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0 #1 RE: 2015Netho 13-12-2017 17:48
O articulista utiliza a expressão recessão, quando o que houve no país foi uma "depressão econômica". Dois anos consecutivos de PIB negativo ultrapassam até mesmo os números negativos da crise de 29, da crise de 73, da crise de 82 e da crise de 90.O ano de 2018 não será melhor do que o ano de 2015. Vivemos um "grande salto para trás".
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